Disco eletrônico de Gal Costa tem até flerte com o funk carioca

"Recanto", produzido e composto por Caetano Veloso, chega às lojas na semana que vem

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Claudio Augusto
Gal Costa e Caetano Veloso dão entrevista em São Paulo
Sim, Gal Costa fez um álbum totalmente eletrônico. Sob a direção de Caetano Veloso, a cantora baiana gravou onze músicas - todas de Caetano, nove delas inéditas - em que os sintetizadores dão o tom. O disco se chama "Recanto" e só chega às lojas na semana que vem, mas trechos de algumas faixas já estão disponíveis na internet. O que pode ser ouvido já fez com que algumas pessoas começassem a chamar a cantora de "Lady Gal Gal".

Gal concorda que "Recanto" é um disco ousado - só não acha que isso seja motivo de tanta surpresa. "Eu já fiz outros trabalhos ousados", afirma, dando como exemplo a psicodelia e o experimentalismo do álbum "Gal" (1969) e os seios nus do show "O Sorriso do Gato de Alice" (1994). Apostar nos sons eletrônicos de agora seria, portanto, uma continuação natural de sua trajetória. "A ousadia está no nosso histórico, no nosso DNA", resume Caetano.

A opção por sintetizadores, no entanto, não significa que o álbum seja dançante. Pelo contrário: a maior parte das faixas é lenta. Uma das poucas exceções é "Miami Maculelê", um funk carioca inspirado no som do DJ Marlboro. A guinada estética pode até deixar os fãs mais conservadores de cabelos em pé, mas Gal não liga. Quando perguntada se as pessoas estariam preparadas para essa nova Gal, ela responde: "têm que estar, né?"

Claudio Augusto
Caetano com foto de Gal ao fundo
"Tinha vontade de fazer um disco eletrônico há bastante tempo. Mas tudo que eu pensava, já pensava com a voz da Gal. Aí propus a ela e ela topou", explica Caetano. Apesar de parceiros há décadas - ambos estrearam em disco num trabalho conjunto, "Domingo", em 1967 -, esta é apenas a segunda vez que o músico produz um disco de Gal - o primeiro foi "Cantar", de 1974 - e a primeira que ela grava um álbum só com músicas do amigo.

Caetano conta que, desde o início, não queria que as canções fossem "recatadas". "Não queria evitar ideias difíceis, nem palavras pesadas, nem sons desagradáveis", afirma. A responsável por dar unidade a tudo isso seria a voz suave e segura de Gal Costa. "Eu sabia que a 'coolness' da voz da Gal poderia conviver com segurança e autoridade em meio a tudo isso."

Veja letras de Gal Costa no Vagalume

A primeira faixa, "Recanto Escuro", já dá o tom do disco. Em cima de uma base eletrônica seca e dura, Gal canta versos como "Não salto mas sou carregada / Por asas que a gente não tem / A luz não me fulmina os olhos / Nem vejo bem". O final abrupto, que dá a impressão que a música foi cortada ao meio, completa a atmosfera de estranheza.

Tanto Gal quanto Caetano consideram a quarta faixa, "Tudo Dói", a mais importante do álbum. "Ela sintetiza de uma forma totalmente diferente o disco. Tudo nela tem um componente 'joãogilbertiano'", diz Gal. Caetano concorda com essa relação com a bossa nova. "Não é uma comparação evidente, mas existe. 'Tudo Dói', assim como João Gilberto, tem um grau de estranheza, de radicalidade, de economia, de redução ao essencial", afirma.

Claudio Augusto
Gal Costa
Outro destaque é "Miami Maculelê", o funk carioca de Gal. "Pedimos ao Marlboro que fizesse a base para a música. Ele disse que sim, mas nunca entregou. Aí eu disse: 'vamos fazer nós mesmos'", conta Caetano. "Não ficou tão vanguardista quanto a dele seria, mas ficou consideravelmente boa."

A gravação se dividiu entre Salvador e Rio de Janeiro. Caetano e o produtor Kassin fizeram as primeiras bases ("bastante cruas, sem nenhum conforto", conta Gal) no Rio e mandaram para Gal na Bahia. Ela gravou a voz guia e devolveu ao Rio. De lá, voltaram novas bases para a cantora fazer a voz definitiva. "Gal ainda nem conhece o Kassin pessoalmente", diz Caetano.

No ano que vem, "Recanto" vai chegar aos palcos. "Caetano vai dirigir o meu show", adianta Gal. Segundo ele, o espetáculo será "um prolongamento do disco". Haverá algumas canções apresentadas em voz e violão, mas outras músicas antigas ganharão um tratamento condizente com a sonoridade do novo disco. "Estamos pensando em fazer uma versão bem eletrônica de 'Vapor Barato'", revela Caetano.

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