Fábio Jr.: as aventuras musicais do pai do Fiuk

Em reveladora entrevista ao iG, o cantor fala da relação com os filhos e de seu começo de carreira, como criança-artista

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
O cantor e compositor Fábio Jr.
Além de habitar as colunas de celebridades por conta de sucessivos casamentos e do sucesso dos filhos Cléo Pires e Fiuk, Fábio Jr. é um músico. Afastado das telenovelas desde 1998, ele tem se dedicado de modo exclusivo e ininterrupto à carreira de cantor e compositor de música popular brasileira (mas não exatamente de MPB), com dedicação, convicção e paixão comparáveis às que a mídia de variedades dedica à sua vida pessoal.

Acaba de lançar o 27º álbum numa carreira discográfica autoral de 36 anos, inspirada em grande medida na obra de Roberto Carlos, do qual se considera (e é) legítimo discípulo. No CD “Íntimo”, dedica-se a amplificar seu repertório romântico habitual, com releituras (ainda românticas e, como de hábito, puxadas à soul music) de sucessos pop lançados originalmente por Jota Quest (“Dias Melhores”), Wilson Simonal (“Carango”), Marina Lima (“Fullgás”), Hyldon (“As Dores do Mundo”), Lenine (“Paciência”) e Djavan (“Esquinas”), entre outros. O filho Fiuk, atual ídolo teen, canta em “Carango” e na releitura de um dos maiores sucessos pop do próprio Fábio, “20 e Poucos Anos” (1979). Em “Fullgás”, apresenta a voz de outra filha, Tainá, de 25 anos.

Em entrevista ao iG , fala sobre episódios hoje pouco lembrados de sua história, como o início como cantor mirim, ainda nos anos 1960, em programas de jovem guarda e nos conjuntos musicais Os Namorados e Grupo Arco-Íris, formados com os irmãos Heraldo e Danilo e produzidos por Arnaldo Saccomani, até hoje envolvido na revelação de cantores adolescentes, em programas como “Ídolos”.

Fábio lembra o início dos anos 1970, quando a indústria fonográfica escondia seu rosto, batizava-o com codinomes como Mark Davis e o fazia compor e cantar em inglês, numa leva de artistas surgidos a partir de Morris Albert e seu hit “Feelings” (1974). Morris, Mark e dezenas de outros cantores eram brasileiros, mas vendiam discos e shows simulando ser ídolos internacionais em visita ao Brasil.

O pai de Fiuk fala com espanto e empolgação das semelhanças físicas e profissionais com o filho, enquanto rememora a relação com seu pai taxista e dono de banca de jornal, que o catapultou para a fama definitiva graças à balada “Pai” (“você foi meu herói, meu bandido”), que comoveu o Brasil ao ser apresentada pelo ator-cantor na série “Ciranda, Cirandinha”, em 1978.

AE
Fábio Jr., durante show
No ano seguinte, a música inspirou Janete Clair a conceber a novela “Pai Herói” (Fábio cantava o tema de abertura, mas o filho-herói da trama era vivido por Tony Ramos). Ao mesmo tempo, o jovem que até pouco tempo antes não tinha rosto público estourava como galã da primeira versão da novela “Cabocla”, ao lado de Glória Pires, então sua namorada na vida real e futura mãe da hoje atriz Cléo.

O artista paulistano, hoje com 57 anos, afirma não se importar com a dualidade entre o Fábio celebridade e o Fábio músico, e faz muxoxo da falta de acompanhamento crítico de sua obra pela imprensa musical. Mas demonstra irritação por ter sido entrevistado no mesmo dia por um jovem repórter que, apesar de representar uma revista mensal, preocupou-se principalmente com temas extramusicais.

Como se falasse de si próprio, emociona-se e deixa os olhos se encherem de lágrimas ao se lembrar do cantor e compositor carioca Guilherme Lamounier, que fez certo sucesso nos anos 70 com uma mistura peculiar de pop, soul, psicodelia, folk e rock rural, ficou esquizofrênico, afastou-se da carreira e se mantém presente na memória musical brasileira por intermédio dele, Fábio, que costuma regravar hits soul-pop do autor como “Seu Melhor Amigo” (1981) e “Enrosca” (1982, reconduzida às paradas em 2000 pela dupla Sandy & Junior). O quase choro revela tudo: seja como músico, ator ou celebridade, Fábio Jr. é amor da cabeça aos pés, como diziam em 1970 os Novos Baianos.

