Eduardo Dussek: 'Não faço humor que avacalha os outros'

Leia a segunda parte da entrevista com o músico e compositor carioca

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Leia a primeira parte da entrevista com Eduardo Dussek

Divulgação
O músico Eduardo Dussek em show de gravação de DVD, no Rio de Janeiro
iG: [O disco] "Cantando no Banheiro" saiu em 1982, que é o ano do estouro da Blitz. Havia ali uma confluência entre o rock e o humor?
Eduardo Dussek:
Eu e a Blitz cantávamos nos mesmos espaços. Luiz Fernando Guimarães, com Regina Casé e o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, resolveu montar o Circo Voador com o Perfeito Fortuna. E chamaram vários grupos novos, entre eles eu também. Eu estava começando a fazer rock'n'roll quando me chamaram. Quando eu vi o Evandro Mesquita se apresentando ainda sem a Blitz, só cantando "Você Não Soube Me Amar", falei para ele: "Puxa, tem gente querendo fazer rock, nós estamos fazendo rock, isso vai bombar".

iG: Até hoje se fala no verão da Blitz, mas você também estava por perto ali, com "Barrados no Baile", "Rock da Cachorra"…
Eduardo Dussek:
Estava, mas inquestionavelmente foi o verão da Blitz. O meu era um estouro comercial também, mas não naquele nível. Não era popularesco, era cult ao mesmo tempo, embora fosse a mesma geração, a mesma galera.

iG: Como você se vê em relação ao pop-rock dos anos 1980? Um irmão mais velho, um tio?
Eduardo Dussek:
Todos ficaram meus amigos. Nunca quis assumir negócio de paternidade, então nunca me chamaram de tio. Sempre saio pela culatra. Isso envelhece, cristaliza, é muito chato. A gente na verdade debochava um pouco dos outros grupos, como Kid Abelha. Depois ficamos amigos, mas a gente debochava, achava enfraquecido. Éramos interessados em fazer revolução, e eles vinham interessados em ganhar dinheiro. Depois é que amadureceram e viraram revolucionários. Três para quem a gente não torceu o nariz foram Renato Russo, RPM e Cazuza. Respeitávamos Lulu Santos e Lobão porque eram anteriores à gente. Marina também, quando eu estava estourando já respeitava muito a Marina.

Ouça a música "Aventura"

iG: Hoje como você avalia? Você fez parte daquela geração?
Eduardo Dussek:
Sim, mas eu não fiquei lá. Fiz questão de não deitar naquela cama. Não faço isso. "Ah, mas os anos 1980 eram maravilhosos", dizem. Os anos 1980 eram uma ressaca. Era todo mundo drogado, enlouquecido...

iG: Você também?
Eduardo Dussek:
Também. Era uma festa drogada. Era normal, todo mundo drogado. Foi a última oportunidade de fazer esse tipo de festa.

iG: "Enfant Terrible", que você canta com Leo Jaime, era uma canção gay?
Eduardo Dussek:
Era, mas era um deboche sobre o gay, sobre o gay cult. Ele vai de maiô para cantar o professor. Os Miquinhos faziam muito essas brincadeiras. Eram totalmente machistas, mas eram machistas light. Adoravam os gays, tinham muitos fãs gays, faziam trenzinho no palco, cantavam "Telma, Eu Não Sou Gay" com o Ney. Eram tão machões que não tinham preconceito contra nada.

Divulgação
O músico Eduardo Dussek
iG: A piada "como todo mundo, é falta de educação perguntar o sexo da pessoa" é real? Você não se define como gay, hétero, bi?
Eduardo Dussek:
Não, nada. Pelo contrário, me dou o direito de fazer o que quiser. Sempre me dei o direito de frequentar tudo, da mesma forma que socialmente. Ao mesmo tempo que apoiei o Lula nos anos 1970, frequentava coisas de extrema direita, alta sociedade. Ia ao Hipopotamus, mas ia ao show do Lula quando Lula era ainda candidato a ser presidente de sindicato. Apoiava ele, fazia show para ele em 1977. Sou a favor de todo mundo, o que quiser fazer eu vou fazer, nunca dei satisfação da minha vida a ninguém. Com o brega foi a mesma coisa.

iG: O novo show mostra que sua música tem apelo pop até hoje. Por que você ficou tanto tempo sumido?
Eduardo Dussek:
A minha técnica sempre foi essa. Por exemplo, se estou namorando alguém e começo a sentir que o relacionamento está esvaziando, eu sou o primeiro a terminar, mesmo que seja apaixonado pela pessoa. O ser humano tem uma tendência a se esvaziar e entediar muito rápido. Se há uma coisa que eu não tenho é tédio. O que aconteceu foi que começaram a achar que eu estava ficando meio cinza. Quando houve o sucesso comercial do disco "Dusek na Sua" [de 1986], com "Aventura", começaram a dizer que eu estava ficando pasteurizado. Aí fiz um CD que foi horrível, "Contatos" [1991], que eu mesmo achei uma merda.

Ouça a música "Nostradamus"

iG: Acha até hoje?
Eduardo Dussek:
Acho até hoje, um horror. Falei: você errou do princípio ao fim. Artista também se equivoca. Eu estava sem inspiração. A inspiração também depende da vida que você está levando. Você tem de ter uma vida intensa para poder fazer uma arte intensa. Mas é impossível ser assim o tempo inteiro.

iG: Isso abortou sua história com o pop-rock?
Eduardo Dussek:
Abortou com tudo. Falei: você não tem o que dizer, você não sabe o que dizer, vá fazer pesquisa, porque você está ruim de criatividade. Nem me lembro como paguei esse prejuízo e como sobrevivi. Acho que comecei a dirigir teatro e fazer uns shows muito muquiranas numas casas meio suspeitas, para manter o orçamento. Foi aí que começaram a acontecer os musicais de marchinhas de Carnaval. E comecei a trabalhar em shows personalizados para empresas, que me deram muito dinheiro.

iG: O formato piano e voz surge daí?
Eduardo Dussek:
Voltou com tudo, mas o show de 1981 já era piano e voz. O novo show é um formato que inventei em 1981, stand-up comedy. Vou lhe dizer a verdade, fechando essa história: foi muito boa essa crise. Tenho isso claramente hoje, a crise nasceu principalmente pelo fato de que eu não sabia quem eu era. Não sabia se eu era um cara que curtia música romântica, um cara irreverente, se eu tinha paúra de ser irreverente, se era clássico. Demorei para assumir, depois desses anos todos trabalhando no exílio é que falei: bicho, você é tudo isso. Claro que tem o lado pessoal também, você fica se achando meio não-compreendido. Mas se não está compreendido, faça-se compreender.

iG: Suas piadas são diferentes das do stand-up comedy: preferem a autodepreciação a zombar dos outros.
Eduardo Dussek:
Esse tipo de humor que avacalha os outros eu não faço. Vou depreciar a imagem de alguém com meu humor? Você não tem capacidade de fazer humor sem isso? Se for para fazer, vou fazer com a minha própria imagem. Mas é sempre com a crítica feroz ao ser humano. A grande suplantação do ser humano é rir.

Leia a primeira parte da entrevista com Eduardo Dussek

    Leia tudo sobre: músicaEduardo Dussek

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG