Criolo Doido une o rap a samba, soul, bolero e romantismo

Cantor paulista lança segundo álbum e rompe fronteiras de gêneros

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Kleber Cavalcante Gomes, conhecido como Criolo Doido, que lança seu segundo disco
“É natural eu cantar porque sou brasileiro. Sou brasileiro e estou pedindo licença humildemente a todos os meus para cantar.” As duas frases soariam redundantes se proferidas pela maioria dos cantores brasileiros, mas adquirem sentido particular na boca do paulistano Kleber Cavalcante Gomes, conhecido pelo codinome artístico Criolo Doido, agora adaptado para simplesmente Criolo. Ele é um músico ligado ao rap, e músicos de rap nem sempre são classificados como cantores - em setores mais conservadores de nossa cultura, o rap por vezes nem é aceito como música.

Criolo se viu frente a frente com o tabu na hora de criar seu segundo disco (o primeiro foi “Ainda Há Tempo”, de 2006, de rap, digamos, mais tradicional). Com canções compostas ao longo de dez anos, “Nó na Orelha” não é um disco de rap, porque, embora contenha raps, reúne também faixas em tempo de soul, samba, reggae, bolero, canção romântica, funk, afrobeat etc.

Mas “Nó na Orelha” é, sim, um disco de rap, segundo seu criador: “A intenção rap não foi embora. A atitude vai sempre existir. ‘Freguês da Meia-Noite’ é um bolero rasgado que está contando a história de um um cara que usa droga e só parou para pensar e falou que naquele dia não vai usar droga. Olha uma letra de rap aí”, exemplifica.

“[Em] ‘Subirusdoitiozin’ eu já começo falando de um duplo assassinato. ‘Bogotá’ pergunta por que tem que continuar essa festa da pamonha de entrar toneladas de drogas e armas todos os dias no país, e a culpa é daquele molequinho que está lá levando tapa na cara. Olha a atitude rap aí, não é um disco de rap?”, pergunta.

Entre o rap e o não-rap, Criolo reluta em definir-se “músico”. “Um dia pretendo ser músico, viu? Como diz meu pai, às vezes a gente não tem ritmo nem para andar. Não sei tocar nenhum instrumento, nunca fiz aula de canto, nada. Lutei muito e tive de provar para mim mesmo e para muita gente - não que eles tenham pedido, OK? - que tenho condições de expressar um pouquinho do que o meu coração diz.”

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Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo Doido
Ainda que se atribua limitações musicais, ele decidiu romper as fronteiras às vezes opressivas do rap, e explica os porquês: “Por volta de 2008 percebi que minha construção de texto não estava somando mais para o rap. E, caramba, eu nunca vou deixar bater na bunda a água do comodismo”. Seria uma ousadia tentar colaborar para a evolução do rap ultrapassando seus dogmas e convenções? “Sei lá se sou ousado, cara. Só estou me permitindo fazer o que meu coração pede, e que minha mãezinha e meu paizinho escutem uma música do segmento que eles gostam. MC também tem pai e mãe, sabe?”

Ousadias de estilo à parte, a temática tradicionalmente rapper das letras afronta quem supõe que o gênero, em 2011, se afaste de suas origens rumo à domesticação ou à diluição da época heroica de Racionais MCs e seus seguidores. O olho vivo de Criolo na política e na sociedade se revelam pelos detalhes, nas letras ou em sua fala, como quando se refere a certo subtipo de cidadão paulistano como “alguém que exerce psicologicamente a chibata no outro para se sentir melhor”.

O mesmo acontece quando conta sobre a rinha de MCs de toda segunda sexta-feira do mês na ONG Ação Educativa, no centro de São Paulo, onde acontece a entrevista: “É importante, aqui os meninos não têm contato com álcool e com um monte de outras coisas que estão aí. Não sou hipócrita, se tirar hoje o álcool e algumas outras coisas que mantêm o país nessa coisa morna que está aí, é guerra civil. O que aconteceria se tudo aquilo que te amortece não existisse mais?”.

Músico e educador (deu aulas durante cinco anos), ele se utiliza da linguagem para atacar sutilmente o racismo brasileiro: “A pessoa diz ‘você está denegrindo a minha imagem’, e nem sabe que está falando uma coisa superpesada. Como é difícil para algumas pessoas falar a palavra ‘criolo’. A gente fica digladiando, e essa tapioca nunca vem com recheio”.

Amor em SP

Uma das faixas mais contundentes de “Nó na Orelha”, produzido com esmero por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, chama “Não Existe Amor em SP”, um soul compenetrado, cantado com gentileza, forrado de cordas. Seu quase-romantismo, no entanto, é envenenado pela farpa sutil lançada pelo narrador ao modo como paulistanos maltratam sua cidade e a si próprios. A frase que dá título à canção parece uma afirmação, mas abriga antes uma pergunta (existe amor numa cidade endurecida como São Paulo?), no mínimo uma provocação.

Existe amor em São Paulo, Criolo? “Depende do dia”, ele se esguia. “É o recorte de tal dia. Nada é para sempre. O ódio existe, né? Quantas guerras temos atualmente?”

Criolo ama? “Quando se trata de música e dos meus pais, amo.” Só nesses casos? “De outras coisas também. Mas ainda faltam as afirmações da vida.”

É possível amar a cidade de São Paulo? “Se não fosse eu não cantaria tanto para sua melhoria, né?”

(Ouça abaixo "Não Existe Amor em SP".)

Criolo "Não Existe Amor em SP" by danielganjaman

Criolo odeia? “Se eu odeio? Em qual instância?”, pergunta, após um longo silêncio. “Não odeio, não, cara. Não tenho ódio no meu coração. Mas ainda estou me conhecendo, ainda sou uma criança”, responde o homem de 35 anos, militante do rap desde que tinha 12.

Criolo fala de seus pais: “Seu Cleon é um baita negrão lindo, um diamante negro, metalúrgico. Dona Maria Vilani é uma guerreira, de pele linda, branquinha, clarinha, professora”. A mãe se formou em filosofia. O filho deixou inconclusas duas faculdades de arte e chegou quase ao final da de pedagogia.

É descendente de cearenses por parte de mãe e de pai: “Meus bisavós paternos foram escravos de holandeses no Ceará”. Tem olhos amendoados e traços mistos, que escancaram um sangue tão híbrido quanto a música que pratica em “Nó na Orelha”. “Muita gente me pergunta: ‘Você é árabe, é turco?’. Eu digo: ‘Olha, eu sou cearense’. Falo com a mesma delícia que se falasse que venho das mil e uma noites, mas aí a pessoa fica chateada. Por que não pode ter história bonita no Ceará?”

Circo dos Trapalhões

Criolo passou a maior parte da vida no bairro do Grajaú, na periferia sul de São Paulo, onde mora até hoje. Ali se iniciou no hip hop, inclusive num grupo local batizado Pacto Latino. “Fomos dos primeiros a cantar em outras línguas e a falar de questões sociais dos países latinos”, explica.

Nesse e em muitos momentos, a vivência com o rap se misturou à atividade de educador. “Estive em sala de aula e estive do outro lado, trabalhando com meninos de rua. No corpo-a-corpo da rua você vê a outra ponta. Vê um menino acordar com o rosto mofado, outro colocando plástico queimado na cabeça do menino porque ele pegou um pedaço de pão. Odeio falar nesses termos, porque a pessoa lê o texto e só se apega naquilo, mas ‘Bogotá’ e ‘Linha de Frente’ falam disso, do meu desespero.”

Ao descrever a própria infância, lembra-se de cena vivida aos 4 ou 5 anos de idade: “A gente morava num morro, no Jardim das Imbuias, e meu pai sempre me levava para o campão para soltar pipa. Um belo dia a gente desceu e tinha um circo, e era o circo dos Trapalhões. Assisti a show do Roberto Leal, acho que do Sidney Magal. Lembrei disso agora, cara”. O menino vive no adulto desde o CD anterior, que fazia citações musicais a trilhas de desenhos da Disney. O novo disco se encerra com um samba feito para homenagear (com subtexto, afirma) Mauricio de Sousa e a "Turma da Mônica".

Por falar em samba, Criolo frequenta, no Grajaú, o Pagode da 27, roda de samba na qual os partideiros do bairro apresentam suas composições. Ele, militante do rap, é um dos compositores da 27 - fez um samba-exaltação em homenagem a Nenê Partideiro, o líder da roda. Até nesse detalhe prosaico Criolo confirma que MCs e rappers são músicos, sim, por mais que eles próprios às vezes se confinem nos limites do gênero que os formou. Se “Nó na Orelha” está destinado a dar algum nó, é menos nas orelhas do ouvinte que em ínumeros preconceitos vigentes, dentro e fora do hip hop.

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