Erasmo Carlos faz show consagrador na Virada Cultural

Cantor soube dosar fase madura e sucessos da Jovem Guarda para fazer a alegria de (quase) um milhão de amigos

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

AE
Erasmo Carlos na Virada Cultural 2011
Em 1972, quando lançou o até hoje malconhecido disco “Sonhos e Memórias”, Erasmo Carlos estava sob o impacto negativo de um show coletivo nostálgico a que havia assistido, de heróis então já considerados “decadentes” da primeira era de ouro do rock’n’roll, como Bill Haley, Chuck Berry, Little Richard e outros. Seu show no encerramento da programação do palco do Largo do Arouche, no início da noite de domingo, foi a virada cultural daquele Erasmo que em 1972, aos 31 anos, tiritava os dentes de medo de ficar decadente.

Evientemente, a voz e a vitalidade de Erasmo já não são o que foram um dia – ele não está sozinho, como comprovam, ao longo da Virada Cultural 2011, as apresentações de Paulinho da Viola, Marina Lima, Genival Lacerda, Rita Lee, Ritchie, Toni Tornado e tantos outros. Mesmo assim, o mais importante artista da geração heroica do rock brasileiro ainda em atividade fez um show consagrador em sua simplicidade e eficiência. Secundado pelo melhor time de acompanhantes que reuniu em muitos anos (com destaque para os garotos da banda Filhos de Judith), colocou-se no palco com a serenidade de quem já ultrapassou as duras barreiras do medo da decadência e sabe fazer o público compreender que o que não importa mais... não importa mais.

Erasmo veio com um show de pulsação, em que momentos (raros) de provocação se alternaram com grandes blocos de franca jogada para a torcida. “Los Hermanos não cantam ‘Ana Júlia’ porque não querem, mas fica todo mundo triste”, farpou com sutileza o Gigante Gentil (como o chama a agridoce Rita Lee). Simples e preciso, apresentou “Mesmo Que Seja Eu” (1982) no início, “Negro Gato” e “Gatinha Manhosa” (ambas 1965, de quando era vocalista de Renato & Seus Blue Caps) no meio e “Pega na Mentira” (1981) na despedida.

Intrometeu entre os hits poucas canções da fase madura, tipo “Chuva Ácida” e “Cover” (2009). A vontade de agradar revela-se esperteza na volta do bumerangue, porque a cama macia de temas arraigados no inconsciente coletivo brasileiro ajuda a perceber que as composições novas de Erasmo Carlos são excelentes e desafiam o lugar comum de que compositores históricos não costumam fazer nada de notável depois do auge.

A inteligência de saber onde colocar cada coisa avança até mesmo na manipulação matreira (e discreta) das paixões políticas. “Quero dizer que nunca antes na história deste país vocês viram um compositor tão feliz no palco”, afirma, imediatamente antes de atacar de dupla homenagem à condição feminina, com “Mulher” e “Minha Superstar” (ambas de 1981). Há alguém que é sua “superstar, mulher de brilho farto”, mas o cantor viúvo se autovaloriza na frase do “nunca antes, em que finge que não sabe cantar direito e se afirma ”compositor” – dos mais felizes.

A pegada autoral se confirma nos beijos brandos de amor & ódio remetidos à outra metade de sua polpuda laranja, o sofrido Roberto Carlos. Nos poucos momentos em que canta baladas mais conhecidas na voz do parceiro que na sua própria, Erasmo elege temas que com o tempo Roberto adulterou (“É Preciso Saber Viver”, 1970) ou mesmo baniu de seu repertório (a juvenilmente endiabrada “Quero Que Vá Tudo pro Inferno”, 1965). O público acostumado a amar & odiar Roberto urra de prazer. Enquanto isso, Erasmo vai justapondo com habilidade seus próprios lados B (“Panorama Ecológico”, 1978) e standards mais encapetados, como “Minha Fama de Mau” (1965), “Vem Quente Que Eu Estou Fervendo” (1967).

O momento inesquecível, a ser congelado em sonhos e memórias, se dá no hit de Erasmo com mais cara de Roberto entre todos os clássicos que o escudeiro do “rei” elevou por conta própria ao cancioneiro nacional. É “Sentado à Beira do Caminho” (1969), que faz o Largo do Arouche virar coro de (quase) 1 milhões de amigos a entoar, embevecido, os fracassos que Erasmo soube magistralmente inserir nas paradas de sucessos. “Preciso lembrar que eu existo”, canta todo mundo, em honra do cara que tinha medo de entrar em decadência, entrou, passou da época de penar por isso e hoje sabe que esse papo não tem nada a ver se colocado diante da grandeza de sua obra ontem, hoje e sempre.

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