Documentário mostra encontro do Harlem com Zaire

Documentário Soul Power retrata festival no zaire em 1974

Jon Pareles, The New York Times |

Jeffrey Levy-Hinte, diretor do novo documentário Soul Power, foi o editor de filmagens de When We Were Kings ¿ documentário dirigido por Leon Gast e ganhador do Oscar de 1995 sobre o evento Rumble in the Jungle, luta do campeonato mundial de pesos pesados entre Muhammad Ali e George Foreman realizada em 1974 em Kinshasa, capital do antigo Zaire (hoje o Congo).

A luta teve um enorme show paralelo: Intitulado Zaire 74, o festival de três dias de soul americano e música africana dirigido por James Brown foi filmado pela mesma equipe que estava no Zaire para a luta. Soul Power mostra o festival desde seu precário começo até os momentos finais, quando James cantou todo suado e sem camisa para uma plateia africana Say It Loud ¿ Im Black and Im Proud.

O festival foi um momento sócio-cultural notável. Músicos negros americanos e latinos foram apresentados à África e a seus músicos em meio à política black power de Ali e a uma confusão de figuras do meio musical, literário e esportivo em visita ao país. O que fez aquelas pessoas estarem lá e o que aquele momento conseguiu despertar nas mesmas teve um significado muito mais profundo, disse Levy-Hinte.

Além de Brown, outros astros e estrelas como B.B. King, Celia Cruz and the Fania All-Stars, The Spinners e Bill Withers foram ao auge de seu desempenho, exibindo roupas coloridas ao estilo dos anos setenta - que por si só já garantiam um espetáculo de moda. Músicos americanos e africanos se juntaram em apresentações, como a cantora sul-africana Miriam Makeba e os grupos zairenses T.P.OK Jazz (incluindo o guitarrista Franco) e Tabu Ley Rochereau.

Celia Cruz levou salsa polirrítmica ao Zaire

O documentário Soul Power, lançado agora nos Estados Unidos, mergulha a fundo no palco e nos bastidores do festival, mostrando desde discussões por causa de equipamentos e conflitos nos camarins ¿ como Sister Sledge ensinando garotas africanas a dançar o Bump, diretamente da Filadélfia ¿ até Brown exibindo seus passos e rodopios ligeiros. Trata-se de cinema-verdade com muita pouca explicação e um turbilhão de cores e ritmos banhados pelo sol.

Ideia absurda

O Zaire 74 quase não ocorreu. Desde seu início, o festival foi uma missão de louco na opinião de Stewart Levine, a cargo de sua produção juntamente com o trompetista sul-africano Hugh Masekela (eles haviam divido o mesmo quarto na Escola de Música de Manhattan nos anos sessenta; Levine produziu 15 álbuns para o trompetista, incluindo o single de sucesso Grazing in the Grass). Quando Levine ouvir falar sobre a luta de boxe no Zaire, ele disse em uma ligação telefônica de Los Angeles Acabei de ter uma idéia: que tal um festival de música?.

Eu tinha um desejo de mostrar ao público em geral algo que ainda não era chamado de world music. Tive essa ideia meio absurda de realizar um festival, e todo mundo concordou, contou o produtor.

Bem, nem todo mundo. A luta de boxe foi subsidiada pelo governo do Zaire: o ditador Mobutu Sese Seko queria melhorar a imagem de seu país. Mas o Zaire não iria financiar o festival. Então Levine levantou fundos de banqueiros da Libéria ¿ o representante descontente dos mesmos aparece no documentário ¿ e os preparativos tiveram início. 

Foi quando uma lesão obrigou Foreman a adiar a luta, fazendo com que o festival ocorresse seis semanas antes da mesma, praticamente eliminando o público em potencial de turistas internacionais. Levine teve de se decidir do dia para a noite se cancelaria ou não o festival.

Mas os artistas já haviam recebido parte do cachê e o local do evento já estava sendo montado. Através de contatos que tinha na ABC, Levine conseguiu que o locutor esportivo Howard Cosell segurasse a notícia do adiamento da luta por 24 horas, temendo que os músicos americanos ficassem em casa. Ele acredita que também teve sorte porque a data coincidiu com Rosh Hashanah e muitos empresários de artistas convidados guardavam o feriado judaico.

