Iron Maiden se emociona com público em São Paulo

Ovacionada, banda lembrou no palco do Morumbi a tragédia no Japão e conflitos no mundo árabe

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Jorge Rosenberg/iG
Bruce Dickinson leva mão ao peito: Iron Maiden tocou para 55 mil pessoas em São Paulo
Lá pela metade do show do Iron Maiden em São Paulo, na noite calorenta deste sábado (26), o primeiro da turnê brasileira, Bruce Dickinson parecia desnorteado. O público gritava o nome do vocalista, ele tentou dizer uma frase, não conseguiu. Bateu no peito, emocionado, e o exército formado por 55 mil pessoas de camiseta preta que lotaram o estádio Morumbi começou o coro de "Maiden, Maiden". "Esperamos seis semanas desde o início da turnê mundial para finalmente estar aqui", disse, finalmente, Dickinson. A plateia delirou. É mais ou essa a relação que os fãs brasileiros mantêm com a lenda do heavy metal, e justifica a frequência com que os britânicos vem para cá – esta é a nona passagem do grupo pelo Brasil. Veja o Fotoshow do Iron Maiden em São Paulo

Ao mesmo tempo, não é uma relação, digamos, completamente sincera. O show já havia avançado algumas músicas quando o vocalista se dirigiu ao público para avisar que o repertório traria uma mistura de canções novas, do álbum futurista “The Final Frontier”, lançado em agosto do ano passado, e “muita coisa legal das antigas”. Além disso, prometeu que aquela seria uma “noite especial”, guardada especialmente para os brasileiros. Se ele se referia ao setlist, não cumpriu: as 16 faixas foram as mesmas tocadas nos demais shows da América Latina e até no começo da turnê, em fevereiro, na Austrália.

O que não é um demérito. Desde o início percebe-se que o espetáculo segue um roteiro bem elaborado, casando vídeos, imagens no fundo do palco e intervenções tecnológicas. Enquanto uma parte da plateia torce o nariz para “The Final Frontier”, deixando bem claro que o álbum não é uma unanimidade, a outra, bem maior, canta junto e comemora as faixas. Foi assim logo na abertura. Um vídeo com espaçonaves, muito fogo, o monstro Eddie – mascote da banda – e até águas-vivas acompanhava a parte instrumental da faixa-título, até que o sexteto, enfim, surgiu no palco. No fundo, luzes brilhavam para simular a vastidão do universo, até porque o céu da cidade não estava nada estrelado.

Jorge Rosenberg/iG
O baixista Steve Harris em ação: destaque
“Scream for me, São Paulo”, gritou Dickinson, naquela que é sua marca registrada. Sua performance, aliás, continua exatamente a mesma – vestindo calça camuflada e uma camiseta onde se lia “Psych Ward” (ala psiquiátrica), Bruce cantou muito, deu seus saltos acrobáticos e correu de um lado para o outro do palco, andando por cima das plataformas montadas ao lado da bateria. As estruturas, seguindo o conceito do álbum, eram a fuselagem de uma nave. O Iron Maiden sempre teve uma quedinha pela dramaturgia.

A primeira música a levantar o público de verdade foi "2 Minutes do Midnight", do disco “Powerslave”, de 1984, prova de que, apesar da boa vontade, os fãs queriam mesmo era vibrar com os sucessos, como na turnê de greatest hits "Somewhere In Time", de 2008, que passou pelo país com três shows esgotados. O povo urrava no refrão e pulava junto meio inconscientemente, no ritmo do baixo de Steve Harris.

Está aí, inclusive, algo que nunca deixa de impressionar no Iron Maiden ao vivo. Apesar da competência do pelotão de guitarras de Janick Gers, Adrian Smith e, principalmente, Dave Murray, é o baixista Harris que chama atenção, fuzilando os ouvidos com seu instrumento, sempre em posição de ataque. A bateria de Nicko McBrain não fica muito atrás – os dois dominaram a mixagem nas caixas de som.

“Eu sei que vocês vão para a igreja amanhã cedo”, brincou o vocalista, “mas a gente não dá a mínima e vamos mantê-los acordados a noite toda”. Não foi exatamente assim que aconteceu, embora “Dance of Death” e “The Trooper” (com direito àquela bandeira em frangalhos da Grã-Bretanha), outros clássicos da banda, devam estar reverberando na cabeça dos fanáticos até agora. São eles que cantam junto, vocalizam as guitarras e não baixam os braços em riste. Foram eles que deixaram Bruce Dickinson sem voz e o Iron Maiden, estupefato.

Jorge Rosenberg/iG
A turnê do álbum "The Final Frontier" pode ser a última dos metaleiros britânicos
Essa empatia não é de graça. Há duas semanas, a banda estava viajando de Seul para Tóquio, no Boeing pilotado pelo vocalista, quando os terremotos sacudiram a Ásia e provocaram o tsunami. Os dois shows em solo japonês foram cancelados e, por conta disso, o grupo, sem querer ser “piegas”, como Dickinson advertiu, dedicou a performance de “Blood Brothers” no Morumbi aos fãs do Japão. O vocalista foi ainda mais longe. “Aos amigos do Maiden no Egito, Síria e Líbia. Não importa sua cor, religião ou sexo. Se você é fã do Maiden, você é da família.”

A sequência final do show em São Paulo foi de salvar o ingresso de quem estava ressabiado com “The Final Frontier”. Além dos hits “Fear of the Dark” e “Iron Maiden”, o mascote Eddie fez duas aparições. A primeira, caminhando pelo palco, personificado em um boneco de três metros de altura que até ganhou guitarra de um roadie para ensaiar uns acordes. A segunda, mais apoteótica, surgindo gigantesco atrás do palco, com olhos brilhantes, além de cabeça, mandíbula e garras articuladas, numa espécie de destaque de carro alegórico em versão high-tech – sim, isso é um elogio.

O bis teve mais alegria: "The Number of the Beast", "Hallowed Be thy Name" e “Running Free”, as três do começo da década de 1980, era de ouro da banda. Alheio às histórias de que essa deve ser sua última turnê, em quase 40 anos de carreira, o Iron Maiden provou que ainda tem brilho e vitalidade para sustentar o título de lenda. Não são muitos por aí de quem pode se dizer o mesmo.

O grupo volta aos palcos neste domingo, no Rio de Janeiro, na Arena HSBC. Ao contrário dos irmãos Max e Iggor Cavalera, que fizeram com o Cavalera Conspiracy o show de abertura na capital paulista ( veja fotos ) – inclusive tocando hits do Sepultura, como “Territory” e “Roots Bloody Roots” –, no Rio a tarefa cabe à banda Shadowside. Depois, o Iron Maiden segue para Brasília (30/03, estádio Mané Garrincha), Belém (01/04, Parque de Exposições), Recife (03/04, Jóquei Clube) e encerra a viagem pelo Brasil em Curitiba (05/04, Expotrade).

Veja o setlist do Iron Maiden em São Paulo:

"Satellite 15... The Final Frontier"
"El Dorado"
"2 Minutes do Midnight"
"The Talisman"
"Coming Home"
"Dance of Death"
"The Trooper"
"The Wicker Man"
"Blood Brothers"
"When the Wind Blows"
"The Evil That Men Do"
"Fear of the Dark"
"Iron Maiden"

Bis

"The Number of the Beast"
"Hallowed Be thy Name"
"Running Free"

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