Do inferninho ao festival, Se Rasgum leva som do Pará ao Brasil

Quinta edição do Festival Se Rasgum consolida o evento como um dos mais importantes para a música feita no Pará

Sabrina Duran, especial para o iG Cultura |

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Quinta edição do festival Se Rasgum, em Belém
O Festival Se Rasgum, que acontece anualmente em Belém, no Pará, chegou à quinta edição em novembro (dias 12, 13 e 14) reafirmando sua vocação de pólo aglutinador e expositor do melhor da música rock, pop e regional paraense. Além disso, o Se Rasgum também faz história ao promover encontros sonoros capazes de desfazer qualquer obtusidade musical. No mesmo palco desde onde se ouve o rock do carioca Lê Almeida, ouvem-se também o forró e baião aguitarrados da banda paraibana Cabruêra. E o público paraense aprecia e agradece essa variedade dançando e cantando a noite toda na pista.

O primeiro dia do Se Rasgum já mostrava ao que vinha ao colocar no palco do Hangar, casa de shows e convenções de Belém, a inventividade sonora e kitsch do paraense Felipe Cordeiro e sua lambada com farinha, o rock em inglês do The Hell´s Kitchen Project, a apresentação multimídia de André Abujamra (com ótimas e non sense projeções em vídeo) e o carimbó chamegado de Dona Onete, cantora e compositora marajoara de 71 anos que fala de amor de um jeito lírico e meio safado e que, na pista, é acompanhada pela molecada que canta e dança suas músicas.

No segundo dia de festival, a profusão de ritmos foi maior, e os três palcos montados na casa de shows African Bar faziam o público ir de um extremo ao outro da música, azeitado, sempre, pela sonoridade paraense que servia de ponte entre as bandas de estados além-Pará. A percussão e guitarra vigorosas do grupo brasiliense Soatá começou rasgando a noite com uma lapada na orelha – mistura de lundu com hip hop, marabaixo e rock. “É som de guerrilha, de festival mesmo”, comentou um músico que participava do evento na condição de público. Félix y Los Carozos, Cidadão Instigado, Graforréia Xilarmônica e Mostarda na Lagarta também se apresentaram no sábado.

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Odair José canta no Se Rasgum
Um dos momentos mais representativos da proposta de ecletismo compartilhado do Se Rasgum foi o dueto (de cinco pessoas) de Odair José com os mineiros do Dead Lover's Twisted Hearts. Odair cantou todos os seus maiores sucessos das décadas de 70 e 80 e foi acompanhado em coro pela platéia que, seguramente, em sua maioria, não havia nascido quando ele já repetia que era preciso parar de tomar a pílula.

O sábado terminou tarde – ou bem cedo – no Se Rasgum. Otto, a principal atração da noite, começou o show às seis da manhã. A programação do festival sofreu atraso por causa da chuva grossa e constante que lavou o calor de Belém por várias horas. Mas ninguém arredou pé. O domingo nasceu com um Otto vigoroso cantando músicas de seu quarto disco, "Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos", e homenageando os músicos paraenses Dona Onete e Mestre Laurentino.

A quinta edição do Se Rasgum terminou no domingo com shows dos paraenses Pio Lobato, Delinquentes, Projeto Secreto Macacos, Bruno B.O, Paris Rock, Madame Saatan, dos mineiros do Graveola e o Lixo Polifônico, dos paulistas do Dubalizer, Emicida, com os acreanos do Los Porongas fazendo um bem bolado com Dado Villa-Lobos e a banda americana The Slackers, convidada especial do Se Rasgun, no palco principal do African Bar.

Do inferninho ao festival

O Se Rasgum teve suas bases lançadas em 2003 com uma festa de amigos no Café Tarverna, inferninho belenense com espaço para 100 pessoas. A única pretensão dos organizadores Marcelo Damaso, Gustavo e Randi Rodrigues e Eduardo Feijó, era criar na cidade um espaço onde eles pudessem beber e curtir o som do qual gostavam. A evolução da festa petit-comité para um dos festivais de música mais importantes do país foi consequência do casamento ideal: a riqueza musical paraense (com uma profusão de bandas autorais regionais) e a necessidade do público de Belém de um lugar que pudesse servir de desaguadouro para essa sonoridade toda.

No melhor (e raçudo) esquema do it yourself, os amigos convidaram três DJs, alugaram um equipamento de som por 100 reais e deram um nome para a festa: “Nossas vidas não valem uma bala soft”. Marcelo Damaso, jornalista belenense, trabalhava à época como repórter no caderno de cultura de um jornal do Pará. Por ali divulgou a festa e esperou para ver o que aconteceria. “Se desse prejuízo era só dividir os 100 reais do aluguel do som entre a gente (risos)”, conta Damaso, relembrando as miúdas cifras daquela época.

A festa, a 5 reais por cabeça, não só não quebrou o bolso de ninguém como quase lotou o inferninho – 80 pessoas no total. A segunda edição veio 15 dias depois, agora com a banda de Damaso, Gustavo e Eduardo, Presidente Elvis, tocando covers e versões do Kinks, Talking Heads, Rolling Stones e outras bandas. Público: 120 pessoas. Na terceira edição, os rapazes decidiram convidar Suzana Flag, banda paraense de música autoral, para tocar na festa. Outra vez, o público lotou a casa, fazendo com que Damaso e seus amigos descobrissem o potencial de crescimento do inferninho.

“Nessa época, muitas bandas paraenses começaram a aparecer e vimos que tinha gente pra fazer uma festa só com música autoral. Aí demos esse nome retardado de Se Rasgum (risos) e fizemos a terceira festa, agora no Café com Arte (outra casa de Belém). Foram 300 pessoas. Aí pensamos: tem produto aí, tem um público carente e banda pra tocar, vamos abrir espaço pra elas, pagar cachê, fazer tudo direitinho. Passamos 2004 inteiro fazendo isso. De 15 em 15 dias havia duas bandas autorais diferentes. Passamos um ano inteiro sem repetir grupo”, conta Damaso.

O pulo do gato para o Se Rasgum das 300 pessoas virar um dos festivais de música mais importantes do país e o mais importante do Norte, com público na casa do milhar e bandas do Brasil e exterior, foi a inscrição do projeto em uma lei de incentivo paraense em 2006. Deu certo na primeira, e os rapazes receberam verba para encorpar a produção. Entre parcerias e leis estaduais, o Se Rasgum segue crescendo e se consolidando como um festival que contempla, promove e difunde a cultura musical do norte. Quem está disposto a se desapegar do eixo cultural Rio-São Paulo e olhar um pouco mais acima e adiante, verá que pródiga é sonoridade do Pará.

* Fotos: Marcelo Lelis / Divulgação

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