Filme reata laços entre a sanfona, a melancolia e a cegueira

Documentário 'O Milagre de Santa Luzia' registra o Brasil dos sanfoneiros

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura | 17/02/2011 13:26

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Foto: Divulgação

Dominguinhos em cena de "O Milagre de Santa Luzia"

Lançado agora em DVD, o documentário “O Milagre de Santa Luzia”, de Sergio Roizenblit, faz de Dominguinhos o cicerone de uma viagem pelo Brasil que toca sanfona. Começa pelo Nordeste, onde dá voz a artistas numa gama que vai do cearense Patativa do Assaré (1909-2002), ouvido pouco antes de morrer, ao pernambucano Helder Vasconcelos, do grupo pós-manguebit Mestre Ambrósio.

A narrativa se torna mais surpreendente conforme Dominguinhos e o filme vão descendo o Brasil e mostrando os parentescos sutis entre os forrozeiros nordestinos e artistas como o matogrossense Dino Rocha, o goiano Elias Filho e o paulista Mário Zan. A viagem deságua no Rio Grande do Sul, onde as sanfonas explodem nos fandangos, havaneiras e vanerões de Thelmo de Lima Freitas, Renato Borghetti, Edson Dutra e o lírico e melancólico Gilberto Monteiro, entre vários outros.

“O Milagre de Santa Luzia” explora, mas não esgota a perturbadora e recorrente vinculação entre músicos cegos e a sanfona, exposta no início do filme, com Arlindo dos Oito Baixos, e no final, com os olhos albinos quase fechados de Sivuca (outro que morreu pouco depois de dar depoimento, em 2006).

Como lembra o documentário, 13 de dezembro é o dia de Santa Luzia, protetora dos olhos e da visão e anunciadora do fim da cegueira, assim como é dia do nascimento de Luiz Gonzaga, coautor e intérprete de “Assum Preto” (“tarvez por ignorança ou mardade das pió/ furaram os óio do assum preto/ pra ele assim cantar mió”). Entre detalhes não perseguidos pelo filme estão o fato de Dominguinhos ter batizado de “13 de Dezembro” seu terceiro LP, de 1963, e de, cinco anos mais tarde, a ditadura militar ter decretado num dia 13 de dezembro o implante da cegueira compulsiva no país, via Ato Institucional nº 5.

Dominguinhos atravessa o filme quase como um figurante de luxo, acompanhando a ação de outros tocadores, mas se torna protagonista absoluto e comovente nas cenas finais. Primeiro, o produtor musical Raimundo Campos relata o dia em que Dominguinhos foi gravar “A Triste Partida”, de Patativa do Assaré (registrada na voz de Luiz Gonzaga em 1964, ano da instauração da ditadura). Raimundo conta que Dominguinhos teve de interromper a gravação ao romper num choro copioso de nove minutos cravados, cita a “humilhação” do migrante nordestino que nunca mais pôde voltar à terra natal e afirma que “essa dor fez a grande música nordestina”. Dominguinhos surge a seguir, tocando sanfona e chorando, chorando, chorando.

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