Hermeto Pascoal comemora 75 anos com DVD e turnê

"Prefiro ficar devendo o aluguel, como já fiz, do que fazer música ruim", diz compositor

Agência Estado |

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Hermeto Pascoal
Um mito só cai pelas mãos de outro. Nos anos 1960, como de costume, Miles Davis chegava aos palcos de suas apresentações passando antes pelo camarim. O americano seguia decidido, passos confiantes, sem nunca dirigir olhares nem palavras a alguém. Abriu uma exceção certa noite. Encarou de perto a figura excêntrica de Hermeto Pascoal e soltou algumas palavras em inglês, traduzidas pelo baterista e compositor Airto Moreira, que na época integrava a banda de Miles e havia levado o multi-instrumentista ao show.

Dias depois, Hermeto atendeu ao pedido e foi ao encontro do jazzista para lhe mostrar algumas composições. A história é pitoresca, mas horas depois de apresentar seus temas no violão, o brasileiro foi convidado por Miles a enfrentá-lo ali mesmo, em um ringue de boxe de sua propriedade. Como os olhos de Hermeto ficam sempre rodando e apontando cada um para um lado, o americano foi surpreendido com um soco na cara e desabou.

Miles levou na esportiva e apelidou Hermeto carinhosamente de Albino Louco. Tempos depois, por falta de lisura de seus produtores, de uma maneira ou de outra acabou devolvendo o golpe ao gravar duas composições de Hermeto, "Nem Um Talvez" e "Igrejinha", ocultando da ficha técnica o crédito ao verdadeiro compositor. O brasileiro não recebe direitos autorais relativo aos dois temas até hoje, mas não reclama. Nunca criou guiado por caça-níqueis. "Tem muita gente fazendo música com apelo comercial. Cada nota musical deles é tão ruim que é como um tiro na alma da gente. Eu prefiro ficar devendo o aluguel, como já fiz, do que fazer música ruim. A riqueza é o câncer da alma", diz Hermeto.

O músico, nascido em Lagoa da Canoa, no município de Arapiraca, em Alagoas, já viveu no Rio, em São Paulo e há sete anos e meio mora no bairro de Santa Felicidade, em Curitiba, com sua mulher e também musicista Aline Morena. Um dos maiores revolucionários da música brasileira, "100% intuitivo" e influenciando diversas gerações, seja no piano, na sanfona, na flauta, na chaleira ou na bomba de encher bola, Hermeto segue em plena efervescência criativa, comemorando nesta quarta-feira (22) 75 anos. Como parte dos festejos, o multi-instrumentista se apresenta na Lona Cultural Hermeto Pascoal, em Bangu, bairro onde morou no Rio.

Os eventos relativos às sete décadas e meia de vida do Bruxo de Lagoa da Canoa se estendem até o ano que vem. Hoje, com a ajuda do pianista Jovino Santos Neto, que durante anos fez parte da banda de Hermeto, o site do multi-instrumentista oferecerá gratuitamente 41 partituras de temas inéditos do compositor. Depois, em outubro e novembro, Hermeto segue com seu grupo em turnê pela Europa, onde a série de shows servirá de ensaios para a gravação de um DVD, com lançamento previsto para 2012.

Nos próximos meses, ainda em trabalho de edição, deve chegar ao mercado o DVD da gravação do show gratuito que Hermeto fez em outubro de 2009, no Parque do Ibirapuera, com o bandolinista e compositor Hamilton de Holanda e seu quinteto. "Hermeto é uma grande árvore em que as frutas são músicas, ritmos, melodias, e harmonias. O tempo passa, essa árvore fica mais forte, e mais gente - do mundo todo - quer se alimentar desses frutos vistosos e com muito sabor", diz Hamilton, que já havia lançado no começo deste ano o belo disco "Gismontipascoal", ao lado do pianista André Mehmari, enriquecendo temas de Hermeto e Egberto Gismonti, além de gravar composições próprias.

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