Cantora Stela Campos lança disco cru e garageiro

Cantora fala sobre Mustang Bar, seu quarto álbum solo

Juliana Zambelo |

Mustang Bar é um espaço tradicional de Recife por atrair, no fim das madrugadas, todos os boêmios que sobreviveram à noite da capital pernambucana. Mais como uma lembrança do que como uma homenagem, é esse bar que dá nome ao mais novo álbum de Stela Campos.

Cantora e compositora paulista com 20 anos de carreira, Stela já criou e passou por bandas e projetos diversos, morou em Recife por seis anos durante a década de 1990, quando sentiu de perto a efervescência do mangue beat. Lá, foi definida por Chico Science como Billie Holiday de garagem, e agora, há muito de volta a São Paulo, ela chega ao quarto álbum solo.

Fugindo de rótulos e classificações, Mustang Bar tem psicodelia, folk, krautrock, rock garageiro, português, inglês e francês. Ele foi gravado entre julho e setembro do ano passado após uma intensa pré-produção caseira e teve, na produção, o trabalho de Clayton Martin (integrante do Cidadão Instigado) e Missionário José (que já trabalhou com Mombojó, Bonde do Rolê e Sivuca). Como em seus trabalhos anteriores, Stela canta neste disco retratos urbanos desenhados pelo parceiro e marido Luciano Buarque.

Nesta quarta-feira, Stela Campos se apresenta no Studio SP para mostrar o repertório de Mustang Bar . Por email, ela falou ao i G Música sobre  Mustang Bar  e a sobrevivência no cenário independente:

Quando surgiu a idéia ou a vontade de gravar um disco mais cru? As músicas de Mustang Bar já nasceram sob essa ótica?
Sim. No Hotel Continental , meu disco anterior, tem uma música chamada Girl From 33, que foi incluída como faixa bônus - por destoar do restante do material. Essa faixa foi gravada de primeira, com as guitarras no talo. Foi um momento de redenção garageira. Pois percebi o quanto sentia falta dessa estética, que era algo que fazia parte da minha trajetória pré-carreira solo. Quer dizer, meu som sempre foi experimental, mas vinha se afastando da estrutura roqueira em favor do folk eletrônico. Em Mustang Bar , a gente quis retomar essa linha e injetar mais adrenalina no repertório.

O que você aprendeu com os discos anteriores que pode aplicar nesse trabalho?
Mustang Bar não deixa de ser uma continuação do que eu já vinha fazendo. Meu lema pessoal de composição é deixar a melodia sugerir os arranjos, as paisagens sonoras, sem me preocupar com barreiras estilísticas. Como meus outros trabalhos, Mustang Bar é um mosaico das coisas que me influenciam. Acho legal quem se concentra e se especializa num determinado gênero, mas na minha linha de trabalho sou discípula de artistas que tendem a ser híbridos, como Serge Gainsbourg, Beck e David Bowie.

As personagens das suas músicas nascem de pessoas reais específicas?
São personagens fictícios, mas de alguma forma há um sentimento autobiográfico. A gente se identifica com os personagens. Às vezes, eles servem de escudo para a gente não se expor tanto.

O seu parceiro de composição é o seu marido. Como funciona a parceria de vocês? Ela se mistura com o relacionamento e a vida pessoal?
Sim, mistura um pouco. De uma forma muito positiva, ainda que a gente tenha que bater boca no café da manhã sobre músicas mal resolvidas e etc. Mas nossa parceria musical já é tão antiga, está tão integrada à nossa relação, que a gente nem pensa sobre isso.

Desde o ano passado você tem lançado singles virtuais ( disponíveis para download em seu site oficial ), mas não abriu mão de lançar o álbum em CD. Até onde ou quando você acha que a música no suporte físico será importante?
Eu ainda acho importante o álbum físico ¿ o lance de folhear o encarte, de associar a arte gráfica à música, etc. É um hábito de colecionadora que eu não vou perder. Como todo mundo, baixo música sem parar, mas uso os mp3s como um filtro para as coisas que valem a pena comprar e pôr na coleção. Talvez o álbum físico seja irrelevante para as novas gerações, mas com certeza não sou a única consumidora saudosista por aí. Como artista, porém, estou chegando numa fase de aceitar a decadência do formato e tentar tirar algum proveito da situação. Sim, a ideia do formato digital é muito mais viável e econômica ¿ pode ser que Mustang Bar seja meu último disco físico. Mas isso é tão incerto quanto o futuro da indústria fonográfica. Independente de qualquer coisa, ainda penso em editar alguma coisa em vinil no futuro.

Você disse recentemente em uma entrevista que, por estar "no circuito indie há muito tempo, minha expectativa tende a ser neutra". Quando você passou a encarar sua carreira dessa forma?
Para falar a verdade, tenho que corrigir isto. Não dá para dizer que não há qualquer expectativa. Quando se lança um disco, a gente espera que as pessoas ouçam, gostem ¿ claro. O que eu quis dizer é que, para mim, é preciso manter uma perspectiva idealista em toda a empreitada. A gente faz um disco acreditando no repertório, com consciência limpa de que fizemos um bom trabalho, sincero e longe do lugar comum. Mas o retorno disto está lançado à sorte. Boa ou má, não dá para se submeter a ela.

Stela Campos no Studio SP
Projeto Baile Punk
Abertura: Hitchcocks
Quando: Quarta, 19 de agosto, a partir das 23h
Rua Augusta, 591 ¿ Centro ¿ São Paulo, SP
R$ 25 (porta) e R$ 15 (lista: studiosp@studiosp;org )
(11) 3129-7040

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