Guinga abre programação do MIMO 2011

Brasileiro encantou público na praia da Boa Viagem; dupla Ballaké Sissoko e Vincent Segal tocou mais tarde com Naná Vasconcellos

Tiago Agostini, enviado especial a Olinda |

A noite começava a cair no Recife na quarta-feira (7). No Parque Dona Lindu, na orla da praia de Boa Viagem, muitas famílias ocupavam o vasto espaço entre os dois auditórios circulares do local. Mais do que apenas uma diversão para o final de um feriado, aquele era o palco do primeiro grande show da 8ª Mostra Internacional de Música de Olinda (MIMO), que em 2011, pelo segundo ano, se expande pela cidade vizinha.

Renato Spencer/Santo Lima
Guinga se apresenta à frente da Orquestra Sinfônica do Recife: show irretocável
Acompanhado da Orquestra Sinfônica do Recife, o violonista Guinga subiu ao palco para um show sóbrio na abertura externa de um dos auditórios. Mesmo não acostumado a encarar plateias tão grandes, o músico não se intimidou com o desafio ou o passo ritmado da corrida das crianças ao redor do palco. "Sou descendente de pernambucanos. É uma vitória para mim poder tocar para um público tão grande", disse, visivelmente emocionado, após interpretar um baião que arrancou aplausos efusivos.

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O show, no entanto, foi recheado de momentos mais calmos. As bossas do violonista criaram um ambiente de nostalgia e, por diversas vezes, melancolia. O público, com média de idade avançada, retribuía com atenção e reverência.

No palco, Guinga se mostra senhor da situação. É impressionante como, apenas com um violão, ele consegue fazer frente a uma orquestra inteira. Nas músicas mais lentas, com seu dedilhado firme, porém singelo, ele comanda toda a harmonia e ritmo da canção, cabendo às dezenas de músicos atrás dele apenas os floreios. Uma performance irretocável.

Com uma voz que saía com força, ele tomou o microfone para cantar poucas vezes, como em "Canção Desnecessária" e "Senhorinha", dedicada a suas filhas. Para finalizar o espetáculo, um frevo retomou a agitação do local, provocando as maiores palmas ouvidas na noite. O público deixou de lado seu papel contemplativo e pediu um bis, prontamente atendido, mesmo que para surpresa de alguns músicos, que já guardavam seus instrumentos. Repetindo o último número, Guinga pediu ao público que levantasse. Mesmo não atendido, terminou o show com um sorriso no rosto.

Divulgação
Vincent Segal e Ballaké Sissoko, em foto de divulgação: música a serviço da dupla
Em Olinda, a MIMO começava praticamente ao mesmo tempo, com shows e filmes nas igrejas. Foi no ponto mais alto da cidade, na Igreja da Sé, sob os olhares do governador Eduardo Campos e do prefeito de Olinda Renildo Calheiros (recebido por vaias em seu discurso), que o melhor show da noite aconteceu. O malês Ballaké Sissoko e o francês Vincent Segal subiram ao palco atrasados 45 minutos, mas compensaram a espera do público impaciente com dois bis.

Aos pés do altar, sob os olhares de um enorme cristo crucificado na parede, os dois sentaram lado a lado no palco simples, acompanhados de uma luz quente e permanente. Em uma igreja sem muitos adornos pelas paredes, a sobriedade do ambiente tornava a música quase angelical da dupla, capaz de ninar crianças no fundo do local, o único foco.

Virtuose da kora, um instrumento parecido com a harpa, Sissoko comandava o espetáculo com seus dedilhados ligeiros. Ao seu lado, Segal tirava os mais diversos sons de seu violoncelo, hora pontuando o ritmo como um baixo firme, hora emocionando com seus solos melódicos. Apesar da excelência técnica dos músicos, não há egos no palco. Os dois utilizam sua virtuose a serviço um do outro, a serviço da canção.

Em um português macarrônico, mas esforçado, Segal explicou que a kora não é um instrumento que funcione muito bem acompanhado de percussão. No entanto, foi com a presença de Naná Vasconcelos, saído da plateia, no primeiro bis, que o show atingiu seu ponto alto. Utilizando apenas um berimbau, Naná conferiu suingue tropical à música contemplativa da dupla. O público que lotava a igreja – e seu espaço externo – irrompeu em êxtase. De pé, a plateia ainda teve o prazer de ouviu uma versão de "Asa Branca", que encerrou o espetáculo.

A MIMO continua nesta quinta-feira (8), com destaque para o show de Arthur Verocai, na mesma Igreja da Sé, e do Gotan project, ao ar livre, na Praça do Carmo.

* O repórter viajou a convite do festival

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