Filha de Itamar Assumpção, Anelis refuta o legado do pai

Em entrevista ao iG, a jovem cantora comenta a influência do cultuado compositor em seu disco de estreia

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Anna Turra/Divulgação
A cantora Anelis Assumpção
A música fala de uma moça que está aborrecida porque seu marido gosta muito de futebol. Parece banal, mas não é. "Ela realmente pensa em se matar", avisa ao iG a paulistana Anelis Assumpção, 31 anos, autora e intérprete da canção "Bola com os Amigos", que integra seu disco solo de estreia, o independente "Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa".

"Chamei meu nego pra passear/ ele foi jogar bola com os amigos/ a gente não se viu/ o dia passou, a noite caiu/ (…) não há razão pro suicídio/ depois da bola/ eu sei que ele vem pra casa ver um vídeo", diz a letra do lento e divertido reggae.

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A não-banalidade da canção reside no fato de que provavelmente ninguém antes fez canção sobre conflito entre os sexos sob esse ângulo, menos ainda sob a perspectiva feminina.

"Curumin joga bola toda terça e sábado" ela diz, brincalhona, referindo-se ao músico, cantor e compositor Curumin, com quem está casada há seis anos, e admitindo um quê de autobiográfico na canção.



Anelis sabe que até recentemente a composição foi uma atividade em larga medida interditada às mulheres. "Talvez eu ainda fique com as músicas que Chico Buarque fazia na primeira pessoa feminina. Ele conseguia transmitir sentimentos de fato femininos melhor que as mulheres. Até pouco tempo, era isso ou canções como as que Maysa cantava, 'Bom-Dia, Tristeza', 'Meu Mundo Caiu'."

Talvez se deva em parte à resistência que ela exibe em se dizer cantora. "Não me considero. Falo isso até com inveja, não com preconceito, mas eu não tenho uma pasta com repertório de cantar no bar. Isso é ser cantora, dominar a arte de cantar. Quando perguntam 'você é cantora?', respondo: 'Eu canto'", tenta explicar.

Reprodução
A capa do disco de Anelis Assumpção
Ela não faz, definitivamente, o gênero cantora-de-MPB-descalça-com-flor-no-cabelo. "Não mesmo, apesar de continuar amando Clara Nunes, que é mãe de todas essas e uma das minhas favoritas até hoje." Se consideraria, portanto, mais compositora do que cantora? "Me considero mais compositora, mas me considero mais não-cantora mesmo", ri.

Anelis demorou para estrear como artista solo. Filha do multimúsico paulista Itamar Assumpção (1949-2003) e ex-integrante da extinta banda Dona Zica, viveu fases de resistir à profissão do pai e de não querer aparecer muito num grupo que tinha outras duas cantoras-compositoras, Iara Rennó e Andreia Dias.

"Meu pai não gostava muito da Dona Zica, queria que eu gravasse um disco com músicas dele. E eu precisava me desligar, saí de casa, fui morar com as meninas", conta. "Eu compunha muito pouco na Dona Zica. Iara é muito genial, eu via as composições dela e da Andreia e dizia: 'Ai, não vou nem mostrar'. Escondia mesmo. E não queria ficar em evidência, meu pai tinha morrido."

Casa para a mãe

Havia também a relação tumultuada do pai com o lado mais glamouroso da carreira musical. Ele e a mulher jamais saíram do bairro periférico da Penha, na zona leste de São Paulo, numa casa até hoje alugada.

“A vida era no limite mesmo. Meu pai nunca teve carro, demorou muito para termos linha telefônica. Comprar uma casa foi a grande luta dele. Agora com a grana da 'Caixa Preta', acho que minha mãe vai conseguir", afirma, referindo-se à edição de luxo com a obra completa de Itamar, lançada pelo selo do Sesc. "O bonito é que, depois de morto, ele vai dar a casa pra ela, como sempre quis."

Anelis avalia hoje que conviver com as dificuldades de sobrevivência em casa foi fator relevante para mantê-la reticente quanto a ser artista. "Tinha essa relação de sofrimento, parecia que para ser artista o manual é comer o pão que o diabo amassou, insônia, depressão, droga. Me perguntava: é preciso usar droga? Ser triste o tempo inteiro?". Ficou no meio do caminho por quase uma década, resistindo à música, mas trabalhando na TV Cultura.

Anna Turra/Divulgação
Anelis Assumpção
O legado do pai

Rubi, filha dela com o músico pernambucano Maurício Alves, nasceu poucos meses antes da morte de Itamar. Vencidas as resistências, Anelis abre o disco de estreia sampleando a voz do pai e cantando uma música dele. "Bem que meu pai me avisou/ homem não sabe mulher/ folou o que falou seu pai, meu avô,/ mulher é o que Deus quiser", dribla a letra de "Mulher Segundo Meu Pai", da lavra de um compositor que sempre criou cercado por muitas mulheres. Ao final do álbum, quem fecha o ciclo é Rubi, cantando versinhos inventados por ela mesma em "Paixão Cantada (O Urso da Cara Brilhante)".

"Não sou a continuação de um legado, para começar sou mulher. Mas também não preciso negar o meu pai", Anelis resume as idas e vindas por ser filha de quem é. Mais distante que nunca de negar hereditariedades, ela já prepara a próxima obra: está grávida de Curumim. "Vai saber o que vem esse bebê", diverte-se, citando que é filha de negro com branca e que o marido é mestiço de japonês.

E como ela, mestiça também, se identifica em termos de cor de pele? "Nunca senti preconceito de cor comigo, mas por ser mãe, jovem e solteira, o quê, maluco? Já ouvi cada coisa, de gente esclarecida, 'menina, você acabou com a sua vida'. E agora, de novo, 'você é louca, vai ter outro filho, e ainda de outro pai!'", relata. Não é à toa que Anelis é filha do provável único homem brasileiro, quiçá terrestre, a lidarar uma banda formada por sete mulheres, as Orquídeas do Brasil.

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