Acordo Ortográfico

Sob a alcunha Sophisticated Ladies, o Tim Festival conseguiu reunir no mesmo palco três artistas tão distintas que a única ligação entre elas talvez seja o fato de que são todas mulheres. Esperanza Spalding e Stacey Kent ainda encontram em suas histórias um ponto comum na predileção pela música brasileira, mas a forma como destrincham suas influências aponta em direções bastante diferentes para a carreira das cantoras.

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Esperanza Spalding, que abriu a noite, é a revelação inconteste: uma das mais jovens professoras na história da renomada Universidade de Música de Berklee, a contrabaixista equilibra destreza e sensibilidade no manuseio do instrumento, ao mesmo tempo que arrebata ouvidos e corações com a beleza de sua voz e seus traços. A facilidade que tem para cantar aparece em scats criativos e nas deliciosas passagens entre seu registro mais grave e o mais agudo. Até mesmo pequenas falhas causadas pela pouca experiência da artista, como cantar fora do microfone, olhando para o instrumento, ficavam pequenas dada a dimensão de seu talento.

Sua tentativa de arranhar o português também facilitou na empatia com o público, permitindo que Esperanza arriscasse uma bela versão de Ponta de Areia, de Milton Nascimento. O resto de seu repertório passeou pelo jazz ensolarado da Califórnia (Sunlight ainda é o nome de uma de suas composições apresentadas), com acento brasileiro evidente. Americana de Portland, e dona de dois ábuns, a cantora tocou pela primeira vez com um trio brasileiro de baixo, violão e bateria, além da participação especial de Chico Pinheiro também no violão.

Após 15 minutos de intervalo, Stacey Kent tomou o palco com sua banda comandada pelo marido, o saxofonista e compositor Jim Tomlinson. Vocalista dedicada e precisa, Stacey começou a carreira na Inglaterra, onde desenvolveu um estilo suave e sem exageros. Apresentou faixas de seu último disco, Breakfast on the Morning Tram , como a premiada The Ice Hotel, além de uma fiel e clássica versão em inglês de Águas de Março. O multiculturalismo continuou com duas canções em francês: LEtang, e Ces Petits Riens, de Serge Gainsbourg.

Entre cada música, Stacey ainda agradecia efusivamente a chance de tocar no Brasil, afirmando ser a realização de um sonho. No entanto, a ênfase no repertório de originais acabou fazendo de seu show, espremido entre a criatividade juvenil de Esperanza Spalding e o talento consagrado de Carla Bley, o mais morno da noite, mesmo com a bela e intimista versão de What a Wonderful World no final. Funcionaria melhor como única atração, num espaço menor, onde as nuances de sua voz pudessem ser melhor aproveitadas. Em sua banda, destaque para o baterista Matt Skelton, de grande habilidade até mesmo na hora de empunhar um chocalho pra fazer samba.

Carla Bley, de 72 anos muito bem empregados na construção da vanguarda do jazz nova-iorquino, não se deixou acomodar pela vasta experiência. Pequena e tímida, entrou no palco austera, mas cumprimentou o público de imediato, com um sorriso satisfeito. Sentou-se ao piano quase completamente de costas para a platéia, e mergulhou no ciclo de canções chamado The Banana Quintet (curiosamente formado por seis partes, sendo a última, One Banana More).

Se mal olhava para o público, menor ainda era a preocupação em conversar, ou mesmo ser aplaudida. Deixando pouquíssimos segundos de espaço entre as canções, Carla se atirava ao piano com vigor juvenil. Com peças que funcionariam como trilha sonora para um soturno filme de David Lynch, a compositora fazia seu piano de base para o diálogo entre o sax de Andrew Sheppard e o trompete de Michael Rodriguez ¿ o mais jovem da banda, e apresentado com orgulho por Carla. Não por menos, em seus solos, Rodriguez impingia à canção toda a dramaticidade latina sem fugir da unidade da obra. Hoje parte de uma vanguarda mais conceitual que estética, Carla Bley deu ao fim de quarta-feira no Tim Festival um brilho diferente e misterioso, e provou que a idade só tem feito bem à sua obra.

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