Exuberante, "Rio" reúne improvisos jazzísticos de Keith Jarrett

Álbum gravado no Rio de Janeiro é um convite para os ouvintes mergulharem no desconhecido que a improvisação proporciona

Valor Online |

Já provou caminhar sem direção, sem preocupar-se com os obstáculos do percurso ou o destino final? O pianista americano Keith Jarrett dedicou todos os seus sentidos a uma experiência metaforicamente parecida. Foi quando ele subiu ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 9 de abril deste ano e, de pleno improviso, desaguou um dos mais exuberantes discos do ano: "Rio".

Getty Images
O pianista americano Keith Jarrett
Sentado sozinho ao piano Steinway e diante de casa cheia e devidamente munida de pastilhas, entregues na entrada pela produção para evitar pigarrentos inconvenientes, Jarrett se entregou a duas horas de um transe musical único e imprevisível. O resultado foi um álbum duplo com 15 faixas completamente diferentes, mas ao mesmo tempo inseridas num set-list coeso e rico.

O conjunto do trabalho oferece números experimentais com muito virtuosismo, cadências quebradas e soturnas, temas eruditos e amplos improvisos jazzísticos, privilegiando variações de blues e free jazz. Também há sutis, quase imperceptíveis, incursões a levadas de música brasileira.

Keith Jarrett nasceu em 8 de maio de 1945, em Allentown, Pensilvânia. Começou a aprender piano aos três anos. Aos sete já realizava apresentações como solista. Estudou na respeitada Berklee College of Music, em Boston, nos anos 1960, e em 1965 fez parte dos Jazz Messengers, do baterista Art Blakey. De 1966 a 1969, tocou com o grupo do saxofonista Charles Lloyd.

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Ao lado de Miles Davis, Chick Corea, Airto Moreira, Jack DeJohnette e companhia, formação que criou o revolucionário "Bitches Brew", Jarrett começou construir sua imagem de ícone do jazz. Dos mais de dez discos da série de concertos improvisados por ele, iniciada em 1973 com o lançamento de "Solo Concerts: Bremen/Lausanne", o álbum gravado no municipal do Rio é, sem dúvida, o que mais se aproxima do essencial "The Köl Concert", trabalho de 1975 que vendeu mais de 3 milhões de cópias.

Por força da improvisação nenhuma faixa de "Rio" recebeu nome, apenas números. As três primeiras trazem um som mais tenso e fragmentado, que não prioriza o conjunto melódico. Jarrett explora as notas mais graves e breves, acrescentando seus eternizados sussuros e leves batidas na madeira de seu Steinway.

A partir da quarta faixa, "Rio" fica mais harmônico, as faixas ganham corpo de canções. E o piano de Jarrett parece se multiplicar - a euforia dos aplausos da plateia no intervalo entre cada número evidencia essa percepção. As faixas seguintes soam como sinfonias e nos remetem, invariavelmente, ao "The Köln Concert".

Ao mesmo tempo, o disco indica que a profunda experimentação das sensações vivida pelo artista é um convite para os ouvintes também mergulharem no desconhecido que a improvisação pode proporcionar.

"Rio" - Keith Jarrett
Gravadora: ECM
Quanto: R$ 100, em média

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