É bom que tenha segundo turno, as pessoas vão refletir mais

Na última parte da entrevista, Gal Costa fala sobre ser mãe e a eleição presidencial

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Augusto Gomes
Gal Costa se apresenta no Anhembi, em São Paulo, no início de outubro
Hoje com 65 anos, a baiana Gal Costa só se tornou mãe após os 60, ao adotar o também baiano Gabriel, atualmente com cinco anos. Falando sobre o filho, comenta a adoção, conta que readquiriu o álbum "Gal Canta Caymmi" (1976) por causa dele e se emociona ao explicar como se sente quando canta para fazê-lo dormir. “Engraçado é que quanto mais concentrada eu estou mais rapidamente ele dorme. É muito bom”, diz.

Timidez à parte, Gal se mostra aberta e fala pelos cotovelos durante a cerca de uma hora de entrevista. Antes de encerrar, ainda tece suas considerações sobre Marina Silva e sobre a eleição presidencial de 2010.

iG: O livreto diz que entre as fotos da capa de Legal (1970), criada por Hélio Oiticica, havia a de um preso político da ditadura?
Gal Costa: Era um amigo de Hélio que está por aqui (ela procura a foto na capa, não encontra), eu até esqueci o nome dele. Ele estava preso, não sei nada dele hoje. Quero reouvir essas músicas todas, vou reouvir, do primeiro ao último disco.

iG: Não costuma fazer isso de vez em quando?

Gal Costa: Costumo, mas acredita que não tenho nenhum disco meu em casa? Os meus vinis, logo que chegou o CD, eu dei, você acredita nisso? Tinha meus vinis e dei, burra que eu sou.

iG: O que é isso, um desapego?

Gal Costa: Não é desapego. Achava que, porque chegou uma nova tecnologia, eu não precisava mais daquilo. Eu tinha milhares, não sabia que o vinil ia virar uma preciosidade anos depois.

iG: Não tem suas músicas nem no seu computador, em MP3?
Gal Costa: Não, não tenho. Eu tenho só um CD meu lá em casa, sabe por quê? Porque entrei numa loja com meu filho, onde foi mesmo, Gal? Não lembro, era algum lugar que tinha uma estante de CDs, ele viu e falou: "Olha, mamãe, é você, compra". É o "Gal Canta Caymmi" (de 1976), esse eu tenho lá em casa.

iG: Como é nome do seu filho?

Gal Costa: Gabriel, lindo. Tem cinco anos, uma coisa. Eu canto para ele dormir. Canto muita música do Caymmi, coincidentemente. É um momento muito especial para mim, porque é uma pureza. Nesse momento meu canto sai puro, me lembra os primeiros tempos, o começo, quando eu estudava na minha casa a emissão da voz. Quando ouvi João Gilberto no rádio eu reaprendi a cantar, ia para o banheiro e ficava aprendendo a emitir a voz como João. Me lembra tudo isso, e o canto sai leve, suave, puro, amoroso. É um momento de concentração, muito bonito. É um amor imenso, tenho um amor por ele como se ele tivesse saído de mim. Digo que ele veio numa barriga de aluguel, porque é muito parecido comigo. Fisicamente se parece muito com a família do meu pai. E ele tem um espírito, uma alma parecida com a minha. É doce, inteligente, muito inteligente. Tem uma memória impressionante, parece a de Caetano (ri).

iG: Como foi a adoção?

Gal Costa: Eu sempre quis ter filhos, e não pude ter. Não é que não quis ter, eu tenho as trompas obstruídas, não deu para ter. Minha mãe queria que eu adotasse, me pedia muito, e eu achava que filho tem que ser parido, mas não existe isso. Filho tem que ser amado, mais que parido. Quando você decide abraçar, adotar uma criança, o amor é muito maior.

iG: Qual é o procedimento para adotar um fiho?

Gal Costa: Você vai procurar, tem que participar de encontros, fazer todas as etapas necessárias para ser mãe. Mas ser mãe é um dom. Eu nasci para ser mãe e cantora, as duas coisas.

iG: Você tinha alguma relação especial com "Assum Preto" (do disco "Fa-tal", de 1971)? É uma música do Luiz Gonzaga sobre liberdade...

Gal Costa: Eu já tinha cantado antes, fiz um show aqui em São Paulo onde eu cantava encostada numa parede, num teatro de arena, era muito incrível, só com o contrabaixo. É muito triste essa música. Fatal é um disco muito emblemático, uma declaração de amor, uma homenagem muito a Caetano. Foi na volta deles.

iG: E sobre a capa de "Índia" (1973)? Não dá para imaginar ela circulando no auge da ditadura militar.

Gal Costa: (Ri.) Essa capa foi proibida na época. A Censura proibiu duas coisas nesse disco: a capa, que só permitiu ser vendida nas lojas dentro de um invólucro preto, de plástico, e a música de Luiz Melodia, "Presente Cotidiano", que também foi proibida em princípio, e depois eles liberaram.

iG: O que tinha nela para ser proibida?

Gal Costa: Vai perguntar a eles (ri), eu não sei. Depois foi liberada. Esse disco é bem legal, foi feito depois do show também. Foi assim: Caetano e Gil chegaram de volta do exílio na época quando Fatal estava acabando. Assim que eles chegaram, resolveram que Caetano ia dirigir o show Índia e Gil ia fazer a direção musical. Caetano foi para a Bahia e não voltou, acho que ficou com preguiça de voltar (ri). Aí mandou uma fita cassete com algumas ideias de repertório, até ideias cênicas. A música "Índia" foi uma sugestão dele. E a gente então trabalhou, eu, Gil, a banda toda. A gente fotografou e foi criando a capa, tem foto de show, com a roupa original do Índia – depois eu usei uma outra roupa vermelha, aberta para as pernas aparecerem.

iG: Você tem sangue índio?

Gal Costa: Se eu tenho? Não, não. Não que eu saiba. Tenho sangue português, por parte da minha mãe, e tenho um certo pé na África, por parte de meu pai. Tenho parentes da parte dele que chegam a ser mulatos.

iG: Você falou uma vez numa entrevista que, quando pequena, andava na rua perguntando "você é meu pai?" para as pessoas.

Gal Costa: (Ri.) É porque eu não tive nenhuma relação com meu pai. Minha mãe se separou dele, e eu não tive relação com meu pai. E eu tinha vontade de ter um pai, né? Então às vezes eu aprontava essa, "esse é meu pai?", "ó o meu pai"… Não pensando que podia ser, mas perguntando se ele queria ser: "Eu quero ter um pai, você quer ser meu pai?". (A assessora de imprensa da Universal, Hercilia Castro, começa a pressionar para encerrar a entrevista.)

iG: Escolhe um último disco para comentar?

Gal Costa: Vou falar nisto aqui (pega "Água Viva", de 1978), sabe por quê? (Vasculha as capas todas.) Eu adoro este aqui também (pega "Cantar", de 1974), é lindo.

iG: Então pronto, fala dos dois.

Gal Costa: Quem inventou a capa de "Água Viva" fui eu, porque é uma coisa de sair da água, como se eu estivesse saindo da placenta, como se fosse um nascimento, um renascimento.

iG: Tem ali uma música de Caetano, chamada "Mãe", que é maravilhosa…

Gal Costa: A gente está sempre renascendo, no sentido de se transformar, e eu acho importante, e é uma coisa que acontece comigo graças a Deus. Por isso resolvi escolher essa capa. Mas Cantar também um disco muito especial, muito lindo. Nossa, não sei nem… Essa gravação de "A Rã" (de João Donato e Caetano) eu amo. Acho que nunca mais eu vou conseguir cantar com essa…

iG: "Nunca mais vou conseguir cantar…", como é?

Gal Costa: Não, assim, porque ouço essa gravação, é claro que eu consigo, mas tem uma pureza no canto… angelical. Tem uma pureza angelical que eu não sei se tenho mais. Talvez eu tenha, né? Mas é linda, essa música é linda, e é uma letra nova que Caetano colocou para eu gravar, o que é muito importante, numa canção gravada pelo João Gilberto. Eu adoro essa gravação de "Canção Que Morre no Ar". "Lua, Lua, Lua, Lua", que Caetano compôs, belíssima. "Flor de Maracujá", é tudo bonito aqui. (Hercilia encerra a entrevista, há mais jornalistas na fila.)

iG: Você está animada com a eleição?

Gal Costa: Eu, animada com a eleição? Não votei, porque estava aqui em São Paulo.

iG: Mas agora tem segundo turno.

Gal Costa: É, tem segundo turno. Eu acho bom que tenha. Não vou revelar meu voto, mas acho bom que tenha segundo turno, porque as pessoas refletem sobre tanta coisa que aconteceu durante todo esse período. É para refletir mesmo, é bom. Gosto muito da Marina Silva, acho que ela tem um discurso verdadeiro, passa pureza, espontaneidade. Li a crônica do Arnaldo Jabor no Estadão, ele fala dessa coisa dos dois candidatos, Dilma e Serra, que fizeram campanhas tão diferentes à da Marina, enquanto Marina veio com o oposto do que eles eram naquele momento. Quando ela fala passa uma verdade, uma seriedade, uma consistência. E as pessoas entenderam e absorveram isso. É bacana que ela conseguiu dividir, e as pessoas vão refletir mais, vão pensar mais.

iG: O que o homem que lhe deu um tapa na cara há 40 anos deve pensar de termos duas mulheres concorrendo à presidência em 2010?

Gal Costa: Ele já deve ter morrido (risos), era muito mais velho do que eu. Devia ser um militar qualquer, à paisana, terrivelmente machista, uma coisa horrorosa. O mundo futuro é das mulheres – sem querer ser… machista.

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