Jards Macalé, um morcego na porta principal

Documentário sobre o músico chega aos cinemas nesta sexta-feira

Augusto Gomes, iG São Paulo |

"Maldito é a mãe". A frase é dita por Jards Macalé a certa altura de "Um Morcego na Porta Principal", documentário sobre sua vida que estreia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro. Ele tem bons motivos para não gostar da palavra: nos anos 1970, o termo maldito era, com o perdão do trocadilho, uma maldição. Definia uma série de artistas que faziam música "difícil" e, por isso, eram sinônimo de fracasso de público. Além do próprio Macalé, nomes como Tom Zé e Jorge Mautner entraram na lista.

O mais correto seria definir Macalé como "provocador". O músico carioca, de 67 anos, é assim desde a década de 60, quando apareceu vestido de Batman no IV Festival Internacional da Canção para cantar "Gotham City", uma contundente crítica à ditadura militar que foi recebida com vaias. Do refrão dessa música ("Cuidado! Há um morcego na porta principal") saiu o título do filme de Marco Abujamra que joga um pouco de luz sobre a história de Macalé. E mostra que, por trás da alcunha de "maldito", está um das mais criativas figuras da música brasileira.

Quando Maria Bethânia surgiu, em 1965, Macalé estava ao seu lado. Também dirigiu Gal Costa na fase mais experimental de sua carreira. Teve papel fundamental num dos melhores trabalhos de Caetano Veloso, Transa . Organizou o Banquete dos Mendigos, show que teve a coragem de defender a declaração universal dos direitos humanos em pleno governo Médici. Ainda lançou poucos mas ótimos álbuns (seu disco de estreia, de 1972, é uma obra-prima), fez várias trilhas para o cinema, foi gravado por algumas das maiores cantoras do Brasil.

Tudo isso está em "Um Morcego na Porta Principal". "É o lado A da minha carreira. Falta agora fazer um filme com o lado B", brinca Macalé. Nesse lado B, entrariam "a barra pesada política, o sexo, o rock'n'roll e a falta de dinheiro". "Mas, pensando bem, a falta de dinheiro também está no lado A", diz. É que, segundo o cantor, o documentário é chapa branca. "O Marcos (Abujamra, diretor do filme) e o João (Pimentel, jornalista e co-diretor) são meus fãs e meus amigos", explica.

Não é o que parece ao se assistir à primeira cena do longa. Nela, Macalé ameaça processar os produtores se eles não respeitarem a sua história. "Aquilo é o Macalé ator, é sacanagem minha. Tanto que a cena foi gravada no último dia de filmagem", explica o músico. Mas, de acordo com o diretor Marco Abujamra, não foi bem assim. "A situação foi muito tensa. A gente realmente achou que ele poderia processar a gente", diz. "Mas eu entendo essa reação. É a história dele, afinal".

Boa parte do documentário é composta por imagens dos anos 70 (filmadas pelo próprio Macalé em super 8), preservadas no lendário baú do artista. "Ele é um cara super organizado, por mais que a imagem dele indique o contrário", conta Abujamra. Dessa vez, Macalé confirma a versão do diretor e revela que até contratou um arquivista para botar ordem no material. "Tudo que eu fiz foi abrir o baú para eles. Não escolhi nada, não dei pitaco", diz.

O lançamento nos cinemas é o fim de um processo que durou sete anos. "Eu ingenuamente acreditava que todo mundo iria patrocinar um documentário sobre uma figura como o Macalé", ri Abujamra. A maior dificuldade foi pagar os direitos autorais das músicas presentes no longa. "O filme está pronto há dois anos, mas não tínhamos dinheiro. Gravadoras, editoras, tudo isso é muito caro", explica.

Para Macalé, os planos para o futuro incluem o lançamento de seu primeiro DVD. "Estou desenvolvendo ideias com o (cineasta e artista plástico) Artur Omar", revela. "Não sei ainda o que será. Sei que não será apenas um show, nem será um documentário". Um novo álbum, só depois que DVD chegar às lojas. "Quem sabe algo com mulheres. Elas gostam de cantar minhas músicas", adianta.

Assista ao trailer de "Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal":

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