Em Porto Alegre, Roger Waters dedica show "The Wall" a Jean Charles

Ex-líder do Pink Floyd une tecnologia, política e personalidade em espetáculo imperdível, que ainda passa por Rio e São Paulo

Marco Tomazzoni, enviado a Porto Alegre |

Foi mais do que um show. Na primeira noite da parcela brasileira da turnê "The Wall", neste domingo (25), em Porto Alegre, no estádio Beira Rio, Roger Waters apresentou aos gaúchos um verdadeiro espetáculo multimídia, de atordoar os sentidos. À música, são somados efeitos teatrais, sonoros, pirotécnicos e visuais, através de imagens de altíssima definição. Excelência é a palavra que melhor descreve um evento musical difícil de ser comparado com qualquer outro no cenário atual. 

INFOGRÁFICO: COMPARE A VERSÃO ATUAL DA TURNÊ "THE WALL" COM A DE 1980

Até mesmo pelo engajamento. O ex-líder do Pink Floyd não é nada sutil quando prega seus ideais antiguerra e contra grandes corporações. Falando em português ao se dirigir pela primeira vez ao público, Waters, 68 anos, disse estar muito feliz por estar no país e lembrou o brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em 2005 pela polícia ao ser confundido com um terrorista no metrô de Londres.

"Quero dedicar esse concerto a Jean Charles de Menezes e a sua família, que está na luta pela verdadeira justiça, e a todas as vítimas do terrorismo de estado", afirmou. O brasileiro Jean Charles teve sua foto e informações mostradas no telão, assim como vítimas de conflitos no Iraque, Irã e outros locais, que podiam ser mandadas, inclusive, pelos fãs.

É uma das facetas do disco ampliadas pelo britânico na versão contemporânea do espetáculo. Lançado em 1979, "The Wall" se tornou um marco do rock progressivo e da cultura pop por sua estrutura conceitual, além, claro, de singles excelentes. A partir de sua própria vida e a de Syd Barrett, Waters escreveu canções que retratavam a jornada de um personagem fictício, desde a perda do pai na Segunda Guerra Mundial, a opressão dos professores, o fim do casamento, a solidão, tudo contribuindo para a construção de um "muro" que o isolava da sociedade e o jogava nos delírios de um regime totalitário – uma metáfora singela para a barreira imposta ao homem pelo mundo moderno, através do capitalismo, da religião e de governos controladores.

Um exemplo claro apareceu durante "Goodbye Blue Sky", quando o público era assolado pela imagem de dezenas de bombardeiros em posição. Ao invés de mísseis, as aeronaves atacavam despejando o símbolo nazista, da igreja católica, do Islã, a estrela de Davi, os logotipos da Shell, Mercedes, McDonald's... Se há alguém disposto a defender seu ponto de vista, é Roger Waters.

Assim como Alan Parker fez para o cinema em 1982, Waters transpôs "The Wall" na íntegra para o palco. As situações são as mesmas e as músicas, tocadas na ordem original.

A produção justifica o orçamento milionário. Um muro ocupava toda a extensão do campo de futebol do estádio Beira Rio (a não ser o centro, erguido ao longo do show), inclusive avançando pelas arquibancadas. É o muro, em toda sua extensão, que serve como base para projeções de qualidade impressionante, que casam grafismos, animações e imagens ao vivo.

Além disso, todos os efeitos sonoros do disco são reproduzidos com fidelidade. Espalhados pelo estádio, alto-falantes criavam a ilusão de que trens, metralhadoras, aviões e pássaros estavam mesmo dentro do Beira Rio. Não foram poucas as pessoas que ficaram procurando no céu um helicóptero graças a um som de hélices absolutamente convincente. Viram mais tarde, isso sim, um javali inflável repleto de palavras de ordem, pairando sobre o gramado.

A abertura de cara já recompensou os fãs que passaram horas tentando entrar no estádio – desde o início da tarde a confusão dava o tom nas filas, tanto que quatro horas depois do horário previsto para a abertura dos portões ainda havia gente do lado de fora, o que provocou um atraso de 40 minutos no início do show. Em "In the Flesh", um avião antigo se chocou contra o muro e entrou em chamas. Fogos de artifício vermelho pipocaram na sequência.

As favoritas do público, como não podia de deixar de ser, foram as mais famosas: "Another Brick in the Wall" (com a participação de crianças que, no entanto, não cantaram de verdade), "Mother", "Hey You", "Comfortably Numb" (Robbie Wyckoff faz a voz de David Gilmour) e "Run Like Hell" (transformada num hino de estádio, com a massa aplaudindo junto). Se no disco algumas canções não têm tanta força, ao vivo tudo faz mais sentido e se encaixa – impossível não gostar de "Nobody Home", com Waters cantando sentado em frente a uma televisão, numa sala de estar montada entre os tijolos do muro.

São duas horas de duração (mais 20 minutos de intervalo) e não se vê o tempo passar. Friamente ensaiada (sem, portanto, a possibilidade de bis), com tecnologia ainda mais impressionante do que da turnê "U2 360", "The Wall" é uma maravilha do entretenimento moderno. Mesmo quem não é fã de Pink Floyd deve se impressionar com essa versão high-tech, e repleta de política, daquela que é provavelmente a ópera-rock mais famosa da história.

INFOGRÁFICO: COMPARE A VERSÃO ATUAL DA TURNÊ "THE WALL" COM A DE 1980

Depois de Porto Alegre, Roger Waters segue para o Rio de Janeiro, onde toca na quinta-feira (29) no estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, e encerra sua passagem pelo país em São Paulo, com dois shows no estádio do Morumbi, nos dias 1º e 03 de abril.

Veja abaixo o repertório do show.

"In the Flesh?"
"The Thin Ice"
"Another Brick in the Wall Part 1"
"The Happiest Days of Our Lives"
"Another Brick in the Wall Part 2"
"Mother"
"Goodbye Blue Sky"
"Empty Spaces"
"Young Lust"
"One of My Turns"
"Don't Leave Me Now"
"Another Brick in the Wall Part 3"
"Goodbye Cruel World"

Intervalo

"Hey You"
"Is There Anybody Out There?"
"Nobody Home"
"Vera"
"Bring the Boys Back Home"
"Comfortably Numb"
"The Show Must Go On"
"In the Flesh"
"Run Like Hell"
"Waiting for the Worms"
"Stop"
"The Trial"
"Outside the Wall"

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