iG já viu: Paul McCartney em Liverpool

Repórter do iG assistiu ao show da atual turnê do cantor em sua terra natal

Adriano Ceolin, iG Brasília |

Foi depois de ver “Curtindo a Vida Adoidado” e ouvir Ferris Buller cantando “Twist And Shout” que perguntei para meu pai quem eram os Beatles. No dia seguinte, ele foi a uma loja de discos e me comprou o álbum “Help” e a coletânea “Beatles Ballads”. Era o fim da década de 80 e eu tinha 12 anos. Ali começou um sonho que nunca vai terminar. Passei a adolescência querendo conhecer Liverpool. Em 1999, pisei na cidade pela primeira vez. Sozinho, andei pelas ruas e vi as casas onde moraram John, Paul, George e Ringo. “Poxa, eles são humanos”, pensei. Em 2008, voltei a Liverpool. Desta vez para assistir a um show de Paul McCartney junto com minha mulher, Mariana. De novo, aquela sensação de que ele é real ficou ainda mais nítida.

O show aconteceu no Anfield Stadium, estádio oficial do Liverpool F.C. Tratava-se da primeira apresentação de grande porte de Paul desde o lançamento do seu último álbum solo “Memory Almost Full”. Duas bandas abriram o show. Primeiro a desconhecida The Zuttons, dona do hit famoso na voz de Amy Whinehouse: “Valerie”. Em seguida, entraram os Kaiser Chiefs. Deve ser um misto de sonho e pesadelo abrir um show de Paul McCartney. O vocalista Ricky Wilson, do Kaiser, revelava o incômodo: “Estão esperando o nome principal da noite?”, disse. Não vi ninguém respondendo. Todo mundo estava ansioso para ouvir Paul tocar na sua terra natal. Havia cinco anos que o beatle não se apresentava na cidade.

Finalmente Paul e sua banda entram no palco. O terno preto com gola fechada, moda retrô, remete ao figurino do início dos Beatles. Paul abre o show com “Hippy Hippy Shake”, um rock dos fim dos anos 50 em que os Beatles costumavam executar nos tempos de Cavern Club. “Caramba, o Cavern fica logo aqui perto”, penso comigo mesmo de novo. Paul emenda “Jet”, canção do mais bem-sucedido álbum de sua carreira pós-beatles, “Band On the Run”. Daí, vem “Drive My Car” e os três outros FabFour surgem no telão em imagens de arquivo. Senhores, senhoras, garotos e garotas se empolgam com o refrão “baby, you can drive my car...”, uma baita metáfora para dizer “garota, você pode transar comigo”.

Mas claro não falta romance. Paul anuncia: “Esta é para Linda”. E canta “My Love”, grande hit do começo dos anos 70. Por mais da metade de minha vida, nunca achei nada demais essa música. Foi depois de conhecer minha mulher que a canção passou a fazer todo sentido para mim. Por isso mesmo, eu e Mariana cantamos juntos “when I go away I know my heart can stay with my love...”. Depois, ele emenda “C Moon”, música divertida também dos anos 70. Se mantém à frente do piano e puxa o vocal. “The long and winding road... that leads to your door...”. Faz todo sentido para quem saiu de tão longe para encontrar um pouco de si mesmo em Liverpool.

E o que é esta cidade? Foi um importante porto ao norte da Inglaterra. Era a primeira porta de entrada para o que vinha da América. Por isso após a Segunda Guerra Mundial o rock and roll de Chuck Berry, Carl Perkins e Elvis Presley desaguou em Liverpool. Várias bandas da cidade beberam na fonte e tentaram fazer o rock à sua maneira. Mas foram os Beatles que conseguiram aperfeiçoá-lo revolucionando a música pop no século XX. Principalmente a partir da metade da década de 60. Em particular, duas canções marcam a início dessa fase mais experimental: “Strawberry Field Forever” e” Penny Lane”.

E esta música que Paul anuncia em seguida: “A próxima é sobre um lugar aqui perto”. Ele faz a introdução no baixo e a gente logo reconhece “Penny Lane”, canção sobre o bairro de subúrbio onde ele e John foram criados. Mas Paul é humano e erra as notas no baixo. Perfeccionista, pede para a banda começar de novo. Na segunda vez, não tem erro e o Anfield Stadium lotado de “liverpoodianos” cantam juntos. “Penny Lane is my ears and in my eyes... there beneath the blue suburban skies…”. Olho para céu e, de novo, digo para mim mesmo: “Poxa, esse é o céu azul suburbano de verdade. É esse!”. Parece que outras pessoas pensam como eu e gritam de alegria nos versos finais da música.

Minha cabeça volta à adolescência quando ouvi pela primeira vez a canção na vitrola do meu pai. “Penny Lane” está no Lado B do álbum “Magical Mistery Tour”, um disco que demorei para comprar. A maioria havia ganhado do meu tio, que me incentivou a gostar dos Beatles durante a década de 90. Na época, era o auge do grunge. Minha mente volta para o show quando Paul chama um convidado especial ao palco. Trata-se de Dave Grohl, baterista da banda símbolo dos anos 90, o Nirvana. Ele parece embasbacado ao lado de Paul. Pega uma guitarra e delira nos primeiros acordes de “Band On The Run”. A gente vai junto, claro.

Esse Dave Grohl é sortudo. Tocou bateria com Kurt Cobain na antológica “Smells Like Teen Spirit” e agora está no palco arrebentando as baquetas em “Back In The U.S.S.R.”. Detalhe: num show em Liverpool. Extasiado, Dave deixa o palco e saúda Paul como um rei. Ele volta para o piano e começa “Live and Let Die”. No telão, imagens no filme homônimo. Para completar, um festival de fogos de artifício explode na frente do palco onde uma bandeira brasileira tremula sem parar.

Na música seguinte, Paul segue no piano e toca uma das introduções mais famosas da história. É “Let it Be”. Na sequência, emenda "Hey Jude", canção composta como consolo para Julian Lennon, quando seus pais John e Cynthia se separam. Fazendo jus à fama de beatle mais RP dos três outros beatles, Paul anima o público pedindo para coro para “Na Na Na...” da parte final da música. Convoca primeiro os homens a cantar grosso, depois as mulheres. Ao final, ele mesmo berra ao microfone: “Na Na Na...”

Nem parece que tem 66 anos (hoje já está com 68). Assisto ao show da arquibancada lamentado com todas as forças não estar na frente do palco. Mas tudo bem. Era um desejo da minha mulher não estar ali. Receio de ser amassada ou pisoteada. Mas, pelo mesmo em Liverpool, parecia que todo mundo estava bem acomodado na frente do palco. O show termina sem incidentes... “Mas cadê o bis? Tem que ter”.

Paul volta ao palco e canta “yesterday.. All my troubles seemed so far way...”. Não tem jeito sempre lembro que os primeiros versos rascunhados eram “Scrambed eggs, oh my baby I love your legs”. Oh, Yesterday, acabou de repente (suddelly)... quando Paul tocou, inesperadamente, pela primeira vez na história, os primeiros versos “I read the news today, oh boy... Era A Day In The Life, uma canção composta por John com uma pequena colaboração de Paul. Ou seja, um legítimo clássico Lennon/McCarntney! Aquilo arrebatou, surpreendou, emocionou... Mas ainda havia mais.

No fim da canção, colou o refrão “All we are saying... give peace a chance…” Melhor homenagem a John, impossível. No telão, aparece Yoko Ono batendo palmas e cantando junto. Sim, ela estava na plateia ao lado de Victoria Harrison, viúva de George... Dava para não chorar? Um misto de felicidade triste invade o peito e faz a gente cantar, gritar, berrar junto os versos simples e únicos “All we are saying...”. Para terminar, Lady Madonna e I Saw Her Standing There…

Em 2010, verei Paul pela segunda vez - na segunda-feira (22), no Morumbi. De novo, não vou ficar na pista. Isso porque levarei Alvinho, meu enteado de 8 anos e já fã de Beatles. Mari também vai de novo, só que desta vez com meu filho, Antonio, na barriga. Dificilmente, ele verá um show de Paul McCartney, mas, pelo menos, sentirá as vibrações positivas do baixista que integrou a maior banda de todos tempos. E quem sabe um dia dizer: “Meu pai me levou ao show; eu estava dentro da barriga da minha mãe”. E ele, com certeza, vai ouvir os dois LPs que um dia ganhei de meu pai. Porque é a pura verdade: "in the end, the love you take is equal to the love you make..."

Set list do show de 01.06.2008 em Liverpool

"Hippy Hippy Shake"
"Jet"
"Drive My Car"
"Flaming Pie"
"Got to Get You Into My Life"
"Let Me Roll It"
"My Love"
"C Moon"
"The Long and Winding Road"
"Dance Tonight"
"Blackbird"
"Calico Skies"
"In Liverpool"
"I'll Follow the Sun"
"Eleanor Rigby"
"Something"
"Penny Lane"
"Band on the Run" (com David Grohl na guitarra)
"Back in the U.S.S.R." (com David Grohl na bateria)
"Live and Let Die"
"Let It Be"
"Hey Jude "

BIS
"Yesterday"
"A Day In The Life" / "Give Peace A Chance"
"Lady Madonna"
"I Saw Her Standing There" (com David Grohl na bateria)

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