Chico Lobo amplia os horizontes da música caipira

Violonista lança disco que traz parcerias com Zeca Baleiro, Arnaldo Antues e Vitor Ramil; leia entrevista

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Em 1967, Edu Lobo e Marília Medalha sonhavam ter a viola para cantar ponteio, enquanto a MPB universitária fazia passeata contra as guitarras elétricas usadas por Roberto Carlos e pelos tropicalistas. Em especial a partir dali, MPB era MPB, música caipira era música caipira. As duas partes agiam como se não pertencessem uma à outra. Era tudo mentira, mas há quem acredite ainda hoje que tais distâncias sejam intransponíveis.

Artistas como o mineiro Chico Lobo, hoje 48 anos, construíram carreira dentro de cercados (ou muros) imaginários batizados ora de “música caipira”, ora de “música regionalista”, e assim por diante – “música sertaneja” também não valia, porque estava ocupada pelo pop urbano de raiz interiorana/rural hoje rebatizado “sertanejo universitário”, tornado líder das paradas do interior ao litoral, e mal aceito tanto por emepebistas como por caipiras “de raiz”.

Marcos Hermes / Divulgação
O músico Chico Lobo

“A gente chama a música que faz de regional propositalmente, porque é uma confusão. Se falar que é sertanejo, o público vai esperar Luan Santana ou algo parecido”, afirma Chico, tentando posicionar-se diante de sua própria música.

Ele próprio está em pleno movimento, após discos “caipiras” inspirados como “Reinado” (2000) e “Viola Caipira – Tradição, Causos e Crenças” (2002), lançados pela Kuarup. A gravadora foi um santuário para artistas dessa vertente, como Elomar, Xangai, Vital Farias, Heraldo do Monte, Renato Teixeira, Teca Calazans, Roberto Corrêa, Pena Branca & Xavantinho e outros, desde 1977 até o fechamento das porteiras em janeiro de 2009 (o selo foi reaberto neste ano, mas sem os fundadores Mário de Aratanha e Janine Houard).

Veja letras e ouça músicas de Chico Lobo

Chico acaba de lançar, pela gravadora Saravá Discos, de Zeca Baleiro, o disco “Caipira do Mundo”, que marca um amplo encontro entre sua música e a dita MPB. Acostumado a compor sozinho, aceitou o desafio da diretora artística da Saravá, Rossana Decelso, de aceitar parceiros letristas para uma nova leva de canções. Convocou logo 12: a paranaense Alice Ruiz, os paulistas Arnaldo Antunes e Maurício Pereira, o paraibano Chico César, o cearense Fausto Nilo, os mineiros Ricardo Aleixo e Vander Lee, os cariocas Sergio Natureza e Verônica Sabino, o pernambucano Siba, o gaúcho Vitor Ramil e o maranhense Zeca Baleiro.

Foi além e elaborou duetos com Zeca, Verônica, a paulista Virgínia Rosa e o mineiro Zé Geraldo, além da portuguesa Susana Travassos. “Confesso que tive um segundinho de pânico quando recebi as primeiras letras, de sair do meu lugar cômodo de sempre compor sozinho”, afirma. 

Marcos Hermes/Divulgação
Chico Lobo
As parcerias rendem alguns versos que de outra maneira talvez jamais aparecessem em suas canções, como os do divertido repente “Pra Onde Que Eu Tava Indo?”, escritos por Maurício Pereira: “Minha avó fritando bife/ meu tio pescou lambari/ a prima estuda sanfona/ os manos lendo gibi”.

A inesperada parceria com Arnaldo, ex-integrante da banda roqueira Titãs, rende uma confissão algo relutante de saturamento urbano, “Eu Ando Muito Cansado”: “Me sinto mesmo cansado/ de saber, saber de tudo/ e carregar esse fardo/ eu queria, mas não mudo”.

Uma outra participação expõe as influências originais do som de Chico. A Banda de Pau e Corda, de Pernambuco, toca em “Pássaro de Rima”, composta com Siba. “Não sei por que, mas desde os 12 ou 13 anos eu já mergulhava na viola e na música regionalista”, tenta explicar a música que, segundo seu verbo, optou por fazer. “Bebi muito do Movimento Armorial do Ariano Suassuna, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda. Gostava de Geraldo Vandré e do Quarteto Novo.”

Ele próprio teve formação universitária (em educação física, com pós-graduação em psicomotricidade) e vivência mais urbana do que rural (nasceu em São João del Rey e mora em Belo Horizonte). Se a princípio afirma não saber os porquês do amor pela viola, ao poucos acaba por explicitá-los: “Meu pai foi seresteiro, teve dupla caipira na juventude. São João del Rey é uma cidade barroca, com uma religiosidade que passa muito pela folia de reis, pela festa do divino”.

Continua, elaborando uma distinção entre as tradicões mineira e paulista: “Em São Paulo, a viola veio da dupla caipira. Em Minas, é mais associada à religiosidade, ao violeiro conectado à natureza de pontear a viola. Convivi muito com os mestres do sertão”.

Chico não se furta a opinar sobre as novas ondas sertanejas, encravadas de outro modo na forquilha impalpável entre cidade e sertão. “Não fico em cima do muro, não. O caipira era o sertanejo, a música do sertão, do interior, de quem tira o sustento da terra. Hoje há uma avalanche do chamado ‘sertanejo universitário’, que pra mim é um pop romântico que não guarda características originais, a não ser o fato de se cantar em duplas”.

O artista tateia explicações para a supremacia atual do sertanejo urbano, e universitário: “Com o êxodo rural, muita gente foi para as cidades na era da indústria, e quiseram pegar esse filão. A gente tem de compreender que a universidade e o meio estudantil sempre foram muito importantes para a formação da nossa música. Em momentos de alienação, a música de entretenimento chega muito fácil, com as festas de rodeio, o consumismo”.

Ele procura relativizar a rivalidade, mas demonstra que arestas existem, sim: “Não tem que ter uma briga com eles. Escolhi a viola com toda a cultura envolvida, e a aceitação é imediata quando ela chega ao público. O problema é que ela não chega à grande mídia, ocupada pelos sertanejos universitários”. Chegue ou não, a viola de Chico Lobo tem tido aceitação em diversos países da Europa, em especial Portugal, onde ele estabelece ligações com origens mais longínquas, da viola portuguesa, campaniça, de Alentejo.

Ele próprio atesta a ampliação constante dos horizontes: “Hoje a viola tem mostrado uma recuperação muito grande. Antes se contavam nos dedos os violeiros, Renato Andrade, Tião Carreiro, Almir Sater. Hoje são muitos violeiros espalhados pelo Brasil. Acho que é meio uma reação à globalização. As violas, como os tambores, refletem muito a identidade musical do Brasil”.

E o álbum “Caipira do Mundo” significaria uma reaproximação com aquela outra turma de origem universitária, a da sigla MPB? “Sim, eles se aproximaram um pouco do meu universo. As letras, por mais contemporâneas e filosóficas que sejam, têm sempre um fiozinho que as aproxima da minha cultura. E eu tive que me aproximar também da MPB, não podia colocar a viola como se fosse o meu trabalho individual. Foi muito bacana”, responde.

Não fossem os traumas e rupturas da era dos festivais (e da ditadura), talvez a música de Chico Lobo pudesse ser rotulada simplesmente como aquilo que é (e que as de emepebistas e sertanejos universitários também são, a seus modos): música popular brasileira. “Caipira do Mundo” trabalha, quase silencioso, para demolir preconceitos e divisões que por décadas foram entulhando o caminho das cantigas.

    Leia tudo sobre: música

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG