Filme sobre Bezerra é tapa com luva de pelica

Documentário está na programação do In-Edit

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

A expressão "tapa com luva de pelica" cabe sob medida para descrever o documentário "Onde a Coruja Dorme", centrado na figura desconcertante do sambista pernambucano radicado carioca Bezerra da Silva (1927-2005). O filme estreia em São Paulo neste domingo, dentro da programação do In-Edit Brasil ¿ 2º Festival Internacional do Documentário Musical, mais um evento a coroar um momento produtivo do encontro entre o cinema e a música popular brasileira.

Bezerra desfruta de simpatia esparsa fora dos ambientes de favela e periferia nos quais ancorou sua obra, mas não é artista daqueles que atraem atenção mais cuidadosa por parte da crítica musical ¿ e essa é a primeira pelica do filme dirigido por Márcia Derraik e Simplício Neto. Sem tecer loas bajulatórias ao personagem, a dupla vai reconstituindo a importância musical do sambista pouco a pouco, tijolo por tijolo. A ironia, o virtuosismo e o forte conteúdo político dos partidos altos cantados por ele se impõem no fundo musical, enquanto uma narrativa deliciosa se ergue diante dos olhos e ouvidos do espectador.

Devagar, percebe-se que Bezerra é a viga mestra da construção, mas está longe de ser o prédio inteiro ou o dono da empreiteira. Logo ele perderá a condição de figura mais importante no edifício que se ergue. O filme sobre Bezerra da Silva não é, na verdade, um filme sobre Bezerra da Silva. Ele aparece ocasionalmente, como maestro, cimentando os diversos temas que vão compondo um todo fluente ¿ a malandragem, os embates entre a polícia e a marginalidade,  o conflito tácito com a "elite selvagem marginal" (termos do ferino samba "Desabafo do Juarez da Boca do Mato") que não aprova sua música, a crônica social (como na divertida passagem sobre "Minha Sogra Parece Sapatão"), a relação com as drogas e o álcool, o candomblé.

Quem conta as histórias é menos Bezerra que os compositores que ao longo de três décadas lhe forneceram material musical popular, quase sempre de primeira qualidade. São eles, os tijolos, os verdadeiros protagonistas da construção em música e cinema. De modo delicado, o filme descortina uma realidade desconhecida cá do "asfalto": quando não estão compondo, os autores de partidos altos históricos como "Malandragem Dá um Tempo", "Vítimas da Sociedade", "Povo da Colina", "Se Não Fosse o Samba" e "Malandro É Malandro e Mané É Mané" trabalham como pedreiros, encanadores, pintores, lixeiros, camelôs, mecânicos, carteiros, bombeiros, pais de santo.

Nomes como Popular P, 1000tinho, Tião Miranda, Cláudio Inspiração, Adelzonilton, Pinga, Walmir da Purificação, Dário Augusto, Nilson Reza Forte, Wilsinho Saravá, Nilo Dias, Luiz Grande, Gil de Carvalho e Barbeirinho do Jacarezinho ganham rosto e existência talvez pela primeira vez para a maioria da audiência dos cinemas classe média. Coautor de sambas como "Saudação às Favelas", "Defunto Grampeado", "Candidato Caô Caô" e "Sonho de Operário", o bombeiro Pedro Butina surge mostrando o gancho que utiliza na remoção de corpos submersos ¿ ele trabalha com ARC, Auto Remoção de Cadáver.

Está dado o grande tapa de luva de pelica: aquilo que por aqui já foi chamado de "sambandido" é, muitas vezes, obra de gente como o velho Pedreiro Waldemar do samba antigo de Roberto Martins e Wilson Batista, aquele que "constrói um edifício/ e depois não pode entrar".

Pois a turma de Bezerra empurrou a história à frente. Entrou talvez pelas portas dos fundos das grandes gravadoras, mas vendeu milhões de discos e se comunicou diretamente com milhões e milhões de ouvintes tão marginalizados quanto eles. Uma muralha de silêncio e preconceitos operou e opera para mantê-los em seus devidos lugares (ou seja, às margens da sociedade), mas eis aí, em "Onde a Coruja Dorme", os operários do samba, finos, elegantes e sinceros. Bezerra da Silva foi o mestre-de-obras, e o prédio tá bonito que só ele.

BEZERRA DA SILVA ¿ ONDE A CORUJA DORME (Márcia Derraik e Simplício Neto, Brasil, 2010, 72, DVCAM)
21/03, DOMINGO, 16H00, AUDITÓRIO IBIRAPUERA
24/03, QUARTA-FEIRA, 17H00, GALERIA OLIDO
25/03, QUINTA-FEIRA, 18H00, MIS-SP

AUDITÓRIO IBIRAPUERA - 800 lugares
Endereço: Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº ¿ Portão 2 Parque do Ibirapuera - Telefone: (11) 5908-4299
Preço: R$10,00 (inteira), R$5,00 (meia).
Sessão corrida para os 3 filmes do dia: R$20,00 (inteira) R$10,00 (meia).

GALERIA OLIDO - 236 lugares
Avenida São João, 473 - Telefone: (11) 3331-8399
- Competição Nacional, Mostra Brasil e Panorama Mundial: R$ 1,00 (inteira), R$ 0,50 (meia).
- Performances Musicais: Grátis.

MIS - 175 lugares
Avenida Europa, 158 - Telefone: (11) 2117-4777
- Competição Nacional e Mostra Brasil: R$ 5,00 (inteira) R$ 2,50 (meia).
- Retrospectiva Brasil e Sessões Especiais: Grátis.

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