Eduardo Dussek revive formato "piano-e-piada" dos anos 1980

Após um longo período sem gravar, músico retoma carreira com lançamento de DVD; leia entrevista ao iG

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Eduardo Dussek durante show de gravação de DVD~, no Rio de Janeiro
O homem de fraque e cueca samba-canção conta piadas que fazem o público se torcer de rir. Está sentado ao piano e, entre uma blague e outra, canta músicas também divertidas. Poderia ser um show desses que estão na moda, de stand-up comedy (embora o humorista esteja sentado), mas não é.

Trata-se do carioca de Copacabana Eduardo Dussek, que inventou um formato peculiar de piada-piano-canção há mais de 30 anos e está de volta neste 2011, diante de uma plateia lotada do teatro Oi Casa Grande, no Rio.

Dussek (ex-Dusek, modificado por causa de pronúncia e numerologia) grava ali o primeiro DVD de sua carreira, que conterá piadas, mas retomará, entre elas, versões piano-voz para hits pop-rock dos anos 1980, como os satíricos "Nostradamus", "Barrados no Baile", "Rock da Cachorra" e "Doméstica" ou as ternas baladas "Eu Velejava em Você", "Cabelos Negros" e "Aventura".

Numa coisa Dussek é diametralmente oposto aos comediantes stand-up de hoje (um deles, Rafael Cortez, está presente no show, trabalhando pelo "CQC" e aproveitando para entregar um CD em que toca violão clássico para o pessoal da atual gravadora de Dussek, a Deckdisc). Em vez de fazer graça à custa dos dissabores de pobres, gays, negros, mulheres estupradas etc., Dussek elege a si próprio como principal alvo de um humor sarcástico, autocruel.

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Até há uma ou outra piada de português, mas a autodepreciação é a chave do show deste que é tão tio do stand-up quanto foi, nos anos 1970, sobrinho do teatro besteirol. Em entrevista ao iG , ele segue falando mal de si próprio: "Fiz um CD que foi horrível, eu mesmo achei uma merda". Refere-se ao disco "Contrastes" (1991) e ao chá de sumiço que tomou dali em diante, até voltar investindo em outra vertente que acalentou desde o início, das picarescas marchinhas de carnaval.

Entre uma e outra auto-avacalhação, é obrigado a se elogiar, ainda que indiretamente, ao relembrar sua participação constante na cena cultural brasileira, nos adventos do besteirol, da androginia à moda de Secos & Molhados e, mais adiante, da geração pop-rock dos anos 1980.

iG: Você se sente um precursor da febre de stand-up comedy?
Eduardo Dussek:
Não puxo essas brasas pra minha sardinha, porque acho automarketing uma coisa muito chata. Eu simplesmente faço. Quanto mais existe esvaziamento cultural, mais a comédia preenche. Vira um gênero de primeira necessidade.

iG: O humor é uma das suas origens? Ou apareceu depois?
Eduardo Dussek:
É uma das origens, porque comecei com o teatro besteirol, que é a base do stand-up comedy atual. Eu era pianista e ator ao mesmo tempo. Acabei me unindo com o besteirol e percebi que as músicas que fazia tinham o mesmo estofo, o mesmo recheio que tinham Vicente Pereira, Miguel Falabella, Mauro Rasi, que curiosamente trabalhavam muito em São Paulo nos anos 1970. Fui assumir isso em 1977, quando comecei a ver os textos de Luiz Carlos Góes e disse: "O que você escreve parece com o que eu escrevo, vamos fazer música juntos?". Ele dizia que não era compositor, mas tinha pai músico, adorava música, era fã de Rita Lee e Raul Seixas como eu.

Ouça a música "Barrados no Baile"

iG: Marília Pêra fazia parte dessa turma?
Eduardo Dussek:
Sim, começou na peça "Ladies na Madrugada" (1974), que tinha Patrício Bisso, uma turma bem underground de São Paulo. Foi quando conheci eles todos, era produzido pelo Ney Matogrosso, que tinha acabado de estourar com os Secos & Molhados. Depois Marília encomendou "Síndica, Qual É a Tua?", que era do Luiz Carlos Góes e foi um sucesso do teatro besteirol. Ela foi a primeira estrela que acreditou. Em São Paulo começaram a acontecer também grupos musicais como Premeditando o Breque, Joelho de Porco...

iG: Por que aconteceu tudo aquilo ao mesmo tempo?
Eduardo Dussek:
Por causa do esvaziamento cultural e, nesse caso, da pressão do governo militar. Os compositores de elite, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gonzaguinha, todos estavam impedidos de falar, tudo o que faziam era censurado. Tinha um sofrimento excessivo, tipo MPB 4. A gente estava a fim de se divertir, não tinha jeito mesmo.

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Eduardo Dussek e Ney Matogrosso
iG: Qual foi a primeira vez que alguém gravou uma música sua?
Eduardo Dussek:
Foi a Marília Pêra, "Alô, Alô, Brasil".

iG: Era no espetáculo "Feiticeira", onde começou também o grupo Vímana. Então ali estavam Lulu Santos, Lobão, Ritchie e Eduardo Dusek?
Eduardo Dussek:
Eles tocavam na "Feiticeira". Era 1975, fizemos a música para ela. Na verdade, tínhamos feito anos antes. Um dia fomos ao cinema e a Marília Pêra estava na fila. Começamos a mexer com ela, porque era fã, começamos a fazer palhaçada em volta, como se fosse escada para ela brilhar. Ela adorou, morreu de ri, e a gente saiu do cinema e compôs "Alô, Alô, Brasil". Aí corta para três anos depois, [o produtor musical] Nelson Motta, marido de Marília, que já me conhecia, me perguntou: "Você não tem música para a Marília?". "Olha, tenho uma que a gente fez baseado nela." Ela lembrou da cena e gravou.

iG: E já ia na linha da marchinha, de Carmen Miranda.
Eduardo Dussek:
Eu sempre fiz marchinha de Carnaval. A primeira foi aos 8 anos. Teatro não tinha rock, nem gostava. Eu fazia marchinha para ganhar dinheiro - e para debochar das pessoas.

iG: Depois Rita Lee foi nessa onda, com "Lança Perfume" (1980), "Banho de Espuma" (1982)...
Eduardo Dussek:
Marchinha tem muito a ver com rock'n'roll. Não é óbvio, mas o rock usa duas vertentes básicas que a marchinha também usa: ou é a irreverência política e social ou é a irreverência romântica. Marchinha ou é irreverente ou é para você cantar uma pessoa - e rock também. E tanto no rock como na marchinha, você tem de resolver o assunto na primeira estrofe. Não dá para desenvolver muito. Depois é que Renato Russo fez aqueles rocks quilométricos, mas rock'n'roll basicamente resolve a letra em duas estrofes, três no máximo. E tem de ser popular, a pessoa tem que ouvir e sair cantando.

Ouça a música "Doméstica"

iG: Tem algo no seu passado que explique o interesse pelas marchinhas?
Eduardo Dussek:
Sou húngaro e tcheco. Tenho a família Gabor, da [atriz] Zsa Zsa Gabor. A mãe dela é prima em segundo ou terceiro grau da minha avó. Tinha uns príncipes meio fajutos na Hungria, que tinham comprado os títulos ali em 1700 e poucos. Minha família tinha árvore genealógica, tudo comprado. E a família paterna é tcheca, mais dura. Fui criado em Copacabana, renegando já esse europeísmo.

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Eduardo Dussek e Preta Gil
iG: Depois você vai participar da criação do pop-rock brasileiro dos anos 1980, que renegava o samba, a bossa, a MPB.
Eduardo Dussek:
Mas é engraçado que eu não reneguei, porque já sabia que rock tinha a ver com marchinha de Carnaval. Originalmente, Leo Jaime e João Penca & Seus Miquinhos Amestrados queriam abrir meu show, mas eu falei: "Se vocês quiserem trabalhar comigo vamos trabalhar juntos. Estou interessado em rock'n'roll, com o saco cheio de música popular brasieira. Quero fazer rock". Já gostava de Elis Regina e Gal Costa, mas gostava das referências da música popular antigona mesmo, Aracy de Almeida, Carmen Miranda. Só não suporto muita reverência. Para mim é tudo igual, gente como a gente que fazia música numa certa época. Nunca endeusei ninguém.

iG: Qual foi a sua primeira gravação cantando?
Eduardo Dussek:
Foi uma que não deu certo, em 1977. Quem produziu foi o Nelson Motta. Era uma música irreverente que eu tinha, chamada "Não Tem Perigo", um deboche em cima da classe média. No outro lado era "Apelo da Raça", mais romântica e batida. Nunca mais gravei essas músicas.
Nelson Motta me levou para trabalhar com Marília Pêra e com as Frenéticas. Um anos depois, 1978, as Frenéticas estouraram. Fazia meus shows paralelamente. Foi aí que Gilberto Gil me apadrinhou e eu lancei quatro shows antes de ficar famoso.

iG: O que significa exatamente Gil apadrinhar você?
Eduardo Dussek: Tinha um projeto alternativo, da meia-noite, do Teatro Opinião, que apresentava compositores novos. Você tinha que arranjar um padrinho famoso, senão não conseguia se apresentar. Lembrei que Gil tinha ido na minha casa, consegui um contato. "Você toparia me apresentar?". "Topo, quando é que é?". Ele cantava três ou quatro músicas, contava uma história de como tinha me conhecido, eu entrava e fazia um show, e esse teatro lotou.
Depois montei um chamado "Folia no Matagal", era o nome da música que o Ney Matogrosso gravou depois. Esse show bombou no Rio e em São Paulo, e o pessoal do festival da Globo viu e me ligou. Era a maior mamata, eles pinçavam pessoas do underground para se inscreverem: "Se inscreve que a gente vai classificar muita gente, o festival tem de ter qualidade". Mandei quatro ou cinco músicas, eles é que selecionaram "Nostradamus".

iG: "Nostradamus" era você testando o besteirol na música, não?
Eduardo Dussek: Total. Era uma música que não tinha nada a ver, eu tinha feito para a Maria Bethânia, ela quase gravou. Falava em cadáver, umas coisas meio punk radicais, passionais.

iG: Foi aí, no festival "MPB 80", que o Brasil tomou conhecimento de você, vestido de fraque e cueca.
Eduardo Dussek: Sim, fraque e cueca para mim é que nem turbante para a Carmen Miranda. Eu achava que ia ser vaiado. Quando cheguei ao festival foi a contragosto - ia me mudar para Paris, tinha vendido tudo, apartamento, até meu piano. "A gente vai fazer sua música com orquestra." Com orquestra? Queria banda de rock, mas quando vi aquela orquestrona maravilhosa, adorei. Falei: "Ah, é? Se é pra ser clássico, vou ser clássico de cueca". Aí botei a casaca, que é o clássico, e a cueca toda cheia de frufru, que era a irreverência. Todas as gravadoras que tinham me esnobado me procuraram, porque foi uma ovação generalizada.

Leia a segunda parte da entrevista com Eduardo Dussek

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