Guilherme Arantes: "Não tenho problema em ser brega"

Músico festeja 35 anos de seu primeiro disco e avisa: "Espero que volte a ter bastante garotada me ouvindo"; leia entrevista ao iG

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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Guilherme Arantes
Guilherme Arantes está festejando 35 anos de carreira. A data marca o aniversário de lançamento de seu primeiro disco solo, que o tornou conhecido com a balada "Meu Mundo e Nada Mais". Mas, antes, ele já tinha lançado um álbum, em 1974, com o Moto Perpétuo, banda de rock progressivo que integrou na primeira metade daquela década. "É, realmente já estou com uns 40 anos de carreira", reconhece o músico.

Arantes conversou com a reportagem do iG enquanto se preparava para mais um dos shows da turnê de 35 anos. O repertório das apresentações é uma celebração do que aconteceu de lá para cá: além de "Meu Mundo e Nada Mais" , sucessos como "Amanhã" e "Deixa Chover" estão incluídos, ao lado de raridades resgatadas como "Marina No Ar". Até "Perdidos na Selva" , que ele compôs com Julio Barroso para a Gang 90, entrou no setlist.

Veja letras e ouça músicas de Guilherme Arantes

Na entrevista abaixo, o músico fala sobre o fato de ser um artista brega ("Queria cantar para os pobres, ser cantor romântico mesmo"), comenta as críticas que recebeu por isso ("Não tenho nenhum problema em ser brega") e afirma que Elis Regina foi a responsável pelo seu sucesso. E avisa: "Espero que volte a ter bastante garotada me ouvindo".

iG: Você está festejando 35 anos de carreira. Mas, se contar o Moto Perpétuo, é mais tempo.
Guilherme Arantes:
Sim, já estaria perto dos 40 anos. Minha carreira começou quando eu conheci o Diógenes Burani, baterista d'O Bando, uma banda sensacional, acho que a melhor do Brasil no começo dos anos 1970. Eu virei músico nessa época. Em 1972, eu entrei na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) e montei o Moto Perpétuo. Éramos eu, o Diógenes, o Claudio Lucci, um colega da faculdade, e outros músicos. Se incluir o Moto Perpétuo, realmente já estou com uns 40 anos de carreira.

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Capa do primeiro disco de Guilherme Arantes, lançado em 1976
iG: Por que o Moto Perpétuo terminou logo após lançar o primeiro disco?
Guilherme Arantes:
Eu tinha um problema sério nessa época, tinha o sonho do auditório. Os programas de auditório acompanharam a minha infância. A Jovem Guarda, os calouros do Silvio Santos, coisas como o Chacrinha. Tinha uma queda por essa capilaridade social. Queria cantar para os pobres, ter a minha cara nas periferias, queria ser cantor romântico mesmo. Por isso eu briguei com o Moto Perpétuo.

iG: Era uma banda de rock progressivo, certo?
Guilherme Arantes:
Sim. Eles queriam aquela carreira de rock'n'roll. E o rock ainda não existia no Brasil. Não tinha uma estrutura, era muito precário. Na década de 1970, você tinha só O Terço, O Som Nosso de Cada Dia, o Vímana, essas bandas. Nada muito popular. Na verdade a banda não sabia muito bem o que queria. Mas eu sabia. Eu queria o auditório, e isso magoou muito os meus colegas. Eles não aceitavam de jeito nenhum.

iG: Você teve o auditório em mente desde o início?
Guilherme Arantes:
Eu tinha uma atração, e naquela época isso era possível. Era possível uma pessoa de classe média alta querer ser um ídolo popular. Com o Ronnie Von foi assim. Era um artista elitizado que se tornou muito popular. Hoje isso não é mais possível. As classes sociais já escolhem os seus extratos, não há capilaridade. Só é possível um Seu Jorge, um cara que veio da rua e hoje canta para a granfinada, em shows de agências da publicidade. Você consegue subir, mas não descer. As classes emergentes já têm os seus ídolos e não aceitam oriundos de outras extrações.

iG: Você foi bastante criticado por isso, foi chamado de brega...
Guilherme Arantes:
Mas hoje eu tenho orgulho de ter feito isso. Esse toque quem me deu foi o Mano Brown, dos Racionais MC's. Ele gosta muito de mim, e me falou que a família dele também tinha uma queda por mim. Ele me disse: 'Sua grande vantagem é que você não teve problema em meter a cara na comunicação com o povo mais humilde'. Coisa que a playboyzada do rock, aquele pessoal de Ipanema e Leblon, não fez. Kid Abelha e Paralamas tinham problema em ir no Chacrinha, entendeu?

iG: E o que esses artistas respondiam quando você falava isso?
Guilherme Arantes:
As pessoas ficavam indignadas! Falavam coisas como 'quem é esse brega para falar da gente?'. Só que o tempo passa, bicho. E eu não tenho nenhum problema em ser brega. Eu acho que esse espaço de um Amado Batista, de um Odair José, não é qualquer um que visita, não. Essa linguagem sentimental é muito difícil de ser produzida, essa identificação. Por isso acho que bandas como a Vexame, que fazem piada em cima da linguagem das classes mais pobres, são infelizes. Minhas músicas já foram gravadas por Zezé di Camargo e Luciano, pelo Belo. Isso para mim é uma honra.

iG: Então as críticas nunca te incomodaram?
Guilherme Arantes:
Eu sabia o que estava fazendo. E também houve algumas coisas que me ajudaram a me manter e a não morrer. A primeira delas foi a Elis Regina, que gravou "Aprendendo a Jogar" em 1980. A Elis é a principal responsável pelo meu sucesso, com certeza. Lógico que na época em que ela me gravou eu já era alguém, já tinha feito "Amanhã" e "Meu Mundo e Nada Mais". Mas a Elis foi a pessoa que teve coragem de me apresentar para um público mais "exigente". Ela foi meu grande aval. Tanto que os colegas da FAU só começaram a olhar melhor para mim quando a Elis me gravou. Porque eles não gostavam de mim. Eu era meio a vergonha da classe.

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Guilherme Arantes
iG: O que você acha dos artistas novos que colocam você entre suas influências?
Guilherme Arantes:
Esses músicos da nova geração gostam de mim, né? O Kassin é um cara que me adora e me falou uma coisa interessante. Nos anos 1990, ninguém tocava mais piano, era só guitarra. E hoje a nova geração quer resgatar, por contraposição, o piano, o sentimento, a delicadeza. E aí vêm esses artistas como o Kassin e o Marcelo Jeneci visitar a minha obra. No caso do Jeneci, eu tenho até que tomar cuidado, porque as letras dele também falam de água, chuva. É suspeito isso aí (risos).

iG: Você sente que está mais popular agora do que há dez ou quinze anos?
Guilherme Arantes:
O melhor presente é o reconhecimento dos colegas. Porque eu nunca fui um vendedor de disco. O máximo que eu consegui foi o "Romances Modernos", que vendeu umas 250 mil cópias. Então eu acho que as gravadoras desanimaram comigo. Apostaram alto, achando que vinha milhão, e não veio. Talvez tenha sido a minha sorte.

iG: Por que sorte?
Guilherme Arantes:
Porque artistas para quem o milhão veio, como o RPM, depois tiveram que ficar correndo atrás de uma marca que é impossível de ser repetida. Alguns artistas viram a "bola da vez", até passar a onda. A minha onda passou em 1989, mais ou menos. Aí cansaram de mim. Como cansa tudo, como a Ana Carolina e o Jorge Vercilo cansaram, por exemplo. As gravadoras às vezes perdem a noção. Pegam muito pesado no jabá e depois o artista sofre por causa do excesso de exposição.

iG: O que espera da sua carreira 35 anos depois?
Guilherme Arantes:
Eu espero que volte a ter bastante garotada me ouvindo. Ser descoberto pela molecada deve ser muito bom. Como aconteceu com Jorge Ben, com Tim Maia, agora com o Odair José. E daí ter serenidade e fazer o que eu gosto.

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