Em Porto Alegre, Ringo mostra ser convidado ilustre da All-Starr Band

No início de sua primeira turnê pelo Brasil, ex-baterista dos Beatles divide atenções com integrantes de sua banda de apoio

Marco Tomazzoni, enviado a Porto Alegre |

O cenário do primeiro show da turnê brasileira de Ringo Starr, em Porto Alegre, na noite desta quinta-feira (10), lembrava bastante o de outro beatle, Paul McCartney , um ano antes. Gente de todas as idades (jovens, crianças, idosos), todos fanáticos por Beatles, ansiosos e organizados como se fossem de fã-clube. A diferença é que, ao invés da grandiosidade do estádio Beira Rio, Ringo tocou no ginásio Gigantinho, quatro vezes menor e ainda assim não lotado.

Condizente, de certa forma, com a posição do baterista no anedotário mundial: o integrante menos talentoso, o cara mais sortudo do mundo, o bobo de voz anasalada. Besteira, claro, mas o fato é que ele teve a carreira solo mais apagada do quarteto de Liverpool. Uma discografia errática – intensa só nos anos 70 e 00 –, com poucos altos e muitos baixos. E com apelo menor para o público, portanto, mesmo para um beatle.

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Ringo Starr no show em Porto Alegre, no ginásio Gigantinho
Como faz há mais de 20 anos, Ringo desembarcou no Brasil acompanhado da sua All-Starr Band, grupo de apoio mutante, que tem como característica elementar a democracia, digamos, ou a humildade de Ringo, que abre espaço para todos os músicos (são sete) tocarem alguma coisa de sua trajetória. Detalhe importante: isso toma metade do repertório.

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É o preço, parece, para se assistir ao vivo a um beatle, que entrou em cena cantando uma de suas músicas mais emblemáticas, "It Don't Come Easy", de 1971. Uma grande estrela aparecia no fundo do palco, acompanhada por um banner de girassóis e flores gigantes. Todo de preto, usando os característicos óculos escuros, franzino, desengonçado, Ringo, 71 anos, recebeu uma avalanche de urros e palmas. Daqui a pouco, então, quando sentou na bateria, a recepção foi apoteótica. A plateia estava, desde cedo, completamente ganha.

"Honey Don’t", na sequência, já servia como indício de como Ringo havia montado o setlist. Sim, ele cantaria músicas dos Beatles gravadas na sua voz, mas não necessariamente as mais famosas. Nesse grupo ainda estão "Boys", "Act Naturally" e "I Wanna Be Your Man". Fazendo as contas, das 22 músicas do show, Ringo cantou no total 11, seis delas dos Beatles. Poucas provocaram comoção.

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Ringo Starr em Porto Alegre
Da carreira solo, predominou o personagem que o baterista criou para si ao longo dos anos: o militante da paz e amor, que prega mensagens pacifistas e distribui a torto e a direito o sinal dos dedos médio e indicador, justamente o que ele mais fez no Gigantinho. Um hippie anacrônico, que canta "Choose Love" (escolha o amor) e afirma no microfone que adora "dizer eu te amo".

Se fosse só isso, não haveria problema. Mesmo sem um punhado de músicas geniais, Ringo teria repertório suficiente para criar um show solo digno. Mas a dinâmica da All-Starr Band é outra. E da-lhe músicas de qualidade duvidosa cantadas por Edgar Winter, Wally Palmer (The Romantics) e Rick Derringer (The McCoys), entre outros "notáveis" desconhecidos.

No início, o revezamento no microfone até parecia simpático. Mais tarde, perto das duas horas de apresentação, era simplesmente chato. Solos intermináveis de sax só tornavam a tarefa de estar ali mais inglória.

A questão nem é se os músicos são competentes (e eles são) ou se uma canção ou outra eventualmente é conhecida (caso de "Broken Wings" e "Kyrie"). O show vira, ao menos na formação atual, um festival de canções esquecidas, que ninguém fazia questão de escutar. E Ringo, o convidado ilustre de uma banda que ninguém queria ver.

Alheio, Ringo não parecia se importar nem um pouco. Sentado na bateria no centro do palco (ao lado de outro baterista, Gregg Bissonette), tocava despreocupado e alegre. De pé, cantando, distribuía elogios para o público e lia cartazes escritos para ele. Em certo momento, brincou: "Vocês são os melhores, eu sou o maior", trocadilho com uma de suas melhores músicas, "I'm the Greatest", que não estava no setlist – aliás, sempre o mesmo.

Amparado pelos Beatles, Ringo provocou ao menos dois momentos de catarse coletiva: "Yellow Submarine", quando o público levantou balões amarelos e proporcionou um belo espetáculo visual, e em "With A Little Help From My Friends", o melhor momento da noite.

Depois disso, anunciou o fim do show, saiu do palco, voltou, cantou dois versos de "Give Peace a Chance", de John Lennon, e foi embora de novo, deixando o resto da música para sua banda de apoio/banda principal. AS luzes se acenderam e pronto, era o fim de um bis relâmpago.

Depois de Porto Alegre, Ringo Starr vai tocar no sábado (12) e domingo no Credicard Hall, em São Paulo; dia 15 no Citibank Hall, no Rio; dia 16 no Chevrolet Hall, em Belo Horizonte; dia 18 no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília; e dia 20, no Chevrolet Hall de Recife.

Veja abaixo a lista de músicas do primeiro show no Brasil:

"It Don’t Come Easy"
"Honey Don’t"
"Choose Love"
"Hang On Sloopy" (com Rick Derringer)
"Free Ride" (com Edgar Winter)
"Talking in Your Sleep" (com Wally Palmar)
"I Wanna Be Your Man"
"Dream Weaver" (com Gary Wright)
"Kyrie" (com Richard Page)
"The Other Side of Liverpool"
"Yellow Submarine"
"Frankenstein" (com Edgar Winter)
"Back off Boogaloo"
"What I Like About You" (com Wally Palmar)
"Rock & roll, Hoochie Koo" (com Rick Derringer)
"Boys"
"Love Is Alive" (com Garry Wright)
"Broken Wings" (com Richard Page)
"Photograph"
"Act Naturally"
"With A Little Help From My Friends"
"Give Peace a Chance"

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