Em conversa franca, Otto expõe dores e fraquezas

Cantor recifense fala sobre álcool e agressividade

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Otto concedeu ao iG uma entrevista franca e um tanto perturbadora. Em quase duas horas de bate-papo, em um bar na Lapa, zona boêmia do Rio, o cantor recifense expõe suas fraquezas, suas dores, seus percalços.

Lançando o quarto CD de sua carreira, Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (ouça a faixa "Crua" no player no final da entrevista), título inspirado no livro A Metamorfose, de Franz Kafka, Otto Maximiliano, 41 anos, fala de tudo abertamente. Inclusive de sua relação intempestiva com a cerveja.

Bebo uma média de doze chopes por dia. Sou alcoólatra, porque a bebida me faz ter agressividade. Quando bebo, fico mais propício a me envolver com briga, discussão, essas coisas... Não chega à agressão física. Mas é um incômodo o que ela faz com a gente, afirma, para em seguida criticar a propaganda de cerveja em eventos esportivos e culturais. Tenho medo da seleção de futebol que junta atleta com cerveja. Futebol tem um público incrível de crianças. O pior exemplo é o Dunga vendendo álcool na TV, diz.

Durante o papo, Otto lista vários outros de seus sonhos intranquilos. Fala o que pensa e chuta longe as fofocas sobre traição, principalmente as de quando esteve casado com a atriz Alessandra Negrini. Para completar, o cantor, fruto de uma boa geração musical do Nordeste, avisa que quer conquistar seu espaço. Sei que tem Gil, Caetano, Chico e vai ter Otto também. Dessas dez cadeirinhas da MPB, uma eu vou querer, uma é minha, afirma.

Dario Zalis

"Minha meta é escrever como Chico (Buarque) e ter aceitação de Roberto Carlos"


iG: Como foi acordar desses sonhos intranquilos?
Otto: Passei por uma fase difícil. Parecia que estavam me requentando, fiquei desacreditado. Me separei da minha gravadora (Trama), da Alessandra... Foi um processo denso para chegar até este disco. Não sabia mais se era marido de atriz, se estavam tirando onda com a minha cara, levei lapada de vários lados. Me chamaram de cantor abaixo da média. Minha mãe morreu em novembro. Ela viu que eu estava sem casa, sem dinheiro, dormindo em hotel, vendi meu carro...

iG: Usando sua inspiração em Kafka para dar nome ao CD, você passou por uma metamorfose?
Otto: Eu sabia que estava evoluindo. Faço show para sobreviver. As únicas coisas que não perdi nesta fase foram a banda e o meu público. Fiz tudo para me manter e chegar aqui, no show que vou lançar no Circo Voador, para conseguir 1500 reais, que é quanto vou ganhar se aquilo lotar. Não aceitei o processo velado de descaracterização. Só quem passa por isso sabe do que estou falando. Era como se não pudesse mais ser eu mesmo. Até que Larry Rohter, do New York Times, fez um perfil sobre mim para o caderno de cultura. O meu disco é o melhor de música brasileira dos últimos tempos. Vai demorar até que outro artista brasileiro tenha o destaque que eu tive no New York Times. Tenho até medo de falar isso, parece arrogante. Mas não posso falar que meu disco é o melhor do Brasil e um dos melhores do mundo?

iG: Tem medo de parecer soberbo?
Otto: Tenho soberba mesmo. Eu sou foda. Perdi mãe, família, dinheiro, escritório... tudo ia para este caminho. Voltei a ser independente numa hora difícil. Tive que enfrentar tudo de novo. Até o lance do casamento com Alessandra. Mas recomecei. Sei que tem Gil, Caetano, Chico e vai ter Otto também. Dessas dez cadeirinhas da MPB, uma eu vou querer, uma é minha. Minha meta é escrever como Chico, cantar como Luis Melodia, arranjar como Gil e ter a aceitação do Roberto Carlos.

Dario Zalis

"Não passo de um ser humano que tem dores normais"

iG: Você compõe melhor quando está sofrendo?
Otto: Sinto mais necessidade de compor quando estou sofrendo, sim. Mas no disco não tem só dor. Este disco reflete muita coisa, porque tem o sabor da minha maturidade e da minha compreensão sobre a vida. Alessandra é que falava: A gente briga, sofre e você já pega um papel e compõe. Mas é isso, é uma terapia.

iG: De que forma ela está presente no CD?
Otto: Tudo é um pouco para ela. Ela não me repreendeu em nenhum momento. Eu sou poeta, não tem que me repreender. Não passo de um ser humano que tem dores normais, como qualquer um. Não devo ser um cara tão difícil. Respeito velho, criança, não bato em ninguém, sou obediente. Não quero ir preso. Eu sou um anjo, sou um cara bom. Só tenho cara de mau. Nunca fiz maldade com os outros, só comigo mesmo.

iG: Que maldade, por exemplo?
Otto: Como não escovar os dentes e hoje ter que fazer um canal, com 41 anos na cara. É uma maldade da porra não cuidar dos dentes ( risos ).

