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Gilberto Gil BR Banda Larga Cordel

Diego Fernandes |

Por Diego Fernandes

Gilberto Gil parece intensamente interessado em analisar a intersecção entre tecnologia e folclore em seu trabalho mais recente. Divulgado de maneira entusiasmada pelo ministro da Cultura como uma tentativa de conciliar sob um mesmo teto temático as discrepâncias sociais inerentes ao Brasil com a expansão tecnológica exponencial, Banda Larga Cordel soa demais como uma tese empurrada além de seu ponto de ruptura. As texturas sonoras passeiam por uma gama de estilos já visitados previamente pelo tropicalista (sem qualquer distinção), com algum verniz eletrônico aplicado aqui e ali. Texturas diversas são executadas perfeitamente (em alguns momentos, até demais), mas as dezesseis faixas do trabalho não sucedem em deixar qualquer impressão distinta.

"Despedida de Solteira" emprega homossexualismo feminino como uma (óbvia) reviravolta de roteiro, mas acaba soando como se narrasse própria invenção da roda. A levada reggae de "Os Pais" não prepara ninguém para a letra, indutora de constrangimento quase instantâneo: "Os pais, os pais / Estão preocupados demais / Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narcomarginais / Ou então nas mãos dos molestadores sexuais / E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais". Isso na segunda faixa do disco, praticamente neutralizando a boa fé do ouvinte logo de cara. Só um exemplo de como se pode vir a questionar se a verve poética de Gil não foi definitivamente tragada por Brasília.

Há ainda músicas inclassificáveis, como a eletrônica disforme de "La Resistence Africaine" e "O Oco do Mundo". O baião digital "Não Grude Não" é um dos poucos pontos altos num trabalho longo e amorfo demais. Todo o incremento teórico apresentado pelo ministro acerca de inclusão digital e assuntos na ordem do dia infelizmente o fazem soar mais anacrônico do que quando cantava o nonsense irretocável de "Nêga, you spent so blissfully the last few days with me". Ninguém em sã consciência questionaria o legado de Gil e a longa sombra que sua música conjura sobre toda MPB, mas no fim das contas não é isso que está em questão: Banda Larga Cordel soa como uma oportunidade desperdiçada por uma das poucas lendas vivas da música nacional.

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