Derrotado nas urnas, Reginaldo Rossi provoca a MPB

Em entrevista ao iG, cantor defende o deputado Tiririca e explica por que gravou Marisa Monte

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Reginaldo Rossi
O cantor Reginaldo Rossi concluiu sua mais recente aventura política, mas isso não significa que tenha desistido de frequentar ambientes estranhos à música muito popular que o fez conhecido desde 1967 até os dias atuais. Candidato a deputado estadual pelo PDT nas eleições de 2010, por seu Pernambuco natal, teve 14.934 votos, ou 0,33% do total – ficou em 93o lugar e não foi eleito. De volta à música, lança em DVD e CD ao vivo o Cabaret do Rossi (EMI), no qual segue o rumo de sempre, mas também belisca repertório quase sempre inexplorado em seu nicho, como a chamada MPB de "Amor I Love You" (2000), sucesso com Marisa Monte e Arnaldo Antunes, e "Só Você" (1984), de Vinícius Cantuária.

No campo político, Rossi relativiza o peso do insucesso nas urnas: “Não gastamos dinheiro nenhum na campanha. Fui o quarto deputado estadual mais votado do PDT. Os três primeiros tinham máquina financeira, um era presidentre da Câmara e dois eram prefeitos de cidades do interior”. Ele trata a candidatura não como iniciativa sua, mas antes um pedido feito pelo partido, que, segundo ele, “precisava de nomes famosos”, dentro da estratégia comum de usar celebridades para amealhar mais votos para as legendas.

“Quando entrei para fazer um favor para o partido, ninguém ligou oferecendo mil santinhos para eu distribuir ou coisa assim. Com a votação que tive, três ou quatro pessoas importantes do partido me ligaram, falaram que pode ser uma base para eu concorrer a vereador de Recife”, diz. Refere-se à incursão como “um acidente de percurso, uma besteira” e se esguia de comentar o recurso político arraigado que, por vezes, coloca em risco a credibilidade de gente estabelecida em outras atividades: “A mim não usam porque sou tão sabido quanto eles, ou mais”.

Evoca espontaneamente o exemplo do palhaço (e cantor bissexto) Tiririca, campeão de votos na eleição de deputados federais por São Paulo. “Ele é inteligente, pode ser que surpreenda. E elegeu três ou quatro que sem ele não se elegeriam de jeito nenhum”, afirma. A ameaça de cassação de Tiririca, pós-eleições, causa-lhe indignação, inclusive em relação às leis vigentes, e uma bateria de perguntas: “Enéas concorreu nessas mesmas condições e também teve milhões de votos, por que não cassaram ele? Porque era esclarecido. Se analfabeto pode votar, por que não pode ser eleito? Por que deixaram Tiririca concorrer, por que não fizeram essa inquisição antes? Quem elege e faz impeachment é o povo”.

Por incrível que pareça, essa discussão pode ser transferida para o campo da música. Uma distinção talvez equivalente à que separa Enéas de Tiririca vem à tona quando Rossi se refere às escolhas inesperadas de repertório. “Se ''Amor I Love You' fosse lançada por Fernando Mendes era brega. Como foi lançada por Marisa Monte não é brega”, ele provoca, para explicar o tapa de luvas de pelica no cabaré “chique” a que chamamos MPB. “Se Amado Batista fizer a 5a Sinfonia de Beethoven, não presta. Mas se Beethoven fizesse ‘no hospital, na sala de cirurgia’, aí seria genial.”

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Cena do DVD ao vivo "Cabaret do Rossi"
Rossi sabe que pretextos musicais e artísticos encobriram historicamente uma série de cisões na música brasileira, entre “eruditos” e “populares”, entre “bregas” e “chiques”, entre a MPB e a bossa nova, de um lado, e gêneros “do povão” como samba, canção caipira ou sua música “de cabaré”, do outro. Ele mostra concordar que o corte é mais profundo que uma questão só musical, e que preconceitos de várias naturezas se escondem atrás das separações “estéticas”: “É preconceito, frescura, ‘cornura’. Se Caetano Veloso canta ‘esse papo tá pra lá de Marrakesh’, dez pessoas sabem o que é Marrakesh, duas sabem onde é Marrakesh e ninguém canta. Se ele grava 'Você Não Me Ensinou a Te Esquecer', milhões de pessoas cantam e acham genial. É do Fernando Mendes, mas, ah, tudo bem, é o Caetano.”

Seja como for, de alguns anos para cá essa situação tem se modificado, e o próprio Cabaret do Rossi é prova disso. O livro "Eu Não Sou Cachorro, Não" (Record, 2002), do historiador Paulo Cesar de Araújo, documentou os preconceitos sociais ocultos atrás das restrições ditas estéticas e ajudou os dois mundos antes dissociados a esboçarem movimentos de reaproximação ("Amor I Love You" é um caso célebre). “As pessoas vão ficando mais velhas e vão perdendo o medo. Eu não tenho mais medo de nada”, Rossi dá caráter pessoal à justificativa.

O medo deixado para trás permite, até, que ele agora regrave, em impagável inglês de sotaque pernambucano, o rock "Have You Ever Seen the Rain" (1970), do grupo Creedence Clearwater Revival, e o hino adotivo da comunidade gay "I Will Survive" (1979), da cantora de discotheque Gloria Gaynor.
Aqui, não há como as experiências de Reginaldo Rossi parecer estranhas. O gosto eclético o acompanha desde o surgimento como cantor de iê-iê-iê à moda de Roberto Carlos, depois como autor da satírica "O Rock Vai Voltar" (1973), de parentesco indireto com o rock “acafonado” (e altamente politizado) de Raul Seixas, mais tarde o mestre de cabaré de "Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme" (1972), "A Raposa e as Uvas" (1982) e "Garçom" (1987). “Eu gosto de 'Eleanor Rigby', dos Beatles, de 'Eu Não Sou Cachorro, Não', de Waldick Soriano, e das óperas do tenor Andrea Boccelli”, explica.

Uma outra frase do cantor que chegou a cursar engenharia civil (mas não concluiu a faculdade) sintetiza o que artistas ditos populares tentam há muito dizer, via de regra sem ser compreendidos pelo público dito mais “esclarecido”: “Gosto de Frank Sinatra cantando ‘me perdoe, deixe eu tentar de novo’. Gosto do Chico Buarque cantando ‘vai passar nessa avenida um samba popular’. Não gosto quando fica rebuscado demais, porque aí o povo não entende.”

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