A entrevista foi dividida em duas partes. A segunda parte está aqui .

iG: Quem é mais famoso hoje? Fábio Jr. ou o filho dele?
Fábio Jr.: [Ri.] Com maior orgulho, eu sou o pai do Fiuk, da Cléo Pires, e agora da Tainá. E tem a Kika e o Záion. Cléo tem 28 anos, Tainá tem 25, Kika tem 23, Filipe tem 20 e Záion tem 2.

iG: As suas fãs se misturam com as do seu filho?
Fábio Jr.: É legal, nos shows dá para notar que está vindo outra geração junto, acho que as mães estão trazendo as filhas. Em todo show as meninas chegam no camarim: “Cadê o Fiuk?”. “Ué, está trabalhando também, está viajando, fazendo show.”

iG: Você e seu filho têm trajetórias parecidas, são atores e cantores...
Fábio Jr.: [Interrompe.] Não só as trajetórias, a gente é parecido mesmo. Ele tem coisas que fico olhando e pensando, meu Deus do céu, sou eu com 20 anos, cacete. É engraçado. Tem hora que tenho aflição. Outro dia peguei uma foto minha, achei que era da época de “Cabocla” [novela que Fábio estrelou em 1979], cabelo curtinho, gel, terno. Ele falou: “Papito, sou eu, no desfile do Ricardo Almeida”. Você pega eu em “Cabocla” e Filipe hoje, é igual, os trejeitos dele...

iG: Você explodiu como cantor com uma música sobre seu pai, mas a história dele é muito diferente da sua e da do seu filho.
Fábio Jr.: Sim, mas acho que a alma é muito parecida. Ele era motorista, tinha uma banca de jornal também, no Brooklin [silêncio]. Era meu parceiro, para tudo. A gente se dava muito bem.

iG: Você já tinha uma história longa quando fez a música para ele e estourou.
Fábio Jr.: É, e ele era vivo ainda, graças a Deus. É emocionante, hoje Filipe me tem como uma referência que ele admira, respeita... Ouvir os outros falando do seu filho, “que moleque educado”, “que menino bacana", nossa, não tem coisa melhor no mundo, velho. Não tem coisa melhor no mundo do que ouvir as pessoas falando bem do seu filho. O sentimento e o relacionamento são muito parecidos, mas é uma outra circunstância, porque meu pai não era uma pessoa conhecida. A música ficou uma coisa tão emblemática que as pessoas diziam “que legal que você fez isso para o seu pai”, sem ele ser uma pessoa conhecida. O importante é que mostrei para ele.

Celso Akin/AgNews
Fiuk e Fábio Jr. em show de Réveillon na av. Paulista, em SP
iG: Ele morreu quanto tempo depois?
Fábio Jr.: Morreu em abril de 1982, e a Cléo nasceu em outubro de 1982. Fiz a música em 1978, para o especial “Ciranda, Cirandinha”. Aí Janete Clair, que escrevia novelas para a TV Globo, ouviu e colocou como tema da novela “Pai Herói”, em 1979.

iG: Qual era a profissão dele quando morreu?
Fábio Jr.: Ele era... punk [risos]. A profissão dele era punk. Ponto, e basta. Tem foto minha com ele no palco. Mas ele era muito inquieto, uma alma muito inquieta.

iG: A história da novela do taxista tinha a ver com a história dele?
Fábio Jr.: Na verdade, o título da novela e o nome do personagem eram outros. Não lembro agora, era “Não Sei o Quê, o Taxista”, e Silvio Santos mandou mudar o nome, botou “Antônio Alves, o Taxista”, porque meu pai se chamava Antônio. Quando me chamou para fazer, topei na hora, porra, xaveco melhor que esse não existe. Foi legal, fiquei seis meses morando na Argentina, conheci um monte de gente bacana.

iG: Silvio Santos sabia da história do seu pai?

Fábio Jr.: Sabia, o Brasil inteiro sabia, desde 1978. Essa novela foi em 1996, quase 20 anos depois. Foi uma puta homenagem que o Silvio fez, para mim e para meu pai.

iG: Você foi um cantor infanto-juvenil, não foi?
Fábio Jr.: Comecei com 12 anos, só fui fazer sucesso com 25, 26. Fui calouro do Chacrinha com 14 anos de idade. Depois vieram os grupos com meus irmãos.

iG: Como começou?
Fábio Jr.: Na televisão. Tinha o programa “Jovem Guarda” na TV Record, com Roberto, Erasmo e Wanderléa, e na Band tinha a “Mini Guarda”, que era só molecadinha. Quem apresentava era Ed Carlos, que era sobrinho artístico do Roberto Carlos. Eu comecei ali.

iG: No “Mini Guarda” já era o grupo Os Namorados, com seus irmãos?
Fábio Jr.: Não, era eu sozinho. Mas só apareci mesmo como Fábio Jr. em 1975, na TV Tupi, num programa musical semanal chamado “Aleluia”, com Silvio Britto. Filipe também começou com 12, 13, quando foi morar comigo e já começou a mexer no violão.

iG: Como é ser criança-artista?
Fábio Jr.: Eu sempre soube o que eu queria. Não queria ser engenheiro nem médico nem arquiteto, astronauta. Queria cantar.

iG: Ser ator não estava incluído?
Fábio Jr.: Não, mas com 13 anos já fiz um trabalho como ator. A prioridade sempre foi a música.

iG: As duas carreiras engrenaram juntas, mas no início a de ator sobressaiu, não?
Fábio Jr.: É que fui para o Rio fazer novela, e a novela, porra, é uma mídia super-agressiva. Hoje você é um ilustre desconhecido, amanhã você é conhecido no país inteiro. E isso me ajudou na carreira musical também.

iG: Só ajudou ou atrapalhou também? Não competiam?
Fábio Jr.: Claro que não competiam, eu fazia novela, show, disco, tudo junto. Como Filipe está fazendo [ri], ralação. Está com idade para isso, 20 anos.

