Ed Motta lança álbum mais pop de sua carreira

Cantor fala em entrevista sobre rótulos musicais, perfeccionismo em estúdio e a paixão por vinis

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Piquenique não é apenas o álbum mais pop da carreira de Ed Motta, o cantor e multi-instrumentista que ficou conhecido há 20 anos pelo hit "Manuel". Não à toa, ele é sem dúvida seu trabalho mais visual, influência clara da inusitada parceria entre o músico e sua esposa, a quadrinista Edna Lopes.

Após 18 anos de casamento, a dupla descobriu o quão divertida poderia ser a composição a quatro mãos. Tudo começou como uma experiência e acabou com um álbum completo. "Ficamos na fissura de fazer outras, como se fosse um jogo", entrega o cantor.

O casal compôs quase todas as canções do disco, com exceção de "Nefertiti", faixa que marca a terceira colaboração entre Ed e a cantora Rita Lee - de acordo com ele, uma grande influência da maneira como o trabalho foi feito.

Em uma descontraída entrevista por telefone, Ed falou sobre rótulos musicais, perfeccionismo em estúdio, paixão por vinis e frases feitas para jornais, como a hilária "paleta de referências".

Piquenique é uma volta ao pop do Ed Motta, relembrando a época do hit "Manuel"?

Tem um pouco a ver, é uma volta... Eu não diria uma volta, acho que é o disco mais pop da minha carreira, tem uma solução mais pop do que meu primeiro disco. Só que agora ele é pop porque tem uma visão de produtor. É igual a fazer cinema, você faz algo dentro de uma idioma que você escolheu.

Como você encara essa necessidade da crítica em rotular o estilo de um álbum?

Não acho isso ruim não. Antes de fazer música eu sou colecionador de disco, leio revista de música, tenho milhares de livros sobre música... Toda essa linguagem da catalogação estilística é absolutamente familiar e sou simpático a ela. Não diria que a minha música não tem rótulo, para mim sou um artista pop, essencialmente um artista de música pop. Acho prático, bem americano (risos).

Alguns artistas têm o conceito de álbum como um trabalho fechado com canções que conversam com um tema maior em comum. Eles costumam dizer que um disco é o retrato de um período de sua vida. Sei que algumas músicas que fazem parte deste trabalho foram compostas na época do Chapter 9 , como "A Turma da Pilantragem". Como é que você lida com essas ideias diferentes chegando num mesmo momento?

Para provar que, no meu caso, um álbum não tem esse viés autobiográfico. Ele é muito mais um retrato da minha relação com a música. Minha relação como ouvinte de música é clara: em um mesmo dia escuto um rock dos anos 70, um jazz, uma trilha, um disco em francês, coisas diferentes. É raro ficar ouvindo uma coisa só. Talvez eu escute mais jazz, provavelmente por ter mais discos de jazz.

Se vier uma letra que não se encaixa naquilo que você está fazendo, você tem essa disciplina de não se deixar levar e manter o ritmo do trabalho atual?

Sim, sim, eu guardo. "A Turma da Pilantragem" estava guardada. Não com letra, só a música. Eu já tinha a música com todos os elementos, com as partes, os arranjos, tocando teclado, fazendo os metais no teclado... a maquete dela completa.

Partindo daí, como foi a transição entre o Chapter 9 , um álbum em inglês com uma posposta distinta, para o Piquenique ? Houve um tempo no que diz respeito a parte criativa entre um trabalho e outro?

Foi até rápido, de um ano para o outro. O Chapter 9 teve uma gestão difícil, tanto no Brasil quanto fora do Brasil, não foi um disco com uma grande aceitação comercial. Procurei fazer uma outra coisa, que eu tivesse ideias.

E por que Piquenique ?

O nome sugere algo ingênuo, ligado à cultura pop no sentido mais estilizado possível, a estilização da alegria...

O encarte do CD mostra isso. As cores, a comida...

Um banquete tem um pouco dessa brincadeira do doce, da coisa que traz aconchego, aquela felicidade.

Algumas letras de Piquenique remetem a narrativa dos quadrinhos, com personagens inclusive, como a garota de "Pé na Jaca", por exemplo. Existe esse tipo de influência?

Não, mas é completamente desse jeito. "Pé na Jaca" é um personagem, "Nicole Versus Cheng" tem aquele clima detetivesco, outras têm uma situação de amor. "A Turma da Pilantragem" é total Blake Edwards, anos 60, meio isso assim... Claro que o trabalho passa por referências cinematográficas e de quadrinhos o tempo inteiro.

Algo meio Burt Bacharach, as coisas vem com outras referências junto. "A Turma da Pilantragem" vem com um colorido, uma paleta de referências junto...

Paleta de referências não dá. Isso ta jornal demais (risos)... Tipo aquelas cenas de televisão: "uma fruta; a esposa; um disco; um terno antigo" e a câmera junto (risos).

Uma das curiosidades desse trabalho são as parcerias. E o público é curioso quando vê dois artistas compondo juntos, gravando juntos. Como é para você esse esquema de parcerias num álbum seu, que leva o seu nome. Você coordena a parceria, delimita para onde ela deve ir ou deixa a coisa rolar?

A parceria com os outros eu não coordeno nada não. A parceria é uma coisa que quando convido alguém para letrar eu não digo uma palavra de nada. Já com a Edna criamos tudo juntos, fizemos juntos.

A parceria mais curiosa é sem dúvida com a sua esposa, a quadrinista Edna Lopes. Como isso influiu na dinâmica de vocês como casal? Vocês tiravam momentos para compor ou a coisa poderia acontecer a qualquer hora?

Não, a gente estabeleceu um período. Fizemos uma primeira e ficamos numa fissura de fazer outras, como se fosse um jogo, se tivéssemos comprado um box set da série "Columbo" ou "Perdidos no Espaço" - tem que assistir todo dia.

As músicas foram feitas durante uns 15, 20 dias, um mês, porque ficamos em cima dessas músicas um tempão.

Em meio às 11 canções compostas por vocês há "Nefertiti", cuja letra é de Rita Lee. Como surgiu essa parceria e de que maneira essa música conversa com as demais?

É a nossa terceira parceria, foi feita por e-mail. A gente nem se fala assim - claro que a gente se fala, mas eu evito incomodá-la. Ela é uma grande influência da maneira como fizemos esse disco. A Rita Lee para gente é igual ao Bob Dylan para o JJ Cale. 

Em "A Turma da Pilantragem" você divide o microfone com a cantora Maria Rita. Como surgiu a ideia de convidá-la? Você já pensou a música para duas vozes?

Não, foi depois que fizemos a letra. Achei que tinha que ser um dueto, para trazer essa influência dos anos 60. Pensei no timbre contralto da Maria Rita, que é único e no calor da voz dela. Foi bem legal.

Ainda comentando as participações de Piquenique , de onde veio a ideia de chamar a cantora Marya Bravo?

Eu a conheço há muito tempo. Ela já tinha participado do meu musical, o "Sete", como atriz e cantora. E adoro esse lance da voz dobrada, feminina e masculina, bem Sérgio Mendes, bem Califórnia num conversível, todo de branco, fumando cachimbo com uma piteira branca e um chapéu panamá...

No momento em que você decide entrar em estúdio, as composições do álbum já estão finalizadas ou há espaço para mudanças de última hora?

Eu só entro no estúdio com tudo pronto. Quando eu levei o disco para a Trama já tinha a maquete toda pronta, tudo no gravadorzinho e no computador. Já chego com tudo pronto, é tirar a maquete de isopor e fazer de cimento.

No meio do disco a gente muda arranjos, timbres, soluções, sinais... As mudanças são mais em cima dos arranjos mesmo. Algo como gravar aquele baixo mal gravado, chamar um bom músico para tocar no caso de eu não dar conta. Eu faço tanta coisa no disco. É trabalhoso. 

Li recentemente uma crítica negativa da música "Mensalidade", falando que era simples. Aí penso no trabalho que dá para você fazer esse disco ficar com esse som gringo, são meses...

Como é o Ed Motta em estúdio? Você passa uma ideia de perfeccionista, é isso mesmo?

Eu sou bem chato no estúdio. Tem sempre um time de pessoas que são as mesmas, que sabem como é. Não trabalho com qualquer pessoa. São muitas manias, é algo muito detalhista... Bota espuma no baixo, faz não sei o que, às vezes coisas que a gente lê. É possível descobrir um pouco de criatividade nesses últimos anos, mas grande parte do que acontece de diferente são coisas que a gente lê que aconteceram nos estúdios nos anos 60 e são pouco usadas.

Talvez a precariedade das mesas de som do passado as fizessem inventar maneiras diferentes de alcançar certa sonoridade.

Sem dúvida as pessoas tinham uma obrigação criativa muito maior, por isso que aquela época foi tão mágica.

Existe uma corrente pregando um possível retorno do vinil. Qual a sua relação com o formato? Você gostaria que Piquenique fosse lançado em vinil?

Para mim é interessante, eu que sou um apaixonado por vinil. E é claro que eu gostaria de ver um disco meu em vinil. Eu comecei minha carreira no vinil. Quando lancei os dois primeiros discos ainda não existia CD no Brasil. Peguei a época da arte final do vinil, o finalzinho disso. Mas essa moda é mais aqui no Brasil. No mundo inteiro o vinil não deixou de existir.

O eBay, que hoje vende de carro a camisa, começou como site de vinil nos anos 90. O businness principal era o vinil. Desde 96 eu compro vinil com eles. Por isso eu digo que esse mundo do audiófilo de vinil nunca morreu.

Desde os primórdios da internet, em 95, existe um site chamado vinyl.com, que vende vinis de reedição. É uma moda mais daqui.

Mas talvez essa moda incentive a reedição de mais material, favorecendo assim o apaixonado por vinis por tabela.

Não minto. Meu lado otimista acha interessante, mas tem um lado ligeiramente esnobe, quando alguém chega e fala "eu só escuto vinil" - e aquilo em vários casos é moda. Ontem foi o funk, agora é o vinil, amanhã vai saber... Esse lado fashion não me agrada, sou um nerd colecionador. Porém, ficou mais fácil para comprar uma agulha...

Quais são os planos de turnê para Piquenique ? O que o público pode esperar desses shows?

Agora é trabalhar, fazer os shows pelo Brasil. Deve ocorrer uma turnê na Argentina, Chile, Uruguai... Talvez uma das músicas ganhe versão em espanhol, ainda estamos vendo isso. Ainda não temos datas, mas a turnê deve começar logo, ao estilo do show novo que eu toquei na virada de ano.

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