Dom Salvador: "Gosto de misturar. E sempre improvisando muito"

Radicado em Nova York há 37 anos, pianista brasileiro toca em São Paulo nesta terça-feira

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Divulgação
O pianista Dom Salvador
Quando decidiu passar uma temporada em Nova York, Dom Salvador não esperava ficar mais de um mês. Era, afinal, uma simples viagem de férias. Mas, trinta e sete anos depois, ele continua morando lá. É mais um dos grandes músicos brasileiros - mestre da mistura de samba e jazz, homem por trás de grandes discos de Elis Regina e Elza Soares, criador de clássicos da música negra brasileira - a viver exilado no hemisfério norte. Ele chegou a ficar três décadas sem tocar no Brasil, mas nos últimos anos vem se apresentando no país com frequência.

Nesta terça, é a vez de mais um show. A performance acontece no Bourbon Street Music Club, em São Paulo. Quem não puder comparecer poderá ouvir o show ao vivo pela Rádio Eldorado, dentro do programa Sala do Professor Buchanan's, a partir das 21h. "Venho acompanhado de mais três músicos, que fazem parte do sexteto com o qual estou tocando agora", adianta Salvador. "Queria vir com a banda completa, mas dessa vez não foi possível. Mas prometo voltar com os rapazes todos o quanto antes", garante.

Dom Salvador voltou aos palcos nacionais em 2003, quando foi o destaque do Chivas Jazz Festival. "Eu não tocava no Brasil desde 1973, achava que as pessoas nem se lembravam mais de mim. Aí vi a plateia lotada e levei um susto", recorda. "As pessoas se aproximavam com discos para eu autografar, umas edições que eu nem sabia que existiam. Depois descobri que meus discos eram pirateados na Inglaterra. Umas cópias bem mais bonitas que as originais, então nem me importei", ri.

O disco pirateado a que ele se refere é Som, Sangue e Raça , de 1971. Nele, Salvador está acompanhado da banda Abolição, formada apenas por músicos negros. "Na época, havia uma onda black power nos Estados Unidos. O Hélcio Milito (baterista do Tamba Trio) achou que dava um tremendo pé fazer algo parecido no Brasil", lembra. "Então ele me deu discos do Sly and the Family Stone e do James Brown e me disse que eu poderia fazer essa jogada, essa linha meio funk. Eu fiz, mas misturado com samba, com choro".

A Abolição teve vida curta (lançou apenas um compacto e um álbum), mas sua influência na música brasileira já dura décadas. O samba rap de Marcelo D2, por exemplo, é herdeiro direto da mistura de sons americanos, brasileiros e africanos de Som, Sangue e Raça . Além disso, o grupo foi uma espécie de embrião da Banda Black Rio, que virou a MPB de pernas para o ar na segunda metade dos anos 70. "O Oberdan Magalhães (saxofonista) e o Luis Carlos (baterista), fundadores da Black Rio, tocavam comigo", recorda Salvador.

Segundo ele, a ideia de reunir somente músicos negros (e numa banda chamada Abolição) não tinha qualquer motivação política. "Era onda. Nunca achamos que o que fazíamos era mais sério", garante. Isso não impediu que o movimento tivesse problemas com a ditadura militar. Segundo Salvador, porque "todo mundo achava que tínhamos objetivos políticos", mesmo que não tivessem. Sobre sua saída do Brasil, no auge da repressão, ele diz que não teve nada a ver com os militares. "Tinha uma sobrinha que morava em Nova York. Fui visitá-la e acabei ficando", explica.

"Naquela época eu era pianista de estúdio, era contratado da Philips, da Odeon. E tinha direito a férias", diz. Em 1973, decidiu passar um mês nos Estados Unidos, com a sobrinha que morava lá. "Aí vi que havia várias oportunidades de trabalho por lá, e decidi ir ficando", completa. Oito meses depois, sua mulher e seus filhos o acompanharam. E é lá, em Nova York, que Dom Salvador vive até hoje. Sempre misturando sons. "Gosto de misturar. E gosto de raízes. Brasileiras e africanas. E sempre improvisando muito. É a receita da minha música".

Serviço

Dom Salvador no Bourbon Street Music Club
Rua dos Chanés, 127, Moema
Terça-feira (29), a partir das 20h
Telefone para reservas: 11 5095 6100
Couvert Artístico: R$ 65,00

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