iG já viu: Paul McCartney na Inglaterra

Turnê do cantor passou em junho pelo lendário festival de rock da Ilha de Wight

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Marco Tomazzoni
Paul McCartney empunha a guitarra em festival britânico: público de todas as idades
A chance de assistir a Paul McCartney pela primeira vez, ainda mais em território britânico, fez a boca salivar e o desejo falar mais alto: a Europa era o pretexto das férias, mas o beatle sempre esteve por trás de tudo. Foi a minha primeira vez, em 13 de junho deste ano, no terceiro e último dia do Isle of Wight Festival, em show da turnê “Up and Coming”, que chega neste final de semana ao Brasil.

A uma hora e meia de trem e 20 minutos de barco de Londres, a Ilha de Wight tem lugar cativo na história do rock por abrigar, em 1970, o festival com o último grande show de Jimi Hendrix. Naquele ano, mais de 600 mil pessoas passaram pelo evento – número comparável a Woodstock –, que ainda teve The Who, The Doors, Joni Mitchell, Leonard Cohen e até Gilberto Gil. Retomado na década passada, o festival hoje segue o modelo dos correlatos europeus: programação atrativa, misturando nomes consagrados e sucessos nas rádios, vários palcos, acampamento, lama e ambiente familiar.

Todo mundo em festa, e fantasiado, para comemorar a chegada do verão. Por ambiente familiar, entenda-se carrinhos de bebê passeando tranquilamente em meio a copos de cerveja (recolhidos num piscar de olhos, já que os organizadores recompensam as devoluções em dinheiro), crianças usando protetores de ouvido e muita, muita gente prestes a assistir McCartney pela primeira vez. Antes de ele entrar em cena, portanto, pequenos fãs, de 10 a 12 anos, engrossavam a fila do gargarejo. Chegar na frente não foi problema justamente por isso – além de o público da cantora Pink, a atração anterior, não ser o mesmo de Paul, o corpo a corpo com a plateia infantil não ofereceu maior resistência. Para quem está acostumado com shows no Brasil, uma moleza.

Impaciente, a multidão gritava "Macca", e ele finalmente atendeu. McCartney entrou em cena como tem feito em toda a turnê, mostrando a dobradinha "Venus and Mars" e "Rock Show", que abre o álbum de 1975. A banda que o acompanha há anos de cara comprovou que é mesmo sensacional – competência, volume e peso, tudo na medida certa. Outro sucesso do Wings, "Jet", sem intervalos, manteve a temperatura alta e a coisa decolou mesmo com a primeira música dos Beatles no setlist, "All My Loving". "Boa noite, Ilha de Wight, vamos nos divertir hoje", Paul garantiu no microfone. A plateia já estava ganha. Para mim, faltava mais um pouco.

"Let Me Roll It" ganhou uma citação de "Purple Haze", de Hendrix, no final, já que faziam 40 anos da passagem do guitarrista pela ilha. "A maior homenagem que recebemos dele foi termos lançado 'Sgt Pepper' numa sexta e no domingo, quando fomos vê-lo, ele já tinha aprendido. Isso não é demais?", disse McCartney. Dali, ele foi para o piano. "The Long and Winding Road". Drama e romance. Engoli em seco. Cantei. Entreguei os pontos: gritei. Se acabasse ali, voltaria para casa satisfeito.

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McCartney divide solo no início da noite
Mais histórias não faltaram durante a noite. Antes de "Blackbird", Paul trocou o baixo pelo violão porque "fui eu quem gravou o violão originalmente". Lembrou John Lennon ao cantar, sozinho, "Here Today", uma conversa imaginária com seu antigo companheiro – música que ele promete mostrar nos shows no Brasil – e repetiu a estratégia para George Harrison, agora com o ukelele. "George tocava muito bem o ukelele", comentou, e veio "Something". A primeira parte, solo, já era emocionante, mas a banda entrou em seguida, ao mesmo tempo em que imagens de George apareceram no telão gigantesco no fundo do palco. Muita gente foi às lágrimas. Sem dúvida, um dos pontos altos.

A boa "Sing the Changes", do projeto paralelo The Firemen, é a única surpresa. De resto, não tem como não vibrar só com destaques do Wings ("Band On The Run"), da carreira solo ("Dance Tonight") e um belo apanhado dos Beatles, que domina quase todo o final do show. No total, foram 28 músicas, ao longo de pouco mais de duas horas, contra as 36 de um show normal. Foi o suficiente para fazer muito marmanjo chorar feito as crianças do lado. A voz, essa já tinha sumido faz tempo, em sintonia com corpo, em frangalhos. Ao contrário de Paul: a banda sai do palco, toma água. Ele não, sempre impassível e inteiraço, fôlego de garoto.

"Let It Be" provocou um coro entusiasmado. "Live and Let Die" teve fogos de artifício e chamas no palco, fortes o suficiente para chamuscar as pestanas de quem estava na frente. Mas o mantra "Hey Jude" foi o ápice – fez 60 mil pessoas cantarem junto o refrão por longos minutos. Ninguém queria ir embora, nem parar de gritar o "na na na". Paul já tinha saído do palco, o povo continua nessa. Ele voltou, correndo com uma bandeira do Reino Unido, festejado, aclamado como se estivesse num estádio, não no parque da cidade de Newport.

Populista, o bis, que tem se repetido pela turnê, foi para ninguém botar defeito: "Day Tripper", "Get Back", "Yesterday" e uma versão avassaladora de "Helter Skelter". Um medley de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e a apropriada "The End" fecharam o show, coroado por um espetáculo de fogos ao som de "All Along the Watchtower", em mais uma homenagem a Hendrix. Simplesmente apoteótico.

Veja abaixo o setlist, que deve entrar na íntegra nos três shows no Brasil:

"Venus and Mars" / "Rock Show"
"Jet"
"All My Loving"
"Letting Go"
"Let Me Roll It" / "Purple Haze"
"The Long and Winding Road"
"Nineteen Hundred and Eighty Five"
"I'm Looking Through You"
"Blackbird"
"Here Today"
"Dance Tonight"
"Mrs Vandebilt"
"Eleanor Rigby"
"Something"
"Sing the Changes"
"Band On The Run"
"Ob-La-Di, Ob-La-Da"
"Back in the USSR"
"Paperback Writer"
"Let It Be"
"Live and Let Die"
"Hey Jude"

Bis
"Day Tripper"
"Get Back"
"Yesterday"
"Helter Skelter"
"Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"
"The End"

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