Dom Salvador apresenta CD inédito no Copa Fest, no Rio

Aos 72 anos, em um show de mais de duas horas, pianista atestou ser um rei do ritmo

AE |

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O pianista Dom Salvador
Na virada da década de 1940 para a de 50, o quarteto As Irmãs Silva - anônimo na história da música brasileira até hoje - levava a vida em Rio Claro, no interior de São Paulo, cantando temas entoados pelos Anjos do Inferno, Quatro Ases e Um Coringa e pelo Bando da Lua. Elas e Paulo, que atacava no saxofone e depois no contrabaixo, influenciaram e descobriram que o irmão Salvador da Silva Filho levava jeito batucando na mesa. Foi o bastante para ele sair no carnaval e na rádio tocando repique. Depois, ainda foi ter aulas de bateria com o professor Emilio, que partiu para São Carlos, deixando o garoto sem um tutor musical. Ao léu nas baquetas, a opção foi aprender piano, mesmo sem ter o instrumento em casa.

Neste fim de semana, no Copa Fest, com quase meio século consagrado no meio musical como Dom Salvador, o início de sua vida musical na percussão mostrou-se novamente fundamental no tipo de som que ele faz ainda hoje. Aos 72 anos, em um show de mais de duas horas, Dom Salvador atestou ser um rei do ritmo, desfilando suas melodias e harmonias batucando no piano.

Radicado em Nova York desde 1973 , fazia 45 anos desde a última vez que Dom Salvador havia tocado no Copacabana Palace. Na ocasião, o show marcava a despedida do amigo e baterista Dom Um Romão para os Estados Unidos. É difícil imaginar, mas o encontro conseguiu reunir Elis Regina, Jorge Ben, César Camargo Mariano, Paulo Moura, J.T. Meirelles e o Copa 5, Tenório Jr., o Zimbo e o Tamba Trio, além de outros músicos da pesada. Até o início dos anos 1970, Dom Salvador já tinha tocado ao lado de toda essa turma e muito mais, carregando consigo o orgulho de ter participado do último disco gravado por Pixinguinha.

Com tanta bagagem, impressiona que ainda hoje Dom Salvador mantenha uma simplicidade latente. Tem até vergonha de, durante o show, ter de anunciar ao público que na saída haverá venda de seu disco. "Fica meio estranho eu ficar me vendendo, falando de mim", diz em conversa com os músicos de sua banda.

No show, iniciado na noite de sábado e que invadiu a madrugada de ontem, acompanhado de seu competente sexteto, Dom Salvador tocou músicas já conhecidas de sua carreira - como "Salvation Army", com direito a introdução em piano solo com "Trenzinho Caipira", de Villa-Lobos, e a destacada e pegada "Gafieira" -, além de mostrar os temas de seu mais novo disco, "The Art of Samba Jazz", ainda nem lançado nos Estados Unidos.

No álbum, regravações da própria "Gafieira" e "Depois da Chuva", registradas anteriormente no LP "Rio Claro Suíte"; "Moeda, Reza e Cor", do clássico "Som, Sangue e Raça" (1971), com o conjunto Abolição e também "Dom Salvador" (1969), e "Meu Fraco É Café Forte", do disco "Rio 65 Trio" (formação lendária com ele no piano, Edison Machado, na bateria, e Sérgio Barrozo, no baixo), além de outro belos temas, como "Indian River" e "Para Elis", em homenagem a Elis Regina. "Compus essa música em 1968. Ia dar para o Agostinho dos Santos, mas nem tinha letra. Eu trabalhei com a Elis no Rio, que chegou a me mandar uma carta me convidando para acompanhá-la no Fino da Bossa, e sempre tive vontade de homenageá-la", diz Dom Salvador.

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