Gravadora Joia Moderna resgata cantoras que estavam "no escuro"

Selo pilotado pelo DJ Zé Pedro lança discos de Zezé Motta, Silvia Maria e Cida Moreira

Augusto Gomes, iG São Paulo |

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Zezé Motta
Atriz consagrada, Zezé Motta também fez sucesso como cantora no final dos anos 1970, interpretando músicas como "Pecado Original" (Caetano Veloso) e "Dores de Amores" (Luiz Melodia). A partir da metade da década de 1980, seus discos ficaram cada vez mais raros - seu último trabalho, "Divina Saudade", é de 2000. No caso de Silvia Maria, a distância dos estúdios é ainda maior: lançou apenas dois discos, "Porte de Rainha" (1973) e "Coragem" (1980), e depois nunca mais gravou. Cida Moreira, pelo menos, tem uma discografia mais robusta. Desde sua estreia, com "Summertime" (1981), ela vem gravando frequentemente. Mas sempre em selos independentes, longe da grande mídia.

O que as três têm em comum? Todas elas fazem parte do elenco da Joia Moderna, selo especializado em cantoras que coloca seus primeiros discos nas lojas este mês. "A Dama Indigna", de Cida Moreira, foi gravado ao vivo em estúdio e é uma espécie de resumo do espetáculo que a artista vem apresentando nos últimos anos. "Negra Melodia" traz Zezé Motta interpretando canções de Luiz Melodia e Jards Macalé e "Ave Rara" é o retorno de Silvia Maria ao disco após três décadas. Completa o time de lançamentos o álbum coletivo "A Voz da Mulher na Obra de Taiguara", que traz 14 cantoras interpretando músicas do compositor de "Hoje" e "Universo do Teu Corpo", morto em 1996.

"O objetivo da Joia Moderna é iluminar o que estava no escuro", explica o criador da gravadora, José Pedro Seliste, o DJ Zé Pedro. Quem já ouviu seus remixes para canções de Maria Bethânia ou Clara Nunes sabe de sua paixão por cantoras. E foi justamente por causa dessa paixão que ele decidiu "iluminar o que estava no escuro" - em outras palavras, dar voz a quem estava há anos sem gravar. "Infelizmente, o Brasil tem essa mania de matar uma artista para criar outra", reclama. "Só que essas mulheres estão todas de pé. O mercado é que ignora."

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Cida Moreira
Segundo Zé Pedro, o selo surgiu em novembro do ano passado, a partir de conversas com o produtor Thiago Marques Luiz. "Ele estava fazendo o disco da Cida e o tributo ao Taiguara para outra gravadora, mas por algum motivo eles não tiveram interesse em lançar", explica. "Aí percebi que poderia bancar esses lançamentos com meu próprio dinheiro e dei partida nessa maluquice". O álbum de Cida Moreira foi gravado ao vivo em estúdio, em apenas dois dias. "Ela não precisa de direção. Tudo o que fizemos foi dar liberdade para ela ficar bem louca", ri.

As loucuras, no caso, incluem um repertório que vai de Amy Winehouse ("Back to Black") e David Bowie ("Soul Love") a Chico Buarque ("Uma Canção Desnaturada") e Jards Macalé ("Hotel das Estrelas"). Neste final de semana (sexta e sábado), Cida cantará as treze canções do disco e mais algumas que ficaram de fora no espetáculo "A Dama Indigna", no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Nesta quinta, ela também estará presente no espetáculo Joias Modernas, no MIS (Museu da Imagem e do Som), interpretando uma das canções do tributo a Taiguara. Além dela, nomes como Claudette Soares, Vânia Bastos e Fafá de Belém também vão participar.

O show de lançamento do disco de Zezé Motta acontecerá somente em março, segundo Zé Pedro. "Ela vai cantar no Sesc Belenzinho, com participação do Luiz Melodia e do Jards Macalé", adianta. A cantora já está familiarizada com a obra dos dois. Seu primeiro disco, de 1978, traz uma gravação de "Magrelinha", de Melodia, enquanto o terceiro tem uma antológica versão de "Sem Essa", de Macalé. Em "Negra Melodia", ela se debruçou sobre composições menos conhecidas da dupla. "Ela gravou o que quis. Só fiz um pedido: não queria mais uma versão de 'Pérola Negra'", diz, referindo-se a um dos maiores sucessos de Luiz Melodia. Um dos destaques do disco, na opinião de Zé Pedro, é "Soluços", de Macalé. "Ela canta com uma fúria...", elogia.

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Silvia Maria
E há, finalmente, Silvia Maria. "Quando era criança, a vi cantando no programa TV Mulher e fiz meu pai fazer uma peregrinação pelas lojas do Rio de Janeiro atrás do disco dela", lembra. Trinta anos depois, sua obra estava praticamente esquecida. "Aí, um dia o Thiago Marques Luiz me telefonou e disse que ela iria fazer um show no Memorial da América Latina", conta. "Fomos sem saber o que esperar e encontramos uma mulher com vitalidade de uma menina de vinte anos". Segundo ele, quinze dias depois ela estava em estúdio gravando "Ave Rara". "Nós simplesmente tiramos o show do palco e levamos para o disco."

A princípio, esses quatro discos são os únicos lançamentos da Jóia Moderna. Mas Zé Pedro não descarta resgatar a obra de outras artistas. "Eu olho para a minha prateleira de discos e é angustiante ver quantas grandes cantoras estão sem gravar hoje em dia."

Serviço

Joias Modernas no Museu da Imagem e do Som (MIS)
Avenida Europa, 158, Jardim Europa
Quinta-feira (10), às 21h
Entrada gratuita (retirada de senhas a partir das 20h)

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