Reprodução
Capa do álbum "Fábio Jr", de 1979
iG: Os Namorados e o Grupo Arco-Íris eram de jovem guarda?

Fábio Jr.: Era meio por aí, porque a gente cresceu ouvindo jovem guarda. A gente gravava muita versão do Arnaldo Saccomani, que é meu amigo até hoje, foi meu padrinho de casamento. A gente fazia backing vocal para Ronnie Von no estúdio. Ele e Arnaldo eram muito amigos, sempre foram, e Arnaldo foi meu primeiro produtor.

iG: Como aconteceu a história de cantar em inglês?
Fábio Jr.: Ah, foi engraçado pra caramba, e ao mesmo tempo meio... Era na TV Tupi, tinha os temas de novelas, eu compunha... [O repórter mostra capas de seus discos em vinil, inclusive o primeiro LP, assinado como Mark Davis, em cuja capa um surfista aparece de longe, numa onda gigante.] Ah, puta que pariu! Sou eu aqui surfando!

iG: É verdade?
Fábio Jr.: Claro que não! Acha que sou eu [risos]?, não consigo ficar em pé na prancha nem se ela estiver na areia. [Examina os LPs, para no “Fábio Jr.” de 1979]. Este é o primeiro sucesso, tem “Pai”, “20 e Poucos Anos”, “Quero Colo”. Olha se não é igual o Filipe, olha isso [espantado]!

iG: Você não tem esses discos?
Fábio Jr.: Não, todos não. Nossa senhora, este é o primeiro como Fábio Jr. [pega “Fábio Júnior”, de 1976]... Nossa, arrepia, viu? A semelhança com ele é um troço... Fora as lembranças todas que você está trazendo...

iG: Voltando a seus alter-egos que cantavam em inglês, Mark Davis e Uncle Jack…
Fábio Jr.: Tinha o Pete Dunaway, na verdade Otávio Augusto, que cantava e compunha muito bem. Ele tinha uma banda chamada Uncle Jack, e eu era um dos backing vocals. Foi muito generoso comigo, gravou um compacto simples, de um lado Pete Dunaway - e ele já fazia um puta sucesso -, e do outro lado era eu cantando, como Uncle Jack. Depois virei Mark Davis. De Mark Davis, para ir para a televisão cantando em português, tive que mudar de nome. Sou Fábio Galvão, mas tinha - e tem - um ator chamado Flávio Galvão, e o Caion Gadia, da Rádio Tupi Difusora [e futuro diretor musical do SBT], e o pessoal da gravadora disseram: “Você tem que mudar de nome”. Entrei numa crise existencial, mudar meu nome? Achamos Júnior e ficou.

iG: Pete Dunaway, Mark Davis, Morris Albert e outros eram artistas brasileiros que faziam de conta que eram estrangeiros. Por quê?
Fábio Jr.: Porque as músicas explodiram, pô. Colocavam nas novelas e faziam um puta sucesso.

iG: Isso não era um tipo de picaretagem?
Fábio Jr.: Não, as músicas explodiam mesmo! A gente sentava e fazia, pô. Era com dicionário na mão, “together”?, opa, rima com “forever”. A gente fazia show, saía todo mundo de óculos escuros, dizendo só “hi” para neguinho achar que éramos americanos mesmo.

Reprodução
Capa de disco de Fábio Jr. como Mark Davis
iG: Seu rosto e seu nome não apareciam nos discos, não era frustrante?
Fábio Jr.: Não tinha nada de frustrante, para mim era o máximo. Pô, o rádio todo dia tocando Mark Davis, "Don't Let Me Cry", "I Want to Be Free Again", "My Baby", "Rain and Memories". Tocavam direto no rádio [cantarola uma delas].

iG: Você gosta, se ouvir hoje em dia?
Fábio Jr.: [Examina a contracapa de “Mark Davis”.] Karl Blatty era o Caion Gadia. Paul Denver, Pete Dunaway, tudo nome inventado. Tinha um monte de gente, Chrystian fez um puta sucesso e ficou com o nome [na dupla sertaneja Chrystian & Ralf]. Eu não, queria fazer sucesso como Fábio, não como Mark Davis.

iG: Qual era a sua nessa época? Queria ser um roqueiro, um cantor romântico...?
Fábio Jr.: Minha veia sempre foi romântica mesmo. Meu pai sempre falava: “Nego, canta música romântica que é a sua praia”. Esta capa [apanha o “Fábio Júnior" de 1976] também tinha uma coisa que me incomodava: tem um cara escondido atrás de mim, no escuro. Tem um cara aqui, ó, nunca descobri quem é. É dentro do estúdio.

Leia aqui a segunda parte da entrevista com Fábio Jr.

    Leia tudo sobre: Fábio Jr.músicafiuk

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG