iG Recomenda - Tulipa Ruiz

Disco de estreia da cantora é confluência improvável entre a Gal Costa dos anos 1970 e o Itamar Assumpção dos anos 1990

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Divulgação
Capa do disco Efêmera , de Tulipa Ruiz
Paulista de Santos criada em São Lourenço, no sul de Minas Gerais, a cantora e compositora Tulipa Ruiz faz uma estreia promissora com Efêmera , um disco que a coloca na confluência improvável (e original) entre a Gal Costa dos anos 1970 e o Itamar Assumpção dos anos 1990. O DNA da chamada vanguarda paulista está inscrito em cada uma de suas canções, mas ela prefere a doçura e a leveza pop aos labirintos vanguardistas, e entrega um trabalho direto, comunicativo, inteligente e ensolarado.

Já na primeira faixa, Tulipa brinca delicadamente com o tempo e com as expectativas que o pop comercial costuma criar. “Vou ficar mais um pouquinho/ para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo/ congelo o tempo pra eu ficar devagarinho/ com as coisas que eu gosto e que eu sei que são efêmeras”, canta, como a afirmar que a pressa, a urgência e o nervosismo do cotidiano (e da velha indústria musical) não são artigos que lhe interessam.

O disco progride entre declarações de amor descontraídas a um amigo-namorado (Pedrinho), pequenos prazeres gastronômicos ("Sushi"), estéticos ("Da Menina") e físicos (a linda "Só Sei Dançar com Você"), odes silvestres brincalhonas ("A Ordem das Árvores"). Nessa última, o pop, o reggae e o soul se entrelaçam enquanto Tulipa bole carinhosamente com a natureza: “Naquele curió mora um pessegueiro/ em todo rouxinol tem sempre um jasmineiro/ (...) a ordem das árvores não altera o passarinho”.

Egressa de trabalhos como desenhista, ilustradora, jornalista e arte-educadora, ele parece usar um pouquinho de cada um dos talentos em prol da música e do dia-dia mais corriqueiro e despretensioso, como indica “a promessa de continuar a fazer da minha vida um bordado de renda, de chita, filó”, em "Brocal Dourado", composta com o irmão (também músico) Gustavo Ruiz.

Um toque de urbanidade aparece em "Às Vezes", escrita por Luiz Chagas, seu pai e ex-guitarrista de Itamar Assumpção. Mas, em sua quase totalidade, é um trabalho feminino, contemplativo, desacelerado, descomplicado. Efêmera pode até vir a se confirmar efêmero, mas é desde já cativante (e incomum) por agrupar um conjunto de músicas perfeitas para acalmar, tranquilizar, descansar, repousar, pensar e parar de pensar.

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