Festival Se Rasgum celebra diversidade da música brasileira

Evento paraense chega à sexta edição com nomes como Lobão, Leoni, Gang do Eletro, Laurentino e Vieira

Sabrina Duran, especial para o iG Cultura |

Sabrina Duran
Laurentino e Os Cascudos, no festival Se Rasgum
Realizada nos dias 18, 19 e 20 de novembro, a sexta edição do festival Se Rasgum, montada no Hangar, um centro de convenções de Belém (Pará), teve em seu primeiro dia a estreia dos gaúchos Bidê ou Balde na cidade – apesar dos 13 anos de carreira e três discos.

Com o EP “Adeus, Segunda-feira Triste”, lançado neste ano, o Bidê e seu sarcasmo romântico pop meio breaco estavam no repertório de letras que os paraenses sabiam de cor. No hit “Mesmo que Mude”, de 2004, o refrão “é sempre amor, mesmo que mude” vinha em gauchês azeitado com o tucupi belenense no sotaque.

Mais que o Bidê ou Balde, só o Leoni com seu “garotos não resistem...”, “tira essa bermuda...” e outros mantras oitentistas pra fazer o público cantar sem errar, literalmente de olhos fechados, no escurinho da pista, namorada a tira-colo e beijos em público. Melaço açucarado.

Havia uma transfusão de culturas entre o público e as bandas que se revezavam no palco. Quanto aos ritmos, era aquilo da diversidade como princípio: dos tambores sintetizados do Projeto Charmoso, do Pará, ao groove carnavalesco da banda pernambucana Eddie, que por volta das 3h começava a noite-dia com faixas do excelente “Carnaval no Inferno”, de 2008.

Lobão na segunda noite

Faltando menos de um mês para o plebiscito que pode dividir o Pará em outros dois Estados, a banda mineira Babilak Blah subiu ao palco principal do Se Rasgum no segundo dia de festival e, para uma plateia atenta, pregava que “ou a gente se Raoni ou a gente se extingue”, da música “Vou me Raoni”.

Abaixo do palco, o segurança paraense, rosto quadrado, pele escura, cabelo negro, cantava o refrão com a boca semi-cerrada – não podia, mas queria. Dentro da sua armadura de brim preto, gravata apertada e shape de armário, ele chacoalhava o corpo sem ser percebido à distância. Na pista, os paraenses não divididos cantavam em uníssono o refrão no breque da banda.

Lobão, o mais esperado da noite, com o som em um volume mais alto do que a média dos demais shows, fez trepidar o público que estava na frente da pista. Começando a madrugada com sucessos recentes, Lobão segurou o público por cerca de duas horas, tocando músicas novas e hits antigos. Molecada nascida no começo da década de 1990 se apresentava em peso na pista, cantando tudo, gritando horrores e respondendo à fúria dos solos do músico. Memorável.

T ecnologia pop

A terra da pirotecnia das aparelhagens, dos samplers, sintetizadores e das versões brega-regional de hits estrangeiros não poderia deixar de ter demonstrações à altura do amor à tecnologia pop à la Pará. Gaby Amarantos fez uma participação especial no show da Gang do Eletro – que fez o público dançar muito.

E ainda tinha ainda muita mistura para acontecer. No show dos mineiros Fusile, o sax de Henrique Staino e o trompete de Ygor Rajão ressoavam na espinha – Henrique pulava de um lado para o outro no pequeno palco. Na sequência, o regionalíssimo Arraial do Pavulagem levou folclore paraense para o palco principal. Na pista, um dançarino guiava os passos do público que, depois de pular com Fusile, alternava coreografias sincronizadas ao som dos tambores do Pavulagem.

No último dia, Mestre Laurentino, paraense e senhor do carimbó, apresentou-se lindamente ao lado da banda Os Cascudos. As guitarras e bateria enfurecidas dos meninos pareciam não incomodar os ouvidos de quase 90 anos do mestre. Seus aneis, pandeiro e camisa dourado-brilhante testemunharam a empolgação de um público que não chegou ainda a um terço da sua idade e que o admira cada vez mais.

Na sequência, outro mestre, dessa vez o Vieira, rei absoluto das guitarradas no Pará. Silencioso e calmo, Vieira subiu ao palco abraçado à sua guitarra, palheta na ponta dos dedos, acompanhado por músicos que fizeram parte das primeiras formações de “Vieira e Seu Conjunto”, nas décadas de 1970 e 1980.

Na pista, casais dançavam a lambada de Vieira. Na frente do palco, os fãs mais atentos, como Gaby Amarantos, admiravam de perto os movimentos das mãos do mestre e o fotografavam. Cinegrafistas se alternavam em todos os cantos do palco registrando tudo o que Vieira e seus músicos faziam. O registro integrará o documentário “Mestre Vieira – 50 anos de guitarrada”, que está sendo dirigido pela jornalista e produtora Luciana Medeiros.

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