Com público na mão, Beirut faz festa cigana em SP

Grupo liderado por Zach Condon fez um belíssimo show diante do Via Funchal lotado

Marco Tomazzoni |

Fazia tempo que não se via em São Paulo uma banda ser engolida de jeito pela plateia. Assim que o norte-americano Beirut entrou no palco do Via Funchal lotado, na noite de ontem, começaram os urros e o sentimento de ovação que se estenderam por toda a noite. O show foi curto, a banda competente, mas nem precisava ¿ a alegria era tanta que se o líder Zach Condon estivesse tão bêbado como em Salvador, não teria feito muita diferença. A festa cigana estava garantida.

A apresentação fazia parte do festival percussivo PercPan, que, depois de passar por Bahia e Rio de Janeiro, chegou em versão reduzida à capital paulista. Na abertura, passaram pelo belo cenário montado no Via Funchal os cariocas do Manacá, da vocalista Letícia Persiles, por coincidência intérprete da personagem-título da minissérie Capitu, que apresentou ao grande público brasileiro as canções do Beirut.

Bastante conhecido no cenário indie, o grupo é praticamente fruto de um homem só. Com ajuda de amigos, Zach Condon, 23 anos, materializou sua fascinação pela música do leste europeu, a chanson française e ritmos latinos em três álbuns: Gulag Orkestar (2006), The Flying Club Cup (2007) e March of the Zapotec (2009). Para os ouvidos daqui, a novidade, beleza e melancolia conferidos pela mistura de acordeón, ukelele, metais e xilofone caíram muito bem, como o público fez questão de demonstrar, carregando o grupo quase que no colo.

Nantes, um dos pontos altos do repertório, foi a primeira a ser apresentada. A recomendação inicial da segurança de que os lugares nas mesas e cadeiras deveriam ser respeitados não durou 30 segundos ¿ a plateia em massa se levantou para cantar junto, bater palmas no ritmo da música e assim permaneceu. Os seis instrumentistas no palco, todos muito jovens, pareciam ter saído da banda marcial de um colégio dos Estados Unidos, tocando o trombone e trompete com viço e elegância. Na frente de todos, Condon às vezes largava o microfone e encarnava um maestro, dançando e regendo com as mãos sua pequena orquestra.

Não sei dizer português, se esforçou ele, que mais tarde repetiu o que havia feito nos outros shows no Brasil e lascou o bordão toca Raul, onipresente. Seja emulando um conjunto mexicano ou a fanfarra cigana do diretor sérvio Emir Kusturica e a The No Smoking Orchestra, o Beirut deixou o povo do fundo dançando com o sucesso Elephant Gun, logo no início do show, Postcards from Italy e Scenic World. Quem não dançava, levantava os braços e admirava um espetáculo raro de se ver por aqui. Afinal de contas, quando é que se tem o prazer de ouvir um solo de tuba? Mais do que inusitado, lírico.

O público pediu Leãozinho, de Caetano Veloso, que Condon havia cantado no Rio, mas ele lamentou, disse que tinha esquecido a letra. No lugar, trouxe La Javanaise, de Serge Gainsbourg, e a épica Cherbourg. A saída para o bis aconteceu com a belíssima Sunday Smile, muito aplaudida. Na volta, alguém jogou no palco a bandeira brasileira. Ordem e progresso, comentou o vocalista no microfone, e daí a presença no roteiro de uma versão em inglês de Aquarela do Brasil, um dos pontos altos da noite, parecia ser perfeita demais.

Condon se enrolou na bandeira e deu a deixa para o público não calar mais a boca. Gritos continuaram ao longo de Gulag Orkestar e não cessaram nem quando o grupo se despediu e as luzes da casa se acenderam. A bateção de pés continuou e eles voltaram mais uma vez, para encerrar a noite com uma enlouquecida Siki Siki Baba, com pouco mais de uma hora de show. Uma noite breve, mas que deve continuar na memória de muita gente por um bom tempo.

    Leia tudo sobre: beirut

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG