Em noite pouco inspirada, Marcelo Camelo decepciona no Tim Festival

Marco Tomazzoni |

Acordo Ortográfico

O palco Bossa Mod, na edição paulista do Tim Festival, não teve nada dos dois estilos. Com o cancelamento do show de Paul Weller, o evento ¿ antes conhecido por apontar tendências e novos artistas ¿ escalou para dividir a noite com Marcelo Camelo a cantora Roberta Sá e Arnaldo Antunes, cujos shows passaram (e passam) recentemente pelas capitais brasileiras. Assim, o que se viu nesta quinta-feira no Auditório Ibirapuera não teve nada de surpreendente, a não ser a fraca estreia em São Paulo da turnê solo de Camelo.

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É um pouco chocante para quem esperava ouvir um dos grandes nomes do rock britânico acabar diante de um samba de roda. Mas, apesar da mudança de planos, não há como negar o talento de Roberta Sá. Cheia de si, com uma presença de palco que parece estar na ponta dos pés e da língua desde o berço, bastou para a cantora agrupar os pontos altos de seus dois álbuns ¿ Braseiro (2005) e Que Belo Estranho Dia Para se Ter Alegria (2007) ¿ para fazer um show de altíssimo nível.

Cantando para nem metade da lotação do Auditório, ela abriu a noite com O Pedido. De vestido curto e salto alto, já na segunda música, Alô, Fevereiro, caiu no samba, que dividiu espaço com exemplares da nova MPB, caso de Casa Pré-Fabricada, do próprio Camelo. A plateia acompanhava com aplausos calorosos, mas em seus devidos lugares. Em Girando na Renda, Roberta fez o pedido: Eu sei que vocês estão bonitos sentadinhos, mas se quiserem chegar perto, será um prazer. Então o público que nem era o seu atendeu à mistura de gingado e sorrisos para ir à frente e dançar meio sem jeito até o bis, com No Braseiro. Foi embora com novos fãs no bolso.

O palco enxuto de Roberta deu lugar à multiplicidade de equipamentos da atração maior da noite, Marcelo Camelo. Isso porque o ex-Los Hermanos está fazendo a turnê do disco Sou acompanhado da banda Hurtmold, patrimônio da cena indie paulistana. Foi sozinho que ele entrou em cena, ligou o amplificador e, de cabeça baixa, sem encarar o público, sentou para tocar ao violão a breve Passeando.

Se a primeira música não mostrou muita diferença do álbum, a próxima justificou a escolha dos companheiros de Camelo. O cantor trocou o violão pela guitarra e, com mais sete pessoas no palco, emendou uma versão estendida de Téo e a Gaivota, amparada por uma verdadeira massa sonora de baixo, bateria, percussão, trompete, vibrafone e mais duas guitarras, além de um coro numeroso no refrão. Com a Hurtmold, as singelas canções de Camelo ganharam profundidade e deram até margem para um solo ali, uma jam aqui.

A plateia, apesar de mais numerosa do que no início, ainda estava longe de encher o Auditório e respondia educadamente às músicas, aplaudindo com graça. A recepção, no entanto, em nada lembrava o caráter quase messiânico dos shows do Los Hermanos, repletos de fãs extremistas, com braços para cima e letras gritadas a plenos pulmões. Como nos primeiros shows da nova turnê o quadro foi bastante parecido com seu passado na banda, Camelo deve ter estranhado a mudança, tanto que, em sua primeira intervenção, comentou, dedilhando na guitarra: estou com a sensação de que falta um pouco de desordem.

Mas a desordem não apareceu, nem a histeria. Não que a reação da plateia tenha sido gélida, pelo contrário: os assovios de Doce Solidão se espalharam pelas poltronas e Jantar inspirou uma discreta cantoria do público, assim como Pois É e Morena, ambas do Los Hermanos, muito aplaudidas. Camelo, porém, sentado em um banquinho de metal, pouco sorria e mal falava ao microfone, o que não ajudou a incendiar a apresentação.

Tampouco ajudaram as músicas solo do compositor. O Hurtmold fez sua parte, mas não conseguiu o milagre de transformar as faixas minimalistas e arrastadas de Sou em alguma coisa que soasse o tempo inteiro interessante, caso de Vida Doce e Saudade. Salvo as exceções, a letargia prevaleceu e marcou o show. A caymmiana Despedida até animou um pouco e Camelo soltou a voz, mas era o fim e, sem esperar os aplausos, o cantor saiu de cena, sem voltar para o bis.

A terceira e última atração da noite subiu ao palco perto da meia-noite, diante de pouco mais de 150 pessoas. Arnaldo Antunes pareceu nem se importar com o público diminuto e ofereceu um contraste gritante: enquanto Camelo inspirou bocejos, Arnaldo, sem ficar um segundo parado, garantiu interesse constante, inclusive ao declamar poesia concreta. Misturando músicas recentes e sucessos, ele se atirava pelo palco, brincando com o pedestal do microfone e dançando o seu próprio samba.

Convidado especial, o guitarrista Edgard Scandurra agradou ao tocar com Arnaldo Hotel Fraternité e Debaixo dágua, mas o público paulista vibrou mesmo e cantou junto foi com Socorro, Não Vou Me Adaptar, dos Titãs, e O Silêncio, tocada em versão baião, com sanfona. A bela Luzes, do álbum Paradeiro , abriu o caminho para o bis, que teve Judiaria e Fora de Si, novamente com Scandurra.

Leia o relato de Mauricio Stycer do show de Marcelo Camelo

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