Assim, quando os passageiros embarcavam no vôo fretado, James Brown chegou com 18.000 quilos de equipamentos adicionais ¿ ele havia agendado outros shows na África ¿ recusando-se a embarcar a menos que a parafernália seguisse no mesmo voo que ele, contou Levine. O volume extra foi enfiado de alguma forma no avião. Depois de uma parada para abastecimento, Levine disse: O avião tinha tanto peso adicional que tocou a copa das árvores ao decolar em Madri.

A equipe de produção ficou sabendo um pouco tarde demais que a voltagem do Zaire era 220 volts, enquanto toda a equipagem americana era 110 volts. Felizmente, eles encontraram geradores de 110 volts doados ao Zaire pela Agência Americana de Desenvolvimento Internacional (com pouquíssimo tempo de uso devido à diferença de voltagem). O festival ocorreu mais ou menos como planejado, com 80.000 pessoas lotando o estádio.

Outro lado da rua

The Spinners: pop e R&B de apelo universal

Foi interessante observar a reação da plateia formada em sua maioria por africanos, disse Withers, que no filme prende a atenção da multidão ao cantar Hope Shell Be Happier, sozinho na guitarra acústica. É como ficar do outro lado da rua observando sua namorada passar e vendo como os outros reagem a ela. A percussão da salsa polirrítmica de Celia Cruz and the Fania All-Stars foi o que mais encantou o público, disse ele. E não é de se admirar: A rumba afro-cubana da geração anterior havia deixado fortes influências no ritmo soukous, o pop zairense atual. O filme mostra Ray Barretto tocando conga em uma jam session improvisada com percussionistas africanos. 

As câmeras mostram diversos músicos e o próprio Ali com olhos arregalados para a África. Withers, muito viajado depois de passar nove anos na marinha americana, tinha os pés no chão. Senti-me uma pessoa privilegiada em um ambiente sem quaisquer privilégios, disse ele. O tal ditador Mobutu ¿ que não se mostrou animado ao me ver ¿ e toda aquela disparidade de riquezas. Parecia haver uma lacuna enorme entre as pessoas escolhidas para estarem a seu redor e todo o resto. Entretanto, a cena no hotel onde se hospedaram alguns convidados foi singular. Ele conta: Foi como um encontro do Zaire com o Harlem e Hyannisport.  

O festival Zaire 74 foi filmado por documentaristas de primeira linha como Albert Maysles, também envolvido na produção de Gimme Shelter, sobre o concerto Altamont em 1969, gravado em 16 faixas de som de alta qualidade. Mas não havia dinheiro algum para a pós-produção (Os liberianos acabaram pagando uma conta de hotel de mais de US$200.000, pois, segundo Levine, os produtores do festival haviam dito aos músicos para sentirem-se à vontade em incluir qualquer coisa que quisessem na conta do hotel). Quando o festival acabou, as filmagens foram guardadas por Gast e, principalmente por causa de disputas legais, anos se passaram até ele finalizar When We Were Kings. Como o filme girava em torno da luta de boxe, grande parte do festival de música foi parar no chão da sala de edição.

Isso irritou Levy-Hinte profundamente, que se tornou produtor de longas-metragens (Laurel Canyon) e documentários (Roman Polanski: Wanted & Desired) para sua empresa, a Antidote International Films. Durante uma década, entre outros projetos ele pensava nas filmagens do festival e finalmente em 2006 resolveu levar a sério seu lançamento.

Seu plano era lançar DVDs das apresentações do festival, um processo razoavelmente direto. Ele conta que então cometeu o pecado da produção cinematográfica, apaixonando-se pelo material, ao invés de tomar o caminho mais racional dos negócios.

Soul Power custou meio milhão de dólares, incluindo o licenciamento. Até o momento ainda não existem contratos de produção do álbum da trilha sonora. Os DVDs serão montados assim que for humanamente possível, disse Levy-Hinte, embora isso possa ocorrer somente no próximo ano.

Ele adicionou: A grande maioria do material ainda não foi usada. Pode ser que encontremos conteúdo para mais outro filme.

    Leia tudo sobre: celia cruzdocumentáriojames brownsoul

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG