Por Katia Abreu

Curioso o momento pelo qual passa o pop nacional. Por um lado assistimos à ascensão ¿ e cristalização ¿ de bandas como NxZero e Fresno como novos ídolos de nossa juventude (e temos ainda Mallu Magalhães correndo por fora, tentando abocanhar seu quinhão, numa posição mais confortável e menos histriônica). Por outro, bandas históricas lançam discos ao vivo celebrando suas longevas carreiras. E, colocando lado a lado esses lançamentos/fenômenos, temos um interessante quadro do que aconteceu com a cultura dita jovem no nosso país.

Se há no registro dos Paralamas e Titãs certo saudosismo consciente de serem veteranos, há neste Multishow Ao Vivo , gravado pelo Capital Inicial em Brasília, uma tentativa de não só passar a limpo a história, como de se firmar como a banda antiga mais jovem em atividade. Os altos e baixos da carreira de Dinho Ouro Preto, Fê Lemos e Flávio Lemos são trasmutados em gritaria pela histeria adolescente de cerca de um milhão de fãs que participaram do show, na Esplanada dos Ministérios, dia 21 de abril ¿ escolhida por ser a data em que se comemora o aniversário da Capital Federal e berço da banda e da explosão roqueira dos anos 80.

Em que se pese o fato de que artistas como Roberto Carlos, Caetano Veloso e os Mutantes, entre outros, terem se embrenhado pelo rock nos anos 60 e 70, é com a geração ointentista que se estabelece no Brasil, não por acaso junto com a abertura política, uma cena roqueira de fato, e é de lá que vem os heróis de nossos jovens. É na Legião Urbana (e quantos discos póstumos Renato Russo ainda vai nos revelar até o fim de nossas vidas?) que atinge seu ápice e é o Aborto Elétrico ¿ que já havia sido resgatado em especial da MTV, em 2005 ¿ a semente disso tudo.

O Capital retoma canções de sua banda-mãe como Que País é Esse? (Geração Coca-Cola, Fátima, Veraneio Vascaína e Música Urbana constam apenas na versão em DVD). O público conhece e canta junto ¿ e ainda que não haja, formalmente, nenhum viés político nisso, não deixa de ser um pouco irônico o fato de estas músicas terem sido registradas na Esplanada dos Ministérios, com névoas de desconfiança e desilusão pairando sob o céu de Brasília. Faz bem à juventude apática tomar contato com isto; faria mais ainda se houvesse algum tipo de indignação e identificação real com o que é cantado ali. Mas, como mudou a música, mudaram os jovens. E esta geração, criada já num Brasil democrático, não parece mesmo interessada em grandes revoluções.

Cantam a plenos pulmões baladas mais recentes do grupo, como Não Olhe Pra Trás, Olhos Vermelhos e o hit absoluto Primeiros Erros. E há ainda Natasha, que recolocou o Capital Inicial no panteão dos ícones pop deste século, e que junto com Quatro Vezes Você explicam com perfeição o porquê de Dinho Ouro Preto conseguir manter uma espécie de juventude eterna, ao menos em sua persona pop. Ele canta sobre o que realmente importa para os jovens de hoje: é a menina roqueira, de minissaia e botas de vinil, vagando pela cidade; são as coisas que são feitas escondidas, como beijar outras meninas. É um hedonismo algo romântico e libertário, que funciona, apesar de soar anacrônico, ainda mais pra um grupo que já tratou da liberdade de modo mais interessante em Independência, por exemplo.
Em Mais, do disco Rosas e Vinho Tinto (2002), que abre o show, Dinho revela no refrão: Eu sempre quero mais do que eu posso ter. A julgar por sua boa aparência e pelo sucesso ¿ que independe da relevância de suas atuais composições (as novas Passos Falsos e Dançando com a Lua não trazem nada de novo) ¿, ele está tentando descobrir a fonte da juventude. E está garantindo sua sobrevivência na memória afetiva de jovens que só querem mesmo é dançar.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.