De Luiz Gonzaga a Guilherme Arantes

Luiz Gonzaga, Roberto Carlos, Jorge Ben e Guilherme Arantes convivem na música de Jeneci

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Augusto Gomes
Marcelo Jeneci
No palco do Sesc Vila Mariana, crescem em efeito pop não somente os rocks tocados por Marcelo Jeneci na sanfona ou as peças românticas forradas com as cordas de Arthur Verocai. Outro trunfo do artista são as baladas dramáticas levadas ao piano, que o fazem parecer, em som e em imagem, um Guilherme Arantes 30 anos mais novo. Marcelo classsifica a influência de inconsciente (“não sei tocar nenhuma música dele”), mas seu pai abre um sorriso quando vem à tona o nome do cantor-pianista de "Cuide-Se Bem" (1976) e "Amanhã" (1977): “Aquela música do céu que você toca lembra Guilherme Arantes pra caramba. O jeito, até o timbre ficou parecido”.

Há mais semelhanças entre Jeneci e o autor-cantor de "Planeta Água" e "Deixa Chover" (ambas de 1981): a água é referência presente em pelo menos nove das 13 faixas de "Feito pra Acabar". Chovem termos como molhar, chorar, chuva, mar, onda, tempestade, copo d’água, navegar, nuvem, vendaval, pingos, granizo, mesmo os mais “secos” relâmpago e raio. "Tempestade Emocional", aveludada pelas cordas de Verocai, avisa que “vai chover dor”, elaborando suave metáfora para a lágrima. “E chuva representa vida também, né?”, concorda o pai. “Marcelo chora fácil. Marcelo é bem sentimental”.

“Eu já chorei de ver gente chorando no meu show, de perceber que, caramba…”, espanta-se o filho. Numa música que ele considera inacabada e não incluiu no CD, mas faz a plateia cantar em coro no show, afirma que “a chuva é a vontade do céu de tocar o mar/ e a gente chove assim também quando perde alguém/ mas quando começa a chorar começa a desentristecer/ assim se purifica o ar depois de chover” – não deve ser à toa que "Felicidade" é o título da canção inaugural do disco inaugural.

Sobre a música sem nome, Marcelo diz: “Aí rola uma emoção do público que é difícil a gente no palco segurar. Fica tudo muito silencioso, e às vezes eu ouço as pessoas chorando. Aí os versos começam a me confundir a cabeça, é emocionante”. A água, diz, aparece sem querer: “Isso é coisa de São Paulo, chove pra caramba aqui”.

Talvez Jeneci não o faça conscientemente, mas suas músicas pedem chuva como se chamassem a emoção que a música brasileira mais, digamos, “sofisticada” andava envergonhada de provocar. "Feito pra Acabar" aponta para isso na abundância de água, no pop-romantismo à la Roberto Carlos & Guilherme Arantes, nas cordas aveludadas do arranjador de "Negro É Lindo" ("preciso às vezes ser durão/ pois eu sou muito sentimental", dizia Jorge Ben na faixa mais emotiva do disco de 1971, "Porque É Proibido Pisar na Grama") ou na sanfona que evoca a seca e a chuva no Nordeste de Luiz Gonzaga. "Gonzaga foi o primeiro artista pop que o Brasil teve, com aquelas roupas", demarca Manoel logo de início, pouco antes de mencionar seu amor pelo grupo Secos & Molhados. "Até hoje nunca vi nada igual."

Ainda sobre Guilherme Arantes, mais algumas coincidências: como aconteceu 24 anos atrás, o disco solo de estreia de Marcelo chega às lojas no início de dezembro, com o selo da gravadora da Globo, a Som Livre. Guilherme deve ser recordista absoluto de inclusão de músicas nas trilhas de novelas globais; antes mesmo do contrato com a Som Livre, Marcelo já emplacou músicas em A Favorita ("Amado", na voz de Vanessa da Mata) e Paraíso ("Longe", em versão do sertanejo Leonardo).

Reprodução
Capa do disco "Feito pra Acabar"
Outra empresa seduzida pelas águas de Jeneci é a Natura, patrocinadora de "Feito pra Acabar", por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura. Marcelo diz que não há qualquer relação entre a patrocinadora e os motivos arbóreos e florais da capa do CD. O tema causa espécie na família. Manoel conta: "Sua mãe diz que uma mocinha pegou o disco e falou, 'o disco é legal, mas essa capa não combina, combina com perfume'". Gabriel intervém: "Não, ela disse que 'esse CD aqui está com muita cara de perfume da Natura!'". Glória esclarece: "A moça falou assim, 'olhando, parece uma embalagem de perfume, e a música diz muito mais do que um perfume'".

A gerente de marketing da Natura, Renata Sbardelini, dá a versão da empresa: "A Natura não interfere, em nenhum momento, no processo de criação do artista e na condução do projeto. O patrocinado tem total autonomia para conduzir seu trabalho, da temática e composição das músicas até textos e fotos do projeto gráfico". Segundo ela, Jeneci foi selecionado entre mais de 730 inscritos no edital nacional de 2009.

Por entre marcas fortes como Globo, Natura e Roberto Carlos, Marcelo parece se diferenciar da maioria de seus pares da nova música brasileira também pela falta de receio em se comunicar e, eventualmente, fazer sucesso. "Cresci ouvindo as trilhas da Globo, confesso que gostei de assinar a garrafa de champanhe na hora de assinar contrato com a Som Livre", diverte-se. Os tempos mudaram enormemente, mesmo para contratados de gravadoras multinacionais ou da Globo, e o filme sobre o destino deste menino de Guaianases assistiremos ao vivo e em cores, na "vida real".

Em mais duas matérias, Marcelo Jeneci fala do disco "Feito pra Acabar" e do uso da sanfona .

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