Diana Krall está com a bossa toda

Em turnê pelo Brasil, cantora lembra João Gilberto e já pensa em novo trabalho

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

AE
Diana Krall, ao piano, na segunda-feira, em seu primeiro show em São Paulo
Repórteres eram poucos, três ou quatro. Na sala, mais de 40 pessoas, entre assessores, fotógrafos, seguranças e garçons. Diana Krall entrou rapidamente pela lateral e desapareceu para retocar a maquiagem. Pronta para os flashes, a cantora de jazz campeã de vendas da década ressurgiu deslumbrante em um curto vestido de renda preto – após ganhar peso e dar a luz a gêmeos no fim de 2006, a canadense, aos 46 anos, está mais bonita do que nunca. Dois shows em São Paulo deram início a uma nova turnê brasileira, que ainda passa por Brasília (sábado) e Rio de Janeiro (segunda, 20). No repertório, a bossa nova, homenageada no álbum Quiet Nights e no DVD Live in Rio .

Em uma conversa na capital paulista da qual o iG fez parte, Diana lembrou que toca bossa nova desde criança – “Garota de Ipanema”, “Wave”, canções que aprendeu antes mesmo de ouvi-las gravadas – e é fã de Sérgio Mendes. “Você não pode ser um jazzista sem aprender bossa nova”, ressalta. Mesmo assim, e apesar de já ser uma veterana em viagens pelo país, ainda mantém uma postura reverente.
“Tocar bossa nova no Brasil é como tocar piano na frente de Oscar Peterson ou Nat King Cole”, compara. “Na primeira vez que toquei aqui, me senti muito intimidada. Mas é como quando gravei Nat King Cole [no álbum All For You]: se você para pra pensar em como uma música é maravilhosa e no modo incrível como ela foi interpretada, isso só vai te inibir, então tento relaxar, pensar apenas na música e fazer o meu melhor. Ter a admiração de músicos daqui é um grande elogio, as pessoas são muito generosas em receber bem meu amor à música de vocês.”

AgNews
Diana Krall, antes da entrevista
Mas não é só pressão que passa pela cabeça da cantora quando ela pensa em Brasil. “Quando toquei com a orquestra no Rio [na gravação do DVD], tive a sensação de algo que era diferente de qualquer outra orquestra. Tinha definitivamente muito mais groove, parecia que todos estavam conectados, sentindo a música. É uma das melhores memórias da minha vida.” Diana confessa que gostaria muito de aprender melhor português – ela canta “Este Seu Olhar” no último disco – e passar uma temporada no país. “Seria ótimo ficar aqui um tempo e não fazer só shows, imprensa... Duas semanas, talvez, para passear, compor um pouco. Quem sabe?”

Recentemente, ela assistiu João Gilberto, um de seus heróis vivos (assim como Sonny Rollins e Herbie Hancock), no Carnegie Hall, em Nova York. Os dois se encontraram no camarim, tiraram fotos e Diana tentou explicar para ele por que sua gravação favorita é “Isso aqui o que é”, de Ary Barroso, do álbum ao vivo em Tókio. “Ele faz um solo no violão, tem uma assinatura, um suingue por baixo... Eu sei, é específico, mas noto porque já roubei alguns arranjos dele (risos)”. Do show, garante que foi “divertido”. “Parecia que ele estava tocando em casa, mas ao mesmo tempo reclamava do ar condicionado do Carnegie Hall.” Os jornalistas lembraram que não era nenhuma novidade.

O repertório atual da turnê mistura canções de Quiet Nights , standards e surpresas que só aparecem ao vivo, como “Jockey Full of Bourbon”, de Tom Waits. Nada é pré-programado e se alguém tem a intenção de ouvir uma reprodução fiel do que foi gravado em estúdio, pode esquecer. “O jazz pressupõe espontaneidade. Prefiro correr o risco de fazer algo bagunçado do que deixar perfeito demais. Na música hoje, é possível afinar, polir, deixar tudo perfeito, perfeito, perfeito, até o ponto em que se tira toda a alma”, critica. “Não consigo mais tempo para praticar durante o dia ou ir ao estúdio, então [nos shows] são duas horas que tenho sentada ao piano. Posso até não chegar onde queria, mas confio que o público vá perceber que tento ir pra frente, avançar.”

Avançar, aliás, parece ser tudo que Diana tem em mente, tanto que repetiu isso mais de uma vez no bate-papo. Com um olhar perdido, disse estar cansada (“acho que não tenho férias há 20 anos”) e que deve parar um pouco na primavera do ano que vem, outono no Brasil. “Preciso dar um passo à frente criativamente”, diz, enfática , “e pra isso preciso de um tempo”. Depois disso, deve gravar outro disco e sair novamente em turnê. “A indústria musical está passando por tempos muito difíceis, até turnês estão difíceis de ser viabilizadas, então me sinto agradecida por tocar tanto como tenho feito”.

Para equilibrar esse ritmo alucinante e a saudade dos filhos e do marido, Elvis Costello – que lança um álbum “inacreditável”, segundo ela, no próximo mês –, os dois tentam viajar juntos, como nas últimas semanas: Diana e Elvis compartilharam turnês e um ônibus pelas rodovias europeias. “Duas crianças e duas bandas diferentes juntas num ônibus. Foi insano”, relembra, com um sorriso no rosto. E saiu para retocar a maquiagem mais uma vez. Nem precisava.

Serviço – Diana Krall no Brasil

Brasília
Sábado, 18 de setembro, às 21h, Teatro Oi
Ingressos: R$ 600
Informações: (61) 3424-7121

Rio de Janeiro
Segunda-feira, 20 de setembro, às 21h, Teatro Oi Casa Grande
Ingressos: de R$ 400 a R$ 600
Informações: (21) 3114-3716

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