Comentários sobre "Emoções Sertanejas"

Colaborador do iG Música fala sobre a experiência de assistir ao show sertanejo de Roberto Carlos

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

Luciano Trevisan
Roberto Carlos de chapéu durante o show que resultou no álbum "Emoções Sertanejas"
Alô. Quem fala aqui é um jornalista e crítico musical de 41 anos de idade que, até hoje, nunca havia escrito um texto completo sobre música sertaneja. Nem posso abordar nada muito a sério, porque pouco ou nada entendo do assunto, mas seguem abaixo alguns comentários perdidos sobre o show "Emoções Sertanejas", no qual 17 duplas e cantores desse nicho se apresentaram centrados no repertório de Roberto Carlos, o intérprete brasileiro de que eu mais gosto.

Paranaense do interior (assim como Chitãozinho & Xororó), nunca apreciei as vozes dobradas dos cantores sertanejos, não sei se por excesso de identificação - lá pelos 8 anos de idade, eu reclamava com minha mãe, diante do rádio, que não gostava de música portuguesa (portuguesa? não seria brasileira?). Mas nesta noite no Ginásio do Ibirapuera me apanho, estupefato, frente a frente com a constatação de que aqui só há bons, ótimos, excelentes intérpretes. Isso fica evidente desde o primeiro instante, quando Milionário & José Rico (Milionário nasceu em Minas Gerais e José Rico, no Paraná) cantam a espetacular "À Distância..." (1972). Mais do que qualquer semelhança, a identificação máxima de Roberto com os músicos sertanejos e caipiras se dá pela excelência na arte da interpretação. Não há cantor de fachada por aqui.

Martinha, ex-colega de RC na jovem guarda, "queijinho de Minas" e posteriormente fornecedora milionária de repertório para os sertanejos, faz talvez a apresentação mais acidentada, com "Alô" (1994). Ela está nervosa, a voz sai áspera e rouca, mas não nos engana. Contornado o pior do nervosismo, canta com pleno domínio e conquista a multidão a princípio hostil. Almir Sater também se atrapalha, algo desgovernado dentro da deliciosa e esquecida "O Quintal do Vizinho" (1975), mas eis aí mesmo o bom de show de RC sem a governança de RC: aparecem músicas que o cantor por si não acaricia há 500 anos.

Luciano Trevisan
Chitãozinho e Xororó durante o show de "Emoções Sertanejas"
Os jovens mineiros Victor & Léo também estão nervosíssimos . "Vocês esperam um pouquinho até que a gente relaxe um pouco?", pergunta o que faz a primeira voz (eu não sei qual deles tem qual nome), brincando a sério, antes de encarar com voz regular e grande interpretação o hino "Jesus Cristo" (1970).

A interpretação mais emocionante da noite, em minha opinião, é a de Zezé di Camargo (& Luciano) em "O Portão" (1974), a unir com profunda delicadeza os sentimentos pesados do filho fujão da letra de Roberto & Erasmo com sentimentos certamente equivalentes dos filhos goianos de seu Francisco. Zezé & Luciano engatam com o rock "Quando" (1967) e lá pelo meio recebem o reforço do paulista Daniel. Ele canta algo impostado, na ponte bamba entre a canção brasileira moderna e a antiga, mas... que grave vozeirão!

Por falar nos filhos de Francisco, Roberto Carlos em pessoa só surgirá ao final, trazido por Chitãozinho & Xororó, para cantar a manjadíssima "Como É Grande o Meu Amor por Você" (1967) e então chamar ao palco o mais importante de todos os caipiras vivos, Tinoco (da dupla paulista com o irmão hoje falecido Tonico). Com 90 anos, Tinoco recebe uma placa de homenagem, lembra a mãe índia e o pai espanhol, chama RC de filho, não canta e comanda a choradeira geral (a começar pelo próprio Roberto). "Desde criança eu dei de mamá pra ele. De mamadeira, que eu não tenho o materiá", brinca com voz trêmula o patriarca, em português do Brasil, sem verniz nem esnobismo, brasileiro nato.

Luciano Trevisan
Zezé di Camargo & Luciano fazem a interpretação mais emocionante da noite
Infelizmente, não se faz a dupla breve Roberto Carlos & Tinoco, que tinha tudo para entrar para a história como um desses momentos inesquecíveis da MPB (a dita "MPB" não gosta nada de românticos, sertanejos, sambistas, pagodeiros e que tais, mas isso é problema só dela). A respeito disso, "Como É Grande o Meu Amor por Você" diz o óbvio: a segunda voz de RC é sua legião de fãs, somos nós, é o Brasil profundo.

