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Guizado BR Punx

Diego Fernandes |

Por Diego Fernandes

Se a vanguarda é realmente a forma mais válida de honrar a tradição, o trompetista Gui Mendonça - mais conhecido pelo cognome Guizado - está no caminho certo. Participante de uma das cenas musicais mais inventivas do Brasil, tem entre seus contemporâneos e correlatos Curumim e os projetos de Maurício Takara e Bodes & Elefantes, ambos vinculados ao Hurtmold, grupo instrumental referência no país quando o assunto é inventividade. O mix característico desse cenário, que funde eletrônica com rock, jazz, hip-hop, dub, MPB e sonoridades menos cotadas, já foi batizado em tom de piada de 'IDMeo' ¿ 'inteligent dance music' com sotaque paulistano.

Punx é seu primeiro trabalho, e conta com a participação dos já citados Curumim e Takara tocando bateria, além de uma bela capa a cargo do quadrinista MZK. Se até aqui o disco já transparece um número de referências, espere pela música. As influências mais nítidas são o hip-hop digital do Prefuse 73 e certos trejeitos elétricos de Miles Davis (as bases cíclicas, aliadas ao trompete dissonante, por vezes remetem ao insone On The Corner , de 1973).

O som vai bem além de enfileirar referências (nacionais ou gringas) e alça vôo seguindo lógica própria: o tom de ameaça de "Miragem" sugere trilha incidental para um thriller sobre vingança. Certos números afagam a paciência de modo inesperado, como "Rinkisha", que de uma base constante incha até uma orgia fantástica de sintetizadores, frases de trompete cafeinadas e graves subaquáticos. Já "Afroka" e "Zonzo", que fecham o álbum, se aventuram por uma empolgante desconstrução de ritmos afro-caribenhos.

Punx é um trabalho instrumental que tem grande calma ao revelar suas intenções, conquistando pelo casamento dos sopros com um excesso de texturas, tão abrasivas quanto elegantes. Em diversos momentos, atinge verdadeira incandescência sonora em meio uma fachada (enganadora) de caos. Se soa complicado, deve ser porque às vezes é mesmo. Por outro lado, é mais do que hora da música brasileira poder contar com artistas que mostrem na prática a relação íntima entre desafio e recompensa ¿ conceito caro à evolução musical em qualquer parte do mundo, além de grande diversão para fãs de música que não sofrem de déficit de atenção.

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