Iron Maiden empolga, mas não recompensa cariocas por adiamento

Banda inglesa não tocou músicas extras após cancelar show de domingo, mas disposição e novas versões do monstro Eddie agradaram

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |

Um dia depois de ter de adiar sua apresentação no Rio por conta de uma falha da organização, o Iron Maiden incendiou a HSBC Arena, mas não deu qualquer recompensa especial aos cariocas. A banda seguiu exatamente o setlist que vem sendo tocado, como aconteceu em São Paulo , e, apesar de um show enérgico e tecnicamente perfeito, ficou uma sensação de falta de flexibilidade e de sensibilidade. Agarrados ao roteiro, Bruce Dickinson e companhia se escoraram em uma produção de alto nível que não deixou o público se importar muito com a falta de improviso e, especialmente, falta de um diferencial para quem enfrentou horas no trânsito caótico até a Barra da Tijuca em plena segunda-feira por conta do cancelamento do show.

Ao contrário do que aconteceu no domingo, no horário marcado para o início do show já não havia filas do lado de fora. A banda entrou no palco às 21h15 e tocou por duas horas. Dickinson, que na véspera havia mostrado imensa habilidade em controlar a plateia e evitar um grande tumulto ao avisar que o show não poderia acontecer naquele dia, novamente foi impecável como mestre de cerimônias. Citou o fato em dois momentos. A primeira vez, com ironia, logo após "2 minutes to midnight": "Bom ver vocês aqui de novo, temos uma plateia incrível e uma grade novinha. Foi muito cara, mas nós não pagamos, vocês não pagaram, algum 'motherfucker' pagou, então aproveitem", disse o vocalista, antes de agradecer pela forma pacífica com que os fãs deixaram o local no dia anterior (houve relatos de depredação na rede social Twitter).

Agência O Globo
Iron Maiden incendiou o público durante o show no Rio

Ao citar adiamento, Dickinson faz referência ao Japão
Na segunda vez em que Dickinson mencionou o episódio, referência ao Japão, colocando em perspectiva o problema técnico no Rio. Cerca de 10 minutos antes de pousar em Tóquio para um show em março, o avião da banda foi avisado que teria de desviar para Nagoya, em função do terremoto, e a apresentação teve de ser cancelada. "Tivemos um problema aqui no Rio, mas também tivemos um problema na turnê em Tóquio, por causa do terremoto. Vocês devem se sentir sortudos por morar no Brasil", disse Dickinson, ovacionado. Emendou com uma frase contra o racismo: "Não importa se você é negro, branco, japonês, índio, são todos fãs do Iron Maiden".

Pedro Kirilos/ Agência O Globo
Grade que cedeu no domingo conseguiu suportar empogação do público no show do Iron Maiden, nesta segunda
Com um público que misturava jovens e veteranos, a banda mostrou que não vive apenas de passado. Boa parte das canções dos discos mais recentes, como "The wicker man", do "Brave new world", "Dance of death", do álbum homônimo, tiveram acompanhamento em coro. A mistura das novidades com os clichês da banda agradaram ao público. Enquanto Nicko McBrain tocava enfurecido, enclausurado em seu mundinho particular de surdos e pratos, Dickinson usou o seu "bordão" quatro vezes. A cada "scream for me, Rio (grite para mim, Rio)", a resposta da pista era intensa.

"Reciclagem" de parte do figurino e cenografia
Como aconteceu na turnê de 2009 ("Somewhere back in time"), quando o Iron Maiden trouxe ao Brasil o palco completo inspirado na turnê "World Slavery Tour" (1984/85), do álbum "Powerslave, desta vez os ingleses também capricharam na cenografia. Puderam ser vistas algumas repetições do show apresentado na Apoteose há dois anos. Em "The trooper", clássico do disco "Piece of mind", por exemplo, Dickinson novamente vestiu a farda vermelha e sacudiu como louco a bandeira da Inglaterra por todos os cantos do palco, enquanto Steve Harris "metralhava" os fãs com o baixo. Na primeira música do bis, "The number of the beast", o mesmo capeta, meio bode, meio homem, surgiu no palco.

Novos monstros bem articulados e cheios de detalhes

Pedro Kirilos/ Agência O Globo
Bruce Dickinson esbanjou energia no show do Iron Maiden, no Rio, e ironizou falha técnica que levou ao adiamento no domingo
A primeira novidade foi a nova versão do monstrengo Eddie, reproduzindo a ilustração que estampa a capa de "The final frontier", álbum lançado em 2010 e que dá nome à turnê. Bem articulado e cheio de detalhes, o boneco entrou no palco endiabrado e chegou a pegar uma guitarra para brincar com os músicos em "The evil that men do", do disco "Seventh son of a seventh son".

A grande surpresa da noite veio em um momento nada surpreendente. Como é tradição da banda, na virada da música que nomeia o grupo, "Iron Maiden", uma figura gigantesca de Eddie surgiu atrás do palco, fazendo a múmia da turnê anterior parecer antiquada. Mexendo dedos, boca, cabeça e cheio de detalhes, a nova versão do boneco tomou toda a extensão do palco. Não soltou fogo pelos olhos, como a múmia anterior, mas arrancou gritos de "Eddie". Um dos olhos da criatura chegou a falhar no fim, mas nada que atrapalhasse o grande momento do show.

Banda ignora gritos por mais um bis e se agarra ao roteiro
O momento de frustração ficou para o final. Depois de "Running free", o encerramento do setlist que vem sendo usado em sequência, Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers atiraram palhetas, Dickinson já jogara o seu gorro, Nicko revezava arremessos de baquetas e freesbies. As luzes, acesas, se apagaram. A iluminação púrpura do palco futurista foi retomada. E surgiu o coro pedindo "Run to the hills". O palco permaneceu apagado e o público continuou a gritar pedindo a volta da banda, até os roadies entrarem em cena para mostrar que não havia jeito. Pegou mal. O público deixou a arena ao som de "Always look on the bright side of life", fato corriqueiro, mas que, em função do clima criado pela expectativa de um novo bis com as luzes apagadas, soou como ironia. Bastaria uma canção a mais para fechar a noite em alta.

Veja o setlist do Iron Maiden no Rio de Janeiro:

"Satellite 15... The Final Frontier"
"El Dorado"
"2 Minutes do Midnight"
"The Talisman"
"Coming Home"
"Dance of Death"
"The Trooper"
"The Wicker Man"
"Blood Brothers"
"When the Wind Blows"
"The Evil That Men Do"
"Fear of the Dark"
"Iron Maiden"

Bis
"The Number of the Beast"
"Hallowed Be thy Name"
"Running Free"

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