Festival anima hospital psiquiátrico com música pop

Durante três dias, Rock na Tamarineira recebeu bandas roqueiras em instituição do Recife

Hugo Montarroyos, especial para o iG |

Erivaldo Braz, 37, tinha um futuro promissor no mundo do futebol. Ainda criança, jogou por vários times do interior de Pernambuco. Aos dez anos, chegou a jogar na categoria mirim do Sport Club do Recife. De família humilde, precisou trabalhar desde cedo numa usina de cana de açúcar, cuidando do corte da cana. Aos 14, durante o expediente, sofreu um acidente que lhe amputou parte do pé esquerdo. Não suportou o fato de ver sua carreira no esporte encerrada de forma trágica e precoce, e perdeu o eixo.

Ele passou por vários hospitais psiquiátricos. E, entre idas e vindas, ficou internado por dez anos na Tamarineira. Acompanhou todas as edições do Rock na Tamarineira, festival de música que acontece nas dependências do local.

Hoje, recuperado, trabalha numa barraca vendendo bebidas em um dos maiores parques municipais da cidade. E só vai ao Hospital da Tamarineira uma vez por ano, para trabalhar nos três dias de evento vendendo água e refrigerante. Fã de Chiclete com Banana, Erivaldo, vida reconstruída, casado, tendo na enteada sua principal ajudante no trabalho, sabe da importância que o festival teve em sua recuperação: "Deus e o rock salvaram minha vida". E, sim, ele ainda bate um bolão em peladas ocasionais.

Não é só entre o público que vemos casos de superação no surpreendente e emocionante evento organizado pela banda independente The Playboys. A banda paulistana Keps, de Guarulhos, é formada por três jovens amigos que decidiram se tratar em conjunto no CAPS - Centro Social Psicossocial - para se livrar do vício em cocaína. Em seu show, fizeram questão de dizer que são reabilitados e que sabem como os internos ali se sentem.

Luisa Lobo
A banda The Playboys no festival Rock na Tamarineira
Neste ano, nos três dias em que o festival foi realizado - 15, 16 e 17 de dezembro -, a cena foi quase a mesma. Um palco enorme, montado nos finais das dependências do hospital, com estrutura de som perfeita, esperava pelos internos, enquanto os visitantes chegavam e conferiam o cenário enfeitado por quadros pintados pelos pacientes. A partir das 9 da manhã, eles iam chegando, acompanhados dos enfermeiros. Jovens, senhores, olhares meigos, sorrisos no rosto, caíam na dança ao som do DJ convidado do dia. Só essa cena já era digna de emocionar quem estava por perto. Educados e atenciosos, os internos ofereciam frutas aos visitantes, cumprimentavam todos, a felicidade estampada em seus rostos.

No festival, são eles que mandam. Estão liberados para subir no palco e dançar. No intervalo das músicas, quase sempre, um deles pega o microfone e começa a cantar. De "Ciranda Cirandinha" a Zeca Pagodinho e Sandy & Junior. As bandas não apenas permitem essas intervenções, como tentam acompanhar os internos em cada canja inusitada. E eram justamente esses os momentos mais bonitos e emocionantes do festival.

Entre os shows, destaques para os dos idealizadores do The Playboys, que possuem uma sintonia fantástica com os pacientes. Colocaram todos para dançar o bom e velho punk-rock tocado por brinquedos. O hardcore do grupo Matalanamão foi outra atração extremamente bem recebida pelo público. Mas o mais emocionante estava reservado para o último dia, com os internos entrando no pátio frevando atrás da Orquestra de Frevo 100% Mulher, misturando-se aos visitantes e crianças em coreografias comoventes.

E uma multidão abarrotou o local para conferir a apresentação da lenda do rock nordestino Ave Sangria, de grande sucesso local nos anos 1970. Curiosamente, a banda se chamava Tamarineira Village nos primórdios da carreira. Seu vocalista, o jornalista Marco Polo, foi logo dando as cartas: "É muito bom voltar às nossas origens". O show, de quase uma hora, foi cantado em uníssono pelo público, constiuído por gerações variadas, da primeira até a última música.

Exemplo de sensibilidade, consciência social e amor ao próximo, ainda que esse próximo pareça muito distante de nós, o Rock na Tamarineira é um festival único, em que artistas e público dão a impressão de jamais terem se divertido e se emocionado tanto na vida.

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