Elis Regina: uma "garimpeira" da música brasileira

Cantora impulsionou a carreira de compositores como Guilherme Arantes e Renato Teixeira; leia entrevistas ao iG

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Agência O Globo
Elis Regina em abril de 1972
Milton Nascimento, João Bosco, Gilberto Gil, Renato Teixeira, Ivan Lins e muitos outros. Elis Regina praticamente não tem rivais quando o assunto é revelar grandes compositores - na música brasileira, talvez só Nara Leão tenha um currículo tão impressionante. O título de melhor cantora do Brasil  fazia com que muitos autores a procurassem. Mas o mais comum era a própria Elis buscar repertório.

Ouça músicas de Elis Regina

"Ela corria atrás", resume Guilherme Arantes ao iG . Em 1980, ele teve duas canções gravadas pela artista, "Aprendendo a Jogar" e "Só Deus É Quem Sabe".

"Um dia tocou o telefone. Era a Elis. Ela falou: 'Eu sou a Elis Regina e quero uma música'. Na hora fui para o Rio de Janeiro encontrá-la", conta. "Ela me deu uma tarefa: fazer uma canção para estourar nas rádios". O resultado foi "Aprendendo a Jogar".

Renato Teixeira conta uma história parecida. "Eu tinha uma produtora de jingles que ficava em frente ao Teatro Bandeirantes, na época em que ela apresentava o show 'Falso Brilhante' lá", lembra. "Como os músicos da banda dela gravavam os jingles comigo, a gente acabou se conhecendo. Um dia, ela me disse que estava preparando um disco e me pediu algumas composições. Eu deixei uma fita com oito músicas com ela."

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AE
Elis Regina
Uma das músicas era "Romaria", que Elis gravou em 1977 e transformou-se num dos pontos altos de sua carreira. O contato com Elis mudou a vida de Renato.

"Naquela época, eu havia desistido da carreira musical e virei publicitário. Estava compondo para mim mesmo, sem preocupação se ia fazer sucesso ou não", explica. "Depois do sucesso de 'Romaria', eu me tornei um nome conhecido e apareceram convites para gravar meus próprios discos."

No caso de Guilherme Arantes, o impacto também foi grande. Ele já era um cantor conhecido no Brasil por causa de músicas como "Amanhã", mas após passar pela voz de Elis ele mudou de patamar.

"Ela deu um upgrade na minha carreira. E na minha vida", afirma. "De repente, as portas se abriram. Outras cantoras passaram a me procurar. E pessoas que não respeitavam o meu trabalho passaram a respeitar."

Para Guilherme, Elis foi a maior "garimpeira" da música brasileira. Já Renato enaltece o sua "sensibilidade aguçadíssima" para escolher o que cantar. Entre as pessoas que tocaram com ela, os elogios também são a norma. "Ela deixava os músicos criarem. Por isso mesmo, ela também apertava. Exigia conhecimento e criatividade, porque na hora H ela te largava sozinho para se virar", diz Dudu Portes, baterista da cantora nos anos 1970.

O reverso da moeda era a possessividade de Elis. "Ela falava: eu revelei, eu criei, eu inventei", explica Dudu. "Era tão apegada que, quando descobria que estávamos fazendo gravações para outros artistas, ficava com um bico enorme. Teve até caso de entrar em estúdio e rodar a baiana", completa. "Era um amor possessivo, mas muito gostoso. Com a Elis, a coisa era de verdade. Tanto que todo mundo queria tocar com ela."

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