Guitarrista do Rush fala de shows no Brasil e da paixão dos fãs

Em entrevista, Alex Lifeson aborda longevidade, próximo disco e novo público

Marcelo Freire, especial para o iG Cultura |

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Alef Lifeson: "As plateias da América do Norte não têm a mesma paixão das plateias daqui"
Uma tempestade ontem do lado de fora do hotel onde o Rush está hospedado em São Paulo não traz boas memórias ao guitarrista da banda, Alex Lifeson, um dia antes do show do grupo no estádio do Morumbi, nesta sexta-feira (8). Foi no mesmo local, há oito anos, que o trio canadense sofreu com a forte chuva que atrapalhou sua primeira passagem pelo país e ameaçou cancelar a apresentação na capital paulista.

A expectativa de tocar para um de seus maiores públicos, no entanto, compensa a preocupação de Lifeson, 57 anos, parceiro desde 1974 do baixista e vocalista Geddy Lee e do baterista Neil Peart, que rendeu 18 discos de estúdio e seis ao vivo, além de muitas coletâneas. “O show de 2002 foi sensacional, a plateia mais ainda, e é isso que nós esperamos”, comentou o guitarrista, em entrevista ao iG Cultura .

Durante a conversa, Lifeson falou sobre o passado e o presente do grupo, o novo disco (que deverá ser lançado no próximo ano), o recente sucesso do documentário “Rush: Beyond the Lighted Stage” e a maneira de compor da banda. Além disso, explicou uma antiga polêmica que atormentou o trio nos anos 1970: a acusação de serem simpatizantes do nazismo - apesar da ascendência judia de Geddy Lee, que sofreu com a morte de alguns familiares no Holocausto.

A acusação, feita pelo jornalista britânico Barry Miles, do National Music Express, repercutiu na imprensa da Inglaterra, mas teve pouco efeito na América do Norte, onde o trio tinha sua base mais sólida de fãs. Lifeson esclareceu a polêmica e chamou o jornalista de “idiota”, além de comemorar a longevidade da formação clássica do Rush.

iG: Vocês estão de volta a São Paulo após oito anos, e a cidade está debaixo de uma tempestade semelhante àquela do show de 2002. Isso preocupa vocês? O que esperam do show?
Alex Lifeson: É verdade (risos), mas estamos muito empolgados em voltar, nos divertimos demais quando estivemos aqui há oito anos. O show foi sensacional, a plateia mais ainda, e é isso que nós esperamos. Também torcemos para que não chova, vamos ver.

iG: Que impressão vocês tiveram da cidade em si, e do Brasil?
Alex Lifeson: São Paulo é uma cidade muito vibrante, tem quase a população inteira do Canadá. O Brasil é muito moderno, e São Paulo parece ser o centro financeiro e tecnológico do país e da América do Sul, uma grande cidade internacional. Sempre nos trataram muito bem aqui.

iG: Ao acompanhar um show da banda em Syracuse , nos Estados Unidos, foi possível perceber que a plateia americana gosta e respeita o grupo, mas é bem mais quieta que a brasileira. Isso influencia na maneira de tocar no palco?
Alex Lifeson: Não acho que influencia, a performance é sempre a mesma por causa da nossa concentração na hora de tocar. Mas quando você tem uma plateia empolgada, nosso prazer no palco aumenta. Interagimos com as pessoas e olhamos nos olhos de algumas delas durante o show. Não posso dizer que me diverti tocando em Syracuse como me diverti quando toquei em São Paulo, e isso é compreensível. As plateias da América do Norte não têm a mesma paixão das plateias da América do Sul, eles são muito mais reservados.

iG: Como é o processo de composição das músicas? Você e o Geddy levam as melodias para o Neil ou ele apresenta as letras antes?
Alex Lifeson: Eu e o Geddy nos juntamos para tocar. Neil não precisa necessariamente estar lá, mas manda letras para cinco, seis músicas, ainda como rascunho. Tocamos por algum tempo e separamos as partes com mais potencial, juntamos e vemos que tipo de letra pode funcionar. Depois, reescrevemos algumas partes e estabelecemos o arranjo.

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Lifeson e Geddy Lee na inauguração da estrela do grupo na Calçada da Fama, em Hollywood
iG: Neil entrou na banda no segundo disco, “Fly By Night”, escrevendo a maioria das letras, além de mostrar sua habilidade para tocar passagens mais complicadas. Como isso mudou o modo de composição?
Alex Lifeson: Como ele adorava literatura, e eu e o Geddy nos interessávamos mais pela música, parecia uma boa maneira de ele contribuir para a banda sendo o letrista. Ele gostou do desafio e ficou um equilíbrio legal, onde todos tinham suas ocupações. Nós sempre nos desafiamos e determinamos um padrão alto de performance. Quando ele entrou, percebemos que tocava de forma muito poderosa e sempre se desafiava ao máximo - o que faz até hoje. Quando você tem alguém assim, isso leva toda a banda a se desafiar.

iG: E como está o processo de composição do novo disco, “Clockwork Angels”? Alguma chance de vocês voltarem a escrever músicas longas, como faziam nos anos 70?
Alex Lifeson: Tudo pode acontecer. Existe uma boa possibilidade de termos músicas mais longas no próximo disco. Escrevemos seis músicas, e uma tem aproximadamente nove minutos. Acho que teremos algumas músicas “épicas” no disco. Não que busquemos voltar ao passado, ou pensar no futuro, é mais uma questão do que sentimos e escrevemos neste momento.

iG: Vocês têm aparecido bastante na mídia recentemente. Acreditam que é por causa do sucesso do documentário “Rush: Beyond the Lighted Stage”?
Alex Lifeson: Acho que é uma combinação de algumas coisas. O documentário aumentou nosso público, muitas pessoas estão começando a ficar curiosas sobre a banda. Percebi que agora temos mais mulheres em nossos shows, sendo que nosso público sempre foi majoritariamente masculino, mas as garotas também estão lá agora. Acho que elas assistiram o documentário, com seus maridos, namorados e amigas, e se identificaram. O documentário conta a história de nossa amizade e acho que elas, especialmente as casadas, se identificam com a nossa aparência de três pessoas legais, com famílias, e que se amam fazendo o que fazem.

iG: Em um momento do filme, você aparece ainda como adolescente, em uma cena de família, conversando com seus pais sobre largar a escola. Por que você filmou aquilo?
Alex Lifeson: Bom, todos me perguntam isso (risos). Em 1971, fiz testes para um documentário sobre dez garotos de diferentes partes de Toronto que viveriam em uma fazenda por dez semanas, sendo filmados, como um reality show. Foi dirigido pelo canadense Alan King. Aquela cena era do dia em que nossos pais foram nos visitar, para conhecer a fazenda, e inclui uma discussão grande sobre escola. Sei que levanta a questão “por que ele está com a câmera ligada na mesa de jantar?”, mas era um filme.

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Lee, Peart e Lifeson no documentário "Beyond the Lighted Stage", já disponível em DVD
iG: O filme também cita o problema de vocês com a imprensa britânica, que acusou a banda de ter tendências nazistas, nos anos 70. Isso teve algum impacto na banda naquela época?
Alex Lifeson: Não, apenas achamos aquele jornalista [Barry Miles] um idiota. Não ouço falar desse jornalista há muito tempo, nem sei o que aconteceu com ele. Mas nós estamos aqui, mais fortes e mais populares do que nunca. O que aconteceu foi que esse cara veio fazer uma entrevista e já sabia o que iria escrever, nada que disséssemos mudaria isso. Ele veio, tomou toda a cerveja e comeu todos os sanduíches que estavam lá e começou com um papo socialista, dizendo que a gente era de direita, totalmente louco. Isso por causa da Ayn Rand [escritora russa acusada de ser simpatizante do fascismo], de quem o Neil tinha lido alguns livros. Ele falou sobre isso, e tivemos uma discussão amigável. Depois, saiu e escreveu que nós éramos nazistas, de direita, toda essa loucura. Enfim, não teve repercussão na América do Norte, foi coisa da imprensa britânica, que é meio maluca mesmo. Nós sabemos quem somos.

iG: E qual será a característica mais lembrada do Rush quando a banda se aposentar? A complexidade musical, as letras, os músicos, a carreira como um todo, o o que será mais importante?
Alex Lifeson: Acho que nosso legado é o fato de termos ficado unidos por muitos e muitos anos, desde 1974. Acho que o Rush mostrou a muitas bandas novas que você consegue vencer fazendo as coisas da sua maneira, com perseverança, apesar de ser mais difícil nos dias de hoje.

Serviço – Rush no Brasil

São Paulo (08 de outubro)
Local: Estádio do Morumbi - Praça Roberto Gomes Pedrosa, nº 1 - Morumbi - São Paulo (SP)
Abertura dos portões: 17h
Horário do show: 21h30
Preços: pista (R$ 250), pista vip (R$ 500), cadeiras inferiores (R$ 250), cadeiras superiores (R$ 300), arquibancada vermelha especial (R$ 200), arquibancada azul/vermelha (R$ 180), arquibancada laranja (R$ 160)
Bilheteria oficial (sem taxa de conveniência): Estacionamento anexo ao Credicard Hall (Av. das Nações Unidas, 17981, São Paulo), diariamente, das 12h às 20h

Rio de Janeiro (10 de outubro)
Local: Praça da Apoteose
Abertura dos portões: 17h
Horário do show: 20h
Preços: pista e arquibancada (R$ 220), pista premium (R$ 500)
Bilheteria oficial (sem taxa de conveniência): Citibank Hall/RJ (Av. Ayrton Senna, 3000, na rampa externa do Shopping Via Parque - Barra da Tijuca)

Vendas por telefone: 4003-0696 (válido para todo o país)
Internet: Tickets for Fun
Postos de venda autorizados: acesse aqui

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