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Acordo Ortográfico

Por Diego Fernandes

Há de se admirar a visão (ou a completa falta de noção) da Comunidade Nin-Jitsu. Ainda na primeira metade da década de 90, quando funk carioca e miami bass eram considerados gêneros (ainda mais) bastardos e sem um milésimo do verniz "cool-ao-menos-no-exterior" que exibem hoje, o grupo já aparecia em programas de televisão arriscando uma versão funk melody de "Sweet Child O'Mine" e o embrião do que seria seu maior hit, "Detetive". Mais de uma década depois, a fusão de pancadão, samples irônicos e guitarras pesadas, considerada em princípio só mais uma piada interna típica da "chinelagem" de Porto Alegre e do rock gaúcho em geral, é praticamente um gênero estabelecido. E lucrável, como pode atestar o Bonde do Rolê, grupo produzido mais de uma vez por Chernobyl (vulgo Fredi Endres, guitarrista da Comunidade desde a formação original e atualmente DJ e produtor de renome internacional).

Atividade Na Laje , quinto trabalho da banda, é o mais consistente de sua discografia, se não propriamente o mais divertido (título que sempre pertencerá à despretensiosa estreia, Broncas Legais ). Discreto em seus riffs, mas não por isso menos pesado, o disco tem produção mais do que caprichada de Chernobyl. "Sem Vacilar", o hit mais visível, é um electro de linha de baixo circular, coroado pelo "lirismo das massas" do vocalista Mano Changes: "Quero paz pr'os amigo (sic) / Principalmente pra você / Imagina nós dois / Sei que vai acontecer". O bate-estaca de "Chuva nas Calcinha" tem mais tensão lírica: "Chuva nas calcinha (sic) / Tempestade nas cueca (sic) / Se molhô eu tô torcendo / Eu me amarro em perereca".

Uma das melhores faixas, "Funkstein", tem algum parentesco com o suingue orgânico da Ultramen, mas adquire novo contexto com os vocais rasgados estilo baile funk e a participação vocal de Marina (ex-Bonde). O ponto alto é "Mais Pressão", com drum machine impiedosa, vocal processado e um solo hard rock chupado, resultando em um dos sons mais orgânicos e dançantes de Atividade.

Sofisticação não é o forte da Comunidade, mas por outro lado seus objetivos sempre pareceram incrivelmente distantes de servir como trilha sonora para vernissages ou sarais poéticos.

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