Dario Zalis

"Tudo no Brasil cheira a mijo de cerveja"

iG: Você bebe muito?
Otto: Bebo. A média é de doze chopes por dia. Mas não tenho carro! Aliás, vou até beber um chope agora ( ele pede ao garçom ). E mijo na rua, se não tiver banheiro. É uma hipocrisia o que fizeram no carnaval do Rio. Todo mundo incentivou que fosse para a rua aquele um milhão de pessoas. Tudo bancado pela cerveja, que espalha sua marca para tudo que é canto. E depois vem uma faixa dizendo ô, mijão, não mije aqui. É de uma incoerência absurda. É a maior cara de pau.

iG: A rua não é o local adequado para se fazer isso, concorda?
Otto: Mas alguém incentivou o cara ir para a rua beber. Então quem incentivou que limpe. Tudo no Brasil cheira a mijo de cerveja. Quer ver o perigo? A Brahma com patrocínio na Copa do Mundo. Alguém vai pagar por isso alguma hora.

iG: Como assim?
Otto: Tenho medo da seleção que junta atleta com cerveja. Futebol tem um público incrível de crianças. Posso me f* por falar isso, mas o pior exemplo é o Dunga vendendo álcool na TV. Ele está falando para crianças, cara. Não dá para aguentar uma coisa dessas. Eu sei que depois dessa entrevista, não faço mais show durante a Copa, mas não tem problema ( risos ).

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"Quando bebo, fico mais propício a me envolver com briga"

iG: Mesmo sendo contra a propaganda de cerveja, você disse que bebe muito. É alcoólatra?
Otto: Eu bebo, posso ser chamado sim de alcoólatra. Toda família tem um alcoólatra. E a minha não é diferente. É algo que afeta o mundo todo. Sou alcoólatra, porque a bebida me faz ter uma agressividade, no relacionamento inclusive. Quando bebo, fico mais propício a me envolver com briga, discussão, essas coisas... Não chega à agressão física. Mas é um incômodo o que ela faz com a gente.

iG: Quando começou a beber?
Otto: Ah, não sou crente, não estou numa de Igreja Universal. Não passei no vestibular, porque ia para a universidade beber com as meninas. E veja só. Isso já é de se indignar. Tem bares para tudo quanto é lado. Entramos numa de que tudo que dá dinheiro é o correto. Cerveja dá dinheiro, então pode tudo.

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"Virei músico porque fumava maconha e não queria mais estudar"

iG: O Governo estuda abrandar as leis antidrogas para usuários de maconha. O que acha disso?
Otto: Virei músico porque fumava maconha e não queria mais estudar. Sou a favor da liberação, mas é uma discussão tardia. É importante que vejam a questão do crack. O crack está acabando com Recife, está um horror. A quantidade de crianças de 12 anos viciadas, andando pelos bairros de classe média, só aumenta a cada dia... Há uma onda de conivência com um problema que vem matando uma geração. A sociedade ainda discute a maconha, enquanto que o problema já avançou.

iG: Como é sua relação com as drogas?
Otto: Maconha é verde, é natural. Se tem uma coisa da qual eu não vou ter medo, é o dia que um filho vier me dizer: Papai, eu fumo maconha. Não tem problema, é planta. E olha que eu fumei, cheirei, já fiz de tudo nesta vida, experimentei essas porras todas.

iG: Qual foi a pior experiência com drogas que você já teve?
Otto: A cocaína, com certeza. Prejudica muito. Assim como a heroína, é a pior coisa do mundo. Cheirei uma vez só, para nunca mais. Fui numa favela lá em Recife e usei, e só também. O gosto é pobre, é miserável, tem gosto de plástico. Me deu ânsia de vômito...

iG: Não teme ser repreendido por isso?
Otto: Já fui repreendido. Morando no Rio, tenho muito medo da polícia em relação ao usuário. É uma trama louca na qual estamos todos metidos. Dia desses, estava chegando em casa, no Jardim Botânico, quando um policial me parou porque eu estava com um baseadinho. Eu disse: Me leva pro delegado. Mas ele não queria fazer isso. Ele queria dinheiro. Tanto que pegou da minha mão e foi embora. Sem conseguir conversar direito. Queria muito saber como está este policial que dá bote em mil pessoas numa noite, como ele cria a filha dele, que relação maluca ele tem com sua família.

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"Alessandra (Negrini) trabalhou tanto, que nem pensou nisso (traição)"

iG: Mudando de assunto, muito se falou sobre o fim de seu casamento com Alessandra Negrini. Um dos motivos apontados pelas revistas de fofoca é que ela te traiu. Como foi lidar com isso?
Otto: Me separei no meio da novela ( Paraíso Tropical, de 2007 ). A única traição que houve foi que Alessandra interpretava gêmeas. Quando ela beijou Wagner Moura, todo mundo comentou que ele comeu ela. A mesma coisa quando ela beijou Fabio Assunção. Alessandra trabalhou tanto, se sacrificou tanto em arrumar tempo para a família, que nem teve tempo de pensar nisso. Ela é tão bonita, uma mulher tão honesta, que coloco minha mão no fogo por ela. Se tivesse que ter algum culpado pelo fim de nossa relação, seria eu, por não ter tido cuidado de estar ao lado dela. Me culpo pela minha falta de atenção. Se tem uma pessoa que tenho certeza que tem caráter, é a mãe da minha filha.

iG: Pedro Bial disse à revista Playboy deste mês que o homem fica com mais tesão depois que é traído. Concorda?
Otto: Acho que Bial está chegando naquela fase crítica do homem, lá pelos 60 anos, quando precisa arrumar motivos para ter tesão ( risos ). Talvez eu saiba responder melhor isso quando chegar na idade dele. Numa relação, quando você vive muito tempo casado com alguém, é natural o casal colocar mais uma pessoa, mesmo que fictícia, no meio da relação. O tesão é a fantasia da traição. É natural apimentar, seja com homem ou mulher, a fantasia dos dois na cama. Vendo por este lado, é, até que o Bial tem um pouco de razão ( risos ).

  • Ouça no player abaixo a faixa "Crua", do álbum Certa Manhã Acordei de Sonhos Intraquilos:
Otto - Crua by igmusica

Serviço ¿ Otto faz show de lançamento do CD :
Sexta-feira (6), às 23h
Rua dos Arcos, S/N - Lapa - Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2533-0354
Ingressos: R$ 50,00

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