Grandes nomes do lo-fi viram Monsters of Folk

Supergrupo fala sobre álbum de estreia e turnê

The New York Times |

Os integrantes do The Monsters of Folk alegam não se lembrar de quem inventou o nome da banda ¿ algum roadie espertinho, diretor de turnê ou empresário. No entanto eles sabem que o nome não deixa de ser de um sarcasmo sutil. Os quatro integrantes ¿ Conor Oberst, 29, mais conhecido pelo apelido de Bright Eyes; Matt Ward, 35, mais conhecido como M. Ward; Jim James, 32, o homem de frente do My Morning Jacket, que atualmente prefere ser conhecido por Yim Yames; e o produtor e multi-instrumentalista Mike Mogis, 45 ¿ são todos nomes e vozes de peso na cena indie rock. Mas, eles são quase tão ameaçadores como as piadinhas com trocadilhos, ou mesmo como um cascudo.

Recentemente reunidos em um quarto de hotel no SoHo nova-iorquino, eles pareciam um bando de garotos contando piadas e curtindo um com a cara do outro. Esse companheirismo evidente também pode ser ouvido no álbum de estreia, que leva o mesmo nome da banda. Dado o desenvolvimento musical do grupo, o disco foi bastante aguardado nos círculos indie como uma coletânea de canções bem trabalhadas sem um daqueles temas abrangentes ¿ apesar de elas não serem tão folk assim. O trabalho conjunto ¿ e o nome ¿ foi impulsionado por uma turnê em 2004, quando eles se deram conta de que como conviviam bem.  

O mundo precisava do Monsters of Folk, e nós atendemos ao pedido, disse James, sentado em um sofá verde antigo, com o braço em volta de Oberst.

Como foi esse pedido?

James deu um gemido e disse: Parecia que tudo estava morrendo ¿ a Virgin Megastore, os jornais, as árvores ¿ era o colapso de um império e o renascimento de uma nação.

Ward servia pra todo mundo xícaras de café que tinha acabado de preparar. Ele entrou na conversa: A gente tem muita coisa em comum em relação à música. Acho que começamos a desenvolver confiança, como acontece em família.

Barbudos (James, resplandecente; Mogis, mais modesto) e usando roupas largadas (Ward, camisa de flanela; Oberst, bata hippie bordada), eles parecem uma família ¿ família de grandes nomes do lo-fi (Por consenso, Mogis, o produtor, é a figura paterna). Mas, mesmo no mundo interligado do indie rock, o Monsters of Folk é quase uma raridade, com três integrantes que são guitarristas, vocalistas e letristas - todos eles excelentes em termos de apreciação musical, bases de fãs e inclinações artísticas, além de um público comum.

Bloggers e críticos foram rápidos em chamá-los de supergrupo, rótulo bastante controverso. O principal problema do termo supergrupo é que você cria a expectativa de que ele seja o máximo, e acho que isso é algo muito mais qualitativo do que quantitativo, disse Bobby Haber, CEO da CMJ Network, empresa que acompanha tendências musicais entre estudantes universitários. Acho que esses caras querem sair fazendo o que sempre fizeram, só que juntos. Em relação à extensa carreira dos integrantes, ele completou: Acho que eles vão ser bem aceitos.

Mas, ao ouvir os integrantes da banda falar sobre o assunto, parece que o projeto não passou de uma brincadeira, feito principalmente por prazer. Todos nós estávamos muito curiosos para ver o que ia acontecer se o disco chegasse a sair, e como ele seria, comentou Ward.

Cada um dos três letristas contribuiu com cinco canções, e cada um fez o vocal principal de seu próprio material. Mogis colaborou na finalização de cada faixa, e todas as canções são creditadas ao grupo - com os integrantes tocando todos os instrumentos. O estilo e voz de cada um ¿ cativante e mais solene para Ward; melancólico e mais nasal para Oberst; lírico e com base no rock para James ¿ permanecem distintos, mesmo em faixas como Say Please, o primeiro single, no qual eles cantam harmonicamente.

O disco abre com Dear God (Sincerely MOF), faixa com nuances de electro escrita por James com a ideia de que cada vocalista cantaria um verso (Oberst adicionou a parte Sincerely ao título). Eles trocaram ideias sobre a orquestração e debateram sobre a escolha das faixas.

Com cada um com a sua própria canção, você se sente como se fosse o capitão do navio, disse James, buscando uma das muitas metáforas que ele usou para descrever o projeto. No My Morning Jacket, ele continuou sou meio o capitão das canções ¿ os outros integrantes riram do que ele disse ¿ enquanto essa banda tem três pessoas que escrevem e interpretam as canções, então é como se a gente estivesse em uma gangorra: o poder de capitanear é igual.

Ward prosseguiu na mesma linha de pensamento: Acho que todos nós éramos capitães de nossos próprios barcos, mas em certos momentos eu fui para a proa e Mike assumiu o remo, assim como Conor e Jim, cada um dando uma direção. Mas, no final do dia, foi você que trouxe o barco ao porto, então é você quem vai dizer que a missão foi cumprida.

Oberst: Quebrar a garrafa de champanhe na lateral.

Mogis: Dizer que você está em casa.

Ward: Acho que vou parar por aqui.

Embora os músicos de hoje estejam acostumados a veicular na mídia todos os seus passos, o Monsters of Folk manteve em silêncio a formação do grupo, em parte por temerem que a mesma não funcionasse. Todos nós admitíamos a possibilidade de que não iria funcionar, ou de que o disco não ficaria pronto, ou ainda que fosse demorar mais quatro anos para finalmente acontecer, disse Oberst.

Foram meses de discussões em grupo ¿ Tivemos as conference calls mais incríveis que a América já teve, disse James ¿ e de troca de emails com demos. Finalmente, em fevereiro de 2008, eles se reuniram no estúdio construído por Oberst e Mogis no quintal que compartilham na cidade de Ohama. Ward, que mora em Portland, estado de Oregon, e James, que mora em Lousville, Kentucky, hospedaram-se na casa de hóspedes. As sessões experimentais correram bem, então eles se encontraram alguns meses depois em Malibu, Califórnia, e acabaram voltando mais uma vez a Ohama para finalizar o álbum. O tempo juntos em estúdio, porém, não passou de algumas poucas semanas.

Quando começamos, não tínhamos nenhuma expectativa de fazer um disco, e isso é uma parte do prazer libertador em fazer música, disse Mogis.

Eles também ficavam juntos nas horas livres, cozinhando e passeando de carro. Na Califórnia, eles alugaram um conversível - um Sebring prata lindo!, disse Oberst ¿ e ficaram zanzando ao som de Be Thankful for What You Got, sucesso soul de William DeVaughn dos anos setenta - a única música que ouviam exceto a deles. Essa é a melhor música de todos os tempos, disse Oberst. Jim colocou essa música na função repetir por uns seis dias seguidos.

A afinidade compartilhada por música retrô está presente no álbum, grande parte gravado em equipamento vintage.  Para um grupo vocal, Mogis até tentou fazer os três cantarem no mesmo microfone, estilo old school, disse ele. Não funcionou ¿ o volume de cada um era muito diferente ¿ então optaram por usar microfones separados, mas gravaram simultaneamente. A gente precisava desse companheirismo, de um continuar quando o outro terminava, porque se você só está no overdubbing e entra friamente, não fica bom.

Mas o experimentalismo era parte do processo: apesar dos três serem multi-instrumentalistas, eles não eram bateristas típicos, com exceção neste álbum. Em Losin Yo Heas, faixa barulhenta gravada em um único take, Oberst ficou na bateria, Mogis no baixo, Ward na guitarra e no backing vocal, enquanto James tocava guitarra e fazia o vocal principal ¿ tudo isso amplificado em uma grande Marshall Stack. No final da canção, ouve-se Oberst dizendo: Eu me senti melhor com essa.

Tocar uma canção com quatro pessoas que já estão no meio caminho é uma energia tão diferente. Você fica se pergunta se está fazendo a coisa direito. É o contrário de quando faço um disco com o My Morning Jacket: é confortável, certeiro, como uma broca de precisão. Com o Monsters of Folk, você fica com medo da casa desmoronar, mas é essa energia que faz tudo ficar divertido, disse James. Parecia que a gente era um bando de adolescentes tocando na garagem, disse Mogis.

Os três integrantes do Monster disseram que aprenderam técnicas que levarão para outros projetos. Agora sei melhor porque gosto tanto dos discos que eles fazem, disse Oberst referindo-se a seus companheiros de banda. Eles estão embarcando juntos em turnê, queira ou não, a primeira como um supergrupo. O primeiro show será no próximo mês em Vancouver e eles chegam a Nova York em novembro. Eles pretendem completar o repertório com material de outros artistas. Então, será que isso só vai aconteceu uma vez?

Não necessariamente. Vai depender de como tudo vai rolar. Se tudo rolar bem, provavelmente faremos outra turnê. Se não, provavelmente faremos outra turnê mesmo assim, disse James.

    Leia tudo sobre: bright eyesm wardmy morning jacket

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG