Chapeuzinho passa nervoso na floresta do Ibirapuera

Mallu Magalhães estreou turnê de seu novo disco em São Paulo

Pedro Alexandre Sanches, colaborador iG Cultura |

Ai, tô tão nervosa. É a oitava música da noite, e Mallu Magalhães ainda não conseguiu relaxar. Coragem, Mallu!, ordena a si própria, ao microfone. É muito grande aqui..., assusta-se, referindo-se ao Auditório Ibirapuera. É grande a tentação de afirmar que ela não está se saindo bem nesse show de estreia da turnê do segundo disco. Mas espere um momento. Em vez de julgá-la, experimente se imaginar na idade dela, 17 anos, e no lugar dela, comandando um palco com 800 espectadores que olham avidamente para você. Não parece razoável, parece?

Mallu permanece nervosa por todo o show, incomodada por uma troca frenética e infernal de instrumentos. Talvez mais nervosa que ela, a produção não a deixa em paz, não dá tempo para que se apegue a este ou àquele violão. São tantos instrumentos grandões nas mãos dessa menina pequena, parece que esta noite o lobo mau reencarnou na figura inofensiva de um banjo.

É fácil perceber que Mallu não tem autoridade sobre o público. Não tem, nem poderia ter. Alguém disse a essa doce menina que ela estava pronta ¿ o pai, alguns publicitários geniais, um bando de jornalistas escrevendo escrevendo escrevendo sobre ela. São (somos) todos cúmplices de uma crueldade.

Eu saí de uma escola de que eu gostava, e meus amigos dessa escola vieram hoje, a pequena comemora, morrendo de vontade de estar feliz. Os coleguinhas a aplaudem, solidários. Eles provavelmente só estudam, enquanto a amiga mais famosa deixa as bonecas de lado para pegar no pesado.

Espalhou-se isto por aí, mas, não, ela não é uma garota-prodígio. É uma menina de 17 anos forçada a trabalhar duro como a mulher feita e dona de si que ainda não é. Não deve ser por outra razão que pensa gostar tanto de folk ¿ aí está um gênero musical gringo que fala desesperadamente de prisão, escravidão, assuns pretos, blackbirds, exploração e desejos de libertação. Não é por outra razão que "Dont Think Twice, Its All Right", de Bob Dylan, veste tão sob medida nessa menina.

Durante a participação especial de Marcelo Camelo, o violão de Mallu faz um barulhão não programado. Ela pede desculpas. Me falaram para não pedir desculpas no palco, mas... Devem falar isso para todos no curso de boas maneiras para o palco, mas aos 17 anos a gente ainda guarda um tanto de rebeldia, ainda ousa desobedecer. Frustrada com a falha, Mallu não resiste e chora. Não é o meu choro de mulher fantasioso citado numa letra, mas o choro límpido, cristalino e muito real da menina que ela ainda é.

Ai, cansa..., desabafa, antes de cantar seu maior (maior?) sucesso. Se já a orientaram a não pedir desculpas, é certo que em breve vão ensiná-la a não dizer isso também. Mas se coloque mais uma vez em seu lugar, aos 17 anos, cantando e trocando de violão sem parar, tendo de prestar contas a público, pai, publicitários, jornalistas, cúmplices em geral. Sabe aquele pesadelo em que a gente se vê descalço na escola, sem ter como esconder da professora os pés desnudos? Já pensou viver esse sonho na realidade? Ai, cansa... é, sem sombra de dúvida, o instante mais importante de todo esse rito de crueldade.

Como é da psicologia humana, Mallu relaxa um pouco nos três ou quatro números finais ¿ o vislumbre da liberdade é o maior (maior?) nutriente de um prisioneiro, seja ela, sejamos nós. É uma garota adorável, e será uma artista adorável, se os gaviões lhe concedermos a gentileza de amadurecer em paz ¿ em paz e no tempo certo, sem essa caretice mercadológica de simular transferir a ela a maturidade que nós, adultos, não temos.

Sobre as canções do show? Vamos deixar para falar delas quando Mallu for maior?

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