Gringo com pós-graduação chama atenção como funkeiro

Natural da Califórnia, Don Blanquito faz shows no subúrbio do Rio de Janeiro e tenta carreira no ritmo tipicamento brasileiro

The New York Times |

O trem para esta cidade vizinha ao Rio de Janeiro carrega passageiros da classe baixa urbana que correm atrás de sonhos grandes e pequenos: adolescentes fazendo peneira para um time de futebol, uma empregada estudando para ser enfermeira e um vendedor de facas anunciando seu produto nos corredores.

E também tem esse americano de 30 anos com camisa do UCLA Bruins, dono de um MBA e uma fluência em português que só pode ser adquirida nas favelas do Rio.

"Esse é o Don Blanquito", disse Cláudia de Oliveira, 21 anos, passageira que sorriu admirada pelo americano antes de descer do trem em Mesquita. "Ele é o gringo mais corajoso do Rio inteiro."

Douglas Engle/The New York Times
Alex Cutlex, ou Don Blanquito, mora na Ladeira dos Tabajaras, no Rio de Janeiro
Não é todo dia que um americano ganha fama na bruta periferia do Rio, ainda mais com um apelido desses. É ainda mais raro que ele faça isso como cantor e compositor de funk carioca, gênero musical nascido nas favelas.

Porém, Don Blanquito, cujo nome real é Alex Cutler, não é apenas um americano qualquer.

"Sei que deve parecer maluquice encontrar um branco californiano neste cenário", disse Cutler, com diploma universitário pela Northeastern University e MBA pela Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. "Eu poderia ter ido para Wall Street, comer no Nabu toda noite, mas eu me encontrei no mundo do funk."

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O funk carioca, que não deve ser confundido com o som clássico de James Brown ou do Parliament-Funkadelic, é primo em ritmo acelerado do hip-hop americano, influenciado pelo estilo Miami bass, dos Estados Unidos, mesclado com elementos do rap, samba e techno locais.

O resultado, com letras que costumam celebrar vividamente a sensualidade das mulheres do Rio e as façanhas de seus barões das drogas, não é para os fracos do coração. "Samples" de rajadas de metralhadora são misturadas a batidas pré-gravadas, e alguns bailes funk terminaram em bacanais desenfreados.

As músicas mais explicitamente violentas que, para a polícia brasileira, incitam a violência, são ilegais, colocando-as no mesmo time de outros gêneros musicais latino-americanos fora da lei, como as "baladas proibidas" da Colômbia, que celebram a guerrilha e os chefões paramilitares.

Numa subcultura musical que ainda assusta e fascina muitos moradores dos bairros nobres à beira-mar, literalmente à sombra dos morros das favelas do Rio, Cutler sabe o que diz. Seu português flui com a terminologia dos malandros de rua e piadas autodepreciativas, um fluxo de consciência que, no mínimo, seria proibido para menores.

Douglas Engle/The New York Times
Blanquito em show na Baixada Fluminense
E ao contrário de muitos estrangeiros de tempo bom que frequentam o Rio por causa de suas praias, Cutler também sabe se virar. Ele se apresenta na dura cidade de Nova Iguaçu e outras partes inseguras da Baixada Fluminense. Ele também aposta na Ladeira dos Tabajaras, favela empoleirada no topo de Copacabana, onde pagou US$ 20 mil em espécie por uma casinha na qual mora com a namorada, Yasmin Leiros.

Tabajaras fica bem longe de Los Angeles, onde Cutler foi criado numa família judia abastada, antes de estudar na Berkshire, um internato em Massachusetts. (Ele brinca que o sobrenome que parece uma palavra inglesa foi modificado por um ancestral que emigrou da Rússia, pensando que soaria como "cutlery" , ou cutelaria.)

Cutler abriu caminho no mundo do funk partindo do zero, após esforços iniciais fazendo rap em espanhol nos EUA e na República Dominicana. Ele disse que foi atraído pelo rap e depois pelo funk pela noção de aventura incomparável que esses gêneros ofereciam comparado a trabalhar num escritório. O irmão de uma namorada dominicana o batizou de Don Blanquito, nome que manteve.

Depois de se mudar há quatro anos para cá, Cutler viajava todo fim de semana de ônibus e trem para a Baixada Fluminense, onde distribuía sua música para DJs famosos. Adquirindo experiência nesses clubes, desviando das balas quando aconteciam tiroteios, ele diz que encontrou seu chamado.

Ele usa o que chama de marketing de guerrilha, distribuindo CDs para passageiros nos vagões, além de camisetas e preservativos com seu nome, Don Blanquito.

"Quero que meus fãs riam um pouco e se lembrem de mim, mesmo durante um momento íntimo."

O humor também oferece uma forma de se apropriar da incongruência cômica de sua posição. Quando especialistas em funk carioca escutam sua história improvável, esperam algum tipo de humorista, ou um provocador estrangeiro se apropriando de um cenário musical em grande parte negro, um Eminem ou Ali G, o satírico farsante do hip-hop criado pelo comediante britânico Sacha Baron Cohen.

Durante um show recente numa boate em São João do Meriti, muitos ficaram de queixo caído sem saber o que pensar do americano no palco.

Douglas Engle/The New York Times
Don Blanquito distribui CDs e camisinhas na noite carioca: marketing de guerrilha
No entanto, Cutler superou o ceticismo. Parte de sua atração tem a ver com a novidade de um americano em lugares que poucos estrangeiros ousam pisar. Alguns fãs gostam do jeito como ele exalta os grandes apetites pelas buscas sensuais do Brasil ou das bailarinas que o acompanham.

"Don Blanquito está vindo de baixo, sem impor uma estética, o tanto quanto possível, e trabalhando dentro de estruturas existentes para fazer sua música", disse Paul Sneed, professor da Universidade do Kansas que escreveu extensivamente sobre o funk carioca.

O sucesso de Cutler o transformou numa espécie de celebridade. Nas ruas do Rio, os fãs correm para tirar fotos com ele com seus celulares. Uma apresentação num famoso programa de entrevistas na televisão, em fevereiro, acentuou seu estrelato.

"Fui mais citado do que o Kadafi no Twitter naquele dia", diz numa típica bravata.

Enquanto Cutler se especializa no que chama de "funk light", enfatizando letras cheias de vida, mas evitando a celebração da violência, ele sabe que a cena funk maior está evoluindo à medida que as favelas do Rio estão sendo pacificadas por forças de segurança, expulsando os cantores mais brutos e belicosos, favorecidos pelos traficantes de droga e seus subordinados.

Cutler é meditativo quanto à natureza mutante do funk, chegando a reconhecer que seus dias se apresentando podem estar contados, apesar das novas oportunidades para os fornecedores do "funk light". Talvez tenha a ver com a percepção de que a fama é efêmera. Talvez envolva completar 30 anos num mundo de jovens. E talvez seja porque, apesar de sua celebridade, sobreviver como cantor de funk não é fácil.

Ele já se diversificou, e trabalha durante o dia vendendo equipamento para eventos para uma multinacional.

Só que seu coração continua nas favelas onde o funk nasceu. Ele está comprando uma casa maior em Tabajaras, uma favela pacificada. Malconservada, mas oferecendo uma vista estonteante, a propriedade convém a uma figura que entendeu o código do Rio.

"Vou ficar na favela. Não sei se vou cantar funk para sempre, mas sei o que é fazer música que estremece a alma."

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