Curioso, os homens vêm quase sempre em duplas (com as exceções de Sérgio Reis e Almir Sater), mas as mulheres se apresentam (quase) sempre sozinhas, e em geral são recebidas com frieza pelo público. (Não) somos um país machista? Mas, olhe, todas se saem esplendidamente bem: Roberta Miranda e Elba Ramalho (paraibanas), Nalva Aguiar, Martinha e Paula Fernandes (mineiras).

A jovem Paula destoa por ser a menos conhecida de todo o elenco, e foge às normas ao propor uma dupla nordestino-sertaneja com o sanfoneiro pernambucano Dominguinhos. Ela assusta de início, pelo vestido longo em estilo Sinhá Moça (porém amarelo), mas basta começar a cantar "Caminhoneiro" (1984) ao violão, para que eu entenda que estou diante de uma descomunal intérprete de quem nunca tinha ouvido falar. Sabe Joan Baez, a namorada menos famosa de Bob Dylan? Nada a ver. Mas tudo a ver.

Ultimamente há por aí uma molecada brasileira apaixonada pelo folk norte-americano, pelo Johnny Cash, pelo Bob Dylan, até pelo Willie Nelson - aquele caubói que andou pela presidência de lá trouxe à baila como efeito colateral, e merecidamente, esses vaqueiros da música popular estadunidense. Juram que gostam de folk, mas ninguém os ouve falar de Cascatinha & Inhana (ó, que pena não estarem vivos para cantar "Índia" com seu filho Roberto Carlos), Inezita Barroso, Rolando Boldrin, Pena Branca & Xavantinho ou Renato Teixeira (por sinal, nenhum desses foi citado em "Emoções Sertanejas"). Moram na casa-grande com janelas abertas para o quintal do vizinho, o folk brasileiro, mas parece que nem percebem.

Luciano Trevisan
Paula Fernandes e Dominguinhos supreendem ao tocar "Caminhoneiro"
Após a saída de Tinoco, o capixaba Roberto Carlos canta "Cavalgada" (1977), não por acaso. O verso brasileiro mais bem interpretado de todos os tempos, e na beleza dessa hooooora..., tem tudo a ver com a excelência vocal exibida a noite inteira. E, bem, trata-se de uma canção de motel, ponte rebelde provável entre o romantismo de fossa do próprio RC e a dor-de-cotovelo escolhida a dedo por Chitãozinho & Xororó ("Eu Preciso de Você", de 1981) ou pelos goianos Leonardo ("Por Amor", de 1972) e Bruno & Marrone ("Desabafo", de 1979).

Se posso enfim falar com todas as letras, sem papas na língua, foi um grande espetáculo coletivo de música brasileira (não "portuguesa"), embora sem tanta interação assim, como demonstrou o tenso encontro do elenco inteiro, com "Eu Quero Apenas", de 1974. Teve todo o jeitão de mais um reencontro do Brasil consigo mesmo, desses que muito têm acontecido por aí.

Da entrada de Tinoco em diante, Roberto se mostrou o mais feliz de todos. Risonho que só ele, nem parecia o cara tristíssimo da capa de 1972. Um verso ausente ficou ricocheteando em minha cabeça: aquele do carioca Benito di Paula, que dizia que "tudo está no seu lugar, graças a Deus". Nessa noite tudo esteve no lugar, como dois e dois são quatro, e eu também ando com vontade de morar no Brasil.

O roteiro do show

Milionário & José Rico, "À Distância..." (1974)
César Menotti & Fabiano, "Proposta" (1973)
Nalva Aguiar, "As Curvas da Estrada de Santos" (1969)
Gian & Giovani, "Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo" (1968)
Martinha, "Alô" (1994)
Bruno & Marrone, "Desabafo" (1979)
Paula Fernandes & Dominguinhos, "Caminhoneiro" (1984)
Sérgio Reis, "Todas as Manhãs" (1991)
Almir Sater, "O Quintal do Vizinho" (1975)
Elba Ramalho, "Esqueça" (1966)
Victor & Léo, "Jesus Cristo" (1970)
Roberta Miranda, "Eu Disse Adeus" (1969)
Zezé di Camargo & Luciano, "O Portão" (1974)
Zezé di Camargo & Luciano e Daniel, "Quando" (1967)
Daniel, "Do Fundo do Meu Coração" (1986)
Rio Negro & Solimões, "Sentado à Beira do Caminho" (1969)
Leonardo, "Por Amor" (1972)
Chitãozinho & Xororó, "Eu Preciso de Você" (1981)
Chitãozinho & Xororó e Leonardo, "É Preciso Saber Viver" (1970)
Roberto Carlos, "Como É Grande o Meu Amor por Você" (1967)
Roberto Carlos, "Cavalgada" (1977)
Todos, "Eu Quero Apenas" (1974)

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