Hebe canta e enternece com voz de apresentadora em show de DVD

Apresentação teve participações especiais de Gilberto Gil, Fábio Jr e Maria Rita, entre outros

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Jorge Rosenberg / iG
A cantora e apresentadora Hebe Camargo, durante gravação de DVD no Credicard Hall, em SP
Hebe Camargo tem 82 anos e nunca ficou conhecida como cantora, embora tenha se iniciado profissionalmente nessa carreira. Antes mesmo do advento da TV, formou com duas primas e uma irmã o Quarteto Dó Ré Mi Fá, depois teve uma dupla caipira com a irmã e mais tarde, nos anos 1950, gravou uma série de discos como intérprete solo de sambas, marchas, baiões, boleros, valsas, mambos, sambas-canção, baladas, toadas e até rocks. Apresentadora de TV de carreira das mais longevas, ela continuou gostando sempre de cantar, e o faz em público de modo bissexto, como aconteceu ontem no Credicard Hall de São Paulo, durante a gravação de um DVD em que divide o palco com artistas de nichos musicais diversos como Gilberto Gil, Maria Rita, Fábio Jr., Zezé di Camargo & Luciano, Alcione, Ivan Lins e Daniel.

Hebe não chegou a se firmar cantora porque, de fato, interpretar nunca foi sua qualidade mais notável. Até por isso, soaria ocioso ficar enumerando as muitas vezes em que desafinou, errou letras e melodias ou deixou falhar a voz já cansada durante o épico show de música e variedades. Não é isso que está em jogo aqui, e a natureza outra da celebração ficou evidente já no primeiro instante, quando a voz televisiva que todo mundo conhece ergueu-se não para comentar os acontecimentos da semana, mas para entoar, com os mesmos trejeitos, os versos de "O Que É o Que É", de Gonzaguinha.

Daí por diante, Hebe seguiu como a “entertainer” afiada que é, divertindo o público na hora de falar pelos cotovelos e enternecendo-o na hora de cantar. A plateia foi habilmente integrada ao show pela anfitriã, que valorizou a presença de Xuxa (sentou no colo dela), Mônica Serra (fez comentário risonho e algo ambíguo de “parabéns pelo colar, viu?”) e um punhado de empresários (com os quais trocou mimos, flertes e selinhos).

O maior ou menor êxito de cada número dependia ora do convidado (como no caso de Alcione, que deitou beleza no clássico romântico "Como Vai Você", de Antonio Marcos), ora da própria Hebe. Na entrada de Maria Rita, por exemplo, a dona da festa se embananou com a letra de "Foi Assim" e acabou ofuscando a estranheza positiva de a sempre concentrada filha de Elis Regina cantar um sucesso despojado de Wanderléa em tempos de jovem guarda. Após certo anticlímax, a apresentação terminou catártica: Hebe apresentou imagem em telão em que Elis falava da filha então recém-nascida, o que levou Maria Rita ao pranto solto em seu ombro.

Jorge Rosenberg, especial para o iG
Hebe Camargo no Credicard Hall
O outro grande choro da noite foi de Fábio Jr., recém-separado, segundo Hebe deu a entender. Ele sucumbiu à letra de "Eu Não Existo sem Você", bossa nova de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e foi amparado pelas palhaçadas habituais da apresentadora, que simulou tomar a lágrima e afirmou que era doce. Ambos grandes intérpretes, Fábio e Maria Rita divergiram de seus repertórios habituais e foram os mais ousados da noite – infelizmente com resultados titubeantes.

Em muitos momentos, o convescote de Hebe pareceu um show de Roberto Carlos, o que certamente não é casual (até a empresa patrocinadora é a mesma). O show coletivo Emoções Sertanejas era referência evidente, pelo formato, pelo repertório e pelo elenco dominado por estrelas dos nichos caipira e sertanejo – além dos já citados, cantaram Chitãozinho & Xororó, Leonardo, Bruno & Marrone, a marcante Paula Fernandes (na delicada "Tocando em Frente", de Almir Sater e Renato Teixeira) e o curioso quarteto feminino "Barra da Saia" (em "Índia", sucesso antigo de Cascatinha & Inhana que estabeleceu o nexo indireto com a origem paulista interiorana de Hebe). O tropicalista Gilberto Gil se integrou em parte a esse segmento, cantando o popularíssimo forró "Esperando na Janela".

Além de "Como Vai Você" (lançada originalmente por Roberto) e "Foi Assim" (um emblema da jovem guarda), apareceram no repertório as infalíveis "Como É Grande o Meu Amor por Você" (em duo com Daniel) e "É Preciso Saber Viver". Um dueto-fantasma com o próprio “Rei” também foi providenciado, em "Você Não Sabe". Apareceram a voz e a imagem em telão, mas ele em pessoa esteve ausente – é de supor que apareça na sessão que haverá no Rio, para completar a gravação.

"É Preciso Saber Viver" fechou o show com graça involuntária. Hebe evocou a labirintite de Vanusa e criou trechos inéditos involuntários como “morrer de inanição” e “se o bem e o mal existem, você pode recolher”. “Tô cantando tudo errado!”, constatou, com a simpatia de sempre. Isso é Hebe, e ninguém saiu infeliz de sua festa, encerrada com uma chuva abundante e apoteótica de papel picado, que talvez atemorizasse o marido de determinada convidada, caso ele estivesse